Opinião

O vazio e a catedral 

Charles Platiau

Artigo de Opinião de Joaquim Franco

A edificação do pensamento religioso faz-se na vertical, pelo abstrato que inquieta. E é no espaço visível, entre o efémero e perene, que essa procura se revela para assegurar a horizontalidade da vivência religiosa. Registo de civilizações, um edifício religioso imprime uma marca intemporal, reflexo de uma experiência, de uma comunidade, também de poderes paradoxais, com sombras e luzes. A busca é representada em altura ou nas alturas, uma “ligação” para tocar o alto ou no alto desenhar os contornos de um convite, de um aviso. Ali, procura-se. E é na teimosia dessa procura que estes locais altos de sentido se reconstroem e reformam.

Mesmo quando perde a sua função operacional, um local de culto religioso tende a prevalecer, embora seja provisório no tempo cronológico. Ao vermos arder e desabar o pináculo e a cobertura de uma catedral, não estamos por isso a assistir apenas a um incidente arquitetónico ou de engenharia. É um choque civilizacional. Desaba também a carga simbólica de um local de encontros, representações e pertenças sujeitas à reedificação, umas vezes mais dramática e radical, com destruição, outras pela inevitabilidade da manutenção e pelas mutações culturais que equacionam ciclicamente a arte e a estética.

Notre Dame de Paris entra assim neste ciclo de Fénix, em que a cinza põe à prova a comunidade e testa a perenidade do seu símbolo. Fosse por dolo ou seja por acidente, a imagem é obviamente dolorosa. A catedral de Paris é também a história de cada um dos 13 milhões de visitantes, com ou sem fé, que ali passam anualmente numa experiência intransmissível, agarrada a um momento irrepetível. A tragédia deixa uma transitória sensação de “vazio”. O que era, deixou de ser.

Duas ironias nos assaltam. Aconteceu quando se iniciavam operações de restauro e num período especial – a Semana Santa – para a comunidade de crentes ali acolhida. Em contexto religioso, o acaso é ocasião e a leitura dos dias conjuga-se com as narrativas evangélicas de um “vazio” que ganha forma num incêndio.

Já se elaboraram muitas teses sobre um túmulo vazio, contado e recontado, replicado em procissões e celebrações, aleluias e compassos, legitimador da fé cristã, capaz de juntar famílias e comunidades, ou repudiado e lançado entre mitos construídos no andar da história.

Assim como nas narrativas judaicas há uma passagem – pessach que abre caminho à libertação de um povo, na literatura pascal cristã tudo (re)começa num túmulo vazio, passo derradeiro de uma passagem que (re)inicia a contagem. Um “vazio” de perguntas, a trabalhar de dentro e por dentro. Depois da perplexidade, as mulheres acreditaram no que lhes disse um mensageiro: “Não está aqui, ressuscitou” (Lc 24, 6). Mas os seguidores só agarram a convicção depois de uma caminhada com o “ressuscitado”, que não reconheceram à primeira.

Nas narrativas de viagem da antiguidade, a morte experimentava também este “vazio” na travessia de um barqueiro. Pelos deuses flutuantes dos nossos mediterrâneos, revelavam-se odisseias de Procura, passagens de mares tumultuosos, como se uma utopia em potência, uma Feaces de acolhimentos incondicionais, implicasse um adormecimento tempestuoso que esvazia passados para reencaminhar na direção de uma chegada, de uma recompensa.

Numa miríade de possibilidades filosóficas e teológicas, as experiências religiosas vivem com e neste “vazio”, enquadrando o sofrimento, tentando compreender os limites, sondando o apeiron – indefinido e ilimitado – para elaborar uma ética de convivência e libertação. Tendo diferentes concepções, a caridade cristã tem assim uma similitude com o dharma hindu ou a umma islâmica. Como a vida eterna pela salvação, terá uma similitude com a moksha hindu ou o nirvana budista.

Para Rudolf Otto é a vivência que dá sustento à religião. O demais é apenas a tentativa de racionalizar, enquadrar e/ou explicar. Miguel Real (Fátima e a Cultura Portuguesa, D. Quixote, 2018) intui que esta “Presença”, sentimento do sagrado, “não necessita da religião para se realizar, realiza-se contemplando ou experimentando (sensibilidade) o seu próprio vazio”, uma “emoção humana vazia (…) amplificadora do sentido dos seres, dotando-a de um sentido transcendente”.

Na contemplação e na experiência sensitiva, na oração ou em meditação, a procura de sentido implicará este “vazio” onde o essencial encontra a essência para abrir tempos e espaços de recomeço. Este, chamemos-lhe, pulsar universal religioso, ganha vigor nestes dias e encontra-se no acaso de uma tragédia monumental. Porque a Páscoa – passagem ultrapassa a semiótica do calendário, vive para lá da hermenêutica cristã, embora nesta se legitime uma interpretação.

A demonstração é do domínio das ciências exactas, dos naturais, reais e complexos matemáticos, e mesmo estes não prescindem das variáveis, dos axiomas, dos conjuntos vazios, dos imaginários, da imprevisibilidade dos infinitos. Numa linear equação com incógnitas, a fé aplica uma constante. Se a vida vence a morte, quem a dá recebe-a. Incapazes de o dizer de outra forma, os seguidores chamam-lhe “ressurreição”… de uma pessoa que volta a ganhar ânimo, que se reergue sem as amarras da finitude. A condição humana, por si só, não o explica todo, nem tudo pode explicar. É a esperança no “vazio”, como a convicção pode ser vontade e força imparável que surpreende.

Dir-se-á que são dimensões distintas e retórica desadequada, mas para os cristãos há uma pergunta que não pode deixar de se fazer: entre a reconstrução de um histórico edifício de culto e o apoio a um povo desolado pela intempérie, a enfrentar a fome e a doença, qual seria a prioridade daquele que, segundo os textos evangélicos, se comparou a um templo – “Derrubai este templo e em três dias o levantarei” (Jo 2, 9)?