Opinião

A vida no seu todo e a exigência de responsabilidade 

Texto de Opinião de Joaquim Franco

1. Na recente Carta Pastoral aos católicos, que pretende também ser o contributo da Igreja em Portugal para a reflexão sobre as eleições europeias e legislativas, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) ensaia uma síntese do pensamento social cristão, conhecido como Doutrina Social da Igreja. O documento, com o contributo da Comissão Nacional Justiça e Paz, faz uma abordagem cristã e católica ao tempo que se vive e ao tempo que vem, no país e na Europa.

O episcopado começa por esclarecer que o “direito à vida” não se limita ao debate fraturante. Reafirma-se a doutrina da Igreja católica em relação ao aborto e à eutanásia mas, num capítulo inteiro intitulado “Toda a vida humana tem igual valor”, enquadra-se o conceito em nove sub-temas (e podiam ser mais): Direito à vida na sua gestação; Direito à vida na fase do seu crescimento; Direito à vida por parte de jovens comprometidos; Direito à vida nas relações familiares; Direito à vida da parte dos idosos; Direito a viver até ao fim; Direito à vida na liberdade religiosa; Direito à vida na sua componente económica; Direito à vida na sua componente demográfica.

Nos restantes capítulos faz-se uma reflexão sobre a democracia exercitada em maiorias partidárias – “(…) a democracia, que supõe o respeito pela regra da maioria, não pode assentar no seu domínio absoluto (…)” –, aborda-se a corrupção condenando a fuga aos impostos e denunciando o recurso à “cunha”, relembra-se que no pensamento social cristão “o destino universal dos bens prevalece sobre o direito à propriedade”, apela-se à “melhor distribuição de rendimentos para uma sociedade mais coesa”, à “solidariedade com as gerações futuras no cuidado da criação”, ao respeito pelo princípio da subsidiaridade, nomeadamente na educação, saúde e apoio social, critica-se o abuso da “laboração contínua” e defende-se o domingo como dia generalizado de descanso. Faltam referências mais explícitas à gravidade das alterações climáticas, respetivas consequências sociais, económicas e políticas

2. Têm particular ênfase as referências aos migrantes e à unidade da Europa. Reforçando o papel do Papa Francisco na defesa da dignidade e acolhimento de migrantes, os bispos católicos insistem nos “quatro verbos em que se devem inspirar as políticas”: acolher, proteger, promover e integrar. Os dados do Observatório para as Migrações revelam ser maior o contributo financeiro dos imigrantes para o Estado português, do que as prestações de que beneficiam. A Igreja conclui que os migrantes “podem contribuir para o desenvolvimento quer dos países de origem, quer de destino”.

A CEP verifica “movimentos de desagregação da União Europeia”, com recurso a um discurso anti-imigração, que apanha os refugiados, e um “crescente nacionalismo autoritário ou populista”, xenófobo e islamofóbico, que faz regressar também “ideologias neonazis e anti-semitas”, não escapando “as próprias comunidades cristãs e os seus templos que têm sido vítimas de atentados”. Esta intolerância tem o ódio como alimento.

Nas palavras do cardeal António Marto, bispo de Leiria-Fátima e vice-presidente da CEP, falta uma “narrativa de esperança para a Europa, que vença os mais diversos medos que a assaltam”. Não se compreende por isso que um grupo de cidadãos, que se assumem publicamente como católicos, empenhado na causa da “defesa da vida” na fase de gestação, chegue ao ponto de hierarquizar sugestões de voto (www.dn.pt), valorizando apenas alguns aspetos do todo, sustentando assim um partido nos antípodas do pensamento social cristão, nomeadamente em relação aos migrantes e refugiados. O Patriarcado de Lisboa replicou nas redes esta insólita hierarquização do voto, retirando-a depois, reconhecendo ter sido uma “imprudência”.

Na linha da Doutrina Social da Igreja, a opção política corresponde a um discernimento de ponderações várias, para, tendo em conta a circunstância, promover e defender o “bem comum”. Lembrando o cardeal-patriarca de Lisboa e presidente da CEP, Manuel Clemente, num comentário à referida Carta Pastoral: “Só podemos intervir enquanto mobilizadores de consciência, quando chegar a altura de votar, cada um vota por si e é a consciência que trabalha”.

3. O que está em causa no atual período eleitoral é demasiado sério para ser jogado numa arena de debates irresponsáveis e de estreito alcance. A demagogia das palavras cortantes é cada vez mais perigosa e a brandura racional dos pensadores não tem superado os medos fabricados.

A democracia falará pela expressão do voto, mas o exercício da democracia faz-se na base de convicções. Convicções estas moldadas hoje mais por redes de sociabilização com distanciamento e anonimato, do que por relações concretas e conhecimento.

Conta mais a emoção do que a razão – este binómio sempre existiu na balança das opções, mas a sua relevância ampliou-se –, a velocidade do que a ponderação – problema grave em particular no exercício jornalístico, abrindo espaço à precipitação, ao erro e à notícia falsa –, a síntese do que a contextualização elaborada. Não há busca de argumentação e a capacidade de análise perde-se.

Contrariando as possibilidades da própria tecnologia, por via das plataformas de comunicação em rede, com modelos de difusão algorítmica e tribal, criam-se perigosas armadilhas para formatação de ideias, ampliam-se preconceitos e exclusões, desenvolvem-se pequenos “mundos” de convicções desviantes e irrefletidas.

Ignacio Ramonet (A Tirania da Comunicação, 1999) refletia há 20 anos sobre uma hiper-emotividade assente na dependência da televisão, capaz de criar “messias mediáticos” à “escala planetária”, baseados “na emoção e na compaixão”, que falem “do sofrimento dos excluídos como Paulo Coelho fala da ascese do espírito”. O século XXI trouxe outras ferramentas para redesenhar esse “messianismo”, sem narrativas de esperança, mas com medos mobilizadores.

Torna-se assim imprescindível a prudência na comunicação. Mais ainda entre os que têm, ou pretendem ter, uma intervenção política inspirada no humanismo, na liberdade, na dignidade da pessoa humana. Partidos e políticos ativos, como quaisquer associações, grupos ou indivíduos que representem interesses no quadro democrático, ético e humanista – entendendo-se este humanismo como inclusivo das dimensões espirituais e de crença – têm a responsabilidade de esclarecer as diferenças sem permitir ambiguidades.

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