Opinião

Política externa americana à deriva

O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, disse recentemente que a política externa da administração Trump de baseia no “realismo, moderação e respeito”. É difícil crer que ele próprio acredite nisso.

Substituo a minha cronica semanal por um ensaio publicado na revista Foreign Affairs, por Brett McGurk, professor universitário e diplomata durante as presidências Bush, Obama e Trump. Demitiu-se de Enviado Presidencial Especial na luta contra o estado islâmico, em protesto contra a política de Trump na Síria. O que se segue é uma versão adaptada do ensaio de McGurk, resumindo a ideia de que Pompeo apela ao realismo, mas Trump não está interessado.

Num discurso recente, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, afirmou que a política externa de Donald Trump se baseia num “realismo” que escapou aos seus antecessores e está alicerçada no “realismo, moderação e respeito”.

Pompeo sugere que Trump age com cautela e evita compromissos excessivos no exterior. “Não mais”, segundo ele, os Estados Unidos “se engajarão em conflitos sem um claro sentido de missão”. Citando George Washington, disse que Trump está a construir alianças baseadas em “humanidade e interesse” para servir os valores fundamentais do país.

Infelizmente, as políticas de Trump têm pouca semelhança com as descritas por Pompeo. A equipa de segurança nacional dos EUA arrisca repetir o que Pompeo identificou como os piores excessos da política externa dos últimos 18 anos.

Após o 11 de Setembro, Washington prosseguiu grandes objetivos de política externa exigindo investimentos irrazoáveis sem apoio da opinião pública.

O presidente George W. Bush embarcou em guerras que começaram com objetivos claros (remover os talibã do Afeganistão e Saddam Hussein do Iraque), e se transformaram em campanhas de décadas para democratizar sociedades que os líderes americanos compreendiam mal. O presidente Barack Obama estabeleceu uma meta ambiciosa - mudança de regime - na Síria e na Líbia, mas não deu muita importância à estratégia para a alcançar e para o dia seguinte. Bashar al-Assad ainda está no poder e a Líbia é um desastre.

Ouvindo Pompeo, acredita-se que os Estados Unidos encerraram o capítulo dos grandiosos objetivos de mudança de regime. As suas palavras sugeremque é hora de os Estados Unidos mobilizarem os seus próprios recursos para prepararem uma nova era de competição, entre as grandes potências, contra a China e a Rússia.

Mas este ênfase no realismo e na contenção não reflete a política externa de Trump. Trump pode nem se aperceber disso, mas especialmente desde a nomeação de John Bolton como conselheiro de segurança nacional, no ano passado, o seu governo tem prosseguido, de facto, políticas de mudança de regime não em um, mas três países: Venezuela, Síria e Irão.

Na Venezuela, foi estabelecido um objetivo de soma zero - “Maduro deve sair” - sem nenhum plano credível para o concretizar, para além de sanções e tweet. As sanções são um instrumento eficaz quando vinculadas a objetivos políticos limitados, mas nunca conseguiram mudar um regime. Cada dia que Maduro permanece no poder, os Estados Unidos parecem fracos e irresponsáveis, particularmente em comparação com a Rússia e a China, ambos patrocinadores do regime de Maduro. Há poucas probabilidades de Washington atingir seu objetivo na ausência de uma acção militar que poucos parecem querer.

Embora os Estados Unidos não exijam explicitamente uma mudança de regime no Irão e na Síria, é isso que as suas políticas indicam. Na Síria, os objetivos americanos são tão vastos que não fazem sentido, dado o baixo nível de investimento de Washington no país e o desejo repetidamente declarado de Trump de o abandonar completamente. Autoridades americanas recentemente confirmaram que os objetivos dos EUA na Síria incluem a expulsão de “todas as forças lideradas pelo Irão” e a conclusão de um processo político através do qual Assad seria responsabilizado por crimes de guerra. Nenhum desses objetivos tem hipóteses realistas de ser cumprido, mesmo que os Estados Unidos aumentem maciçamente seu compromisso em tropas e recursos na Síria, o que não farão. Trump está a correr para um beco sem saída - em beneficio da China e da Rússia, que parecem ter muito mais disciplina ao declarar objetivos realistas de curto prazo e muito menos escrúpulos nos meios utilizados para os alcançar.

No Irão, a administração parece não conseguir consenso quanto a um objetivo, mesmo que procure implodir o país por meio de “pressão máxima” e sanções. Pompeo quer que o Irão seja "um país normal" e publicou uma lista de 12 exigências drásticas (acrescentando, depois, mais uma) que nenhum especialista espera que os iranianos aceitem. O conselheiro de Segurança nacional, John Bolton sugeriu que o líder supremo, aiatolá Khamenei, poderá estar fora do poder daqui a um ano. Em contraste, Trump, pediu ao Irão que o contacte diretamente e fez chegar a Teerão um número de telefone privado da Casa Branca. Sem que aparentemente ninguém esteja encarregado da política para Irão, o resultado líquido é uma política de sanções cada vez mais numerosas, imposta sem o apoio dos aliados e sem uma plataforma viável para o Irão entrar nas negociações, já que ninguém, incluindo os iranianos, sabe o que o eles devem negociar. Sem perspectiva de conversações, a pressão torna-se um fim em si, gera pressão contrária e um risco crescente de conflito.

Trump odeia parecer fraco, mas é isso que a sua política externa o faz parecer. Uma estratégia sólida exige que os líderes hierarquizem os seus objetivos, os ajustem aos recursos disponíveis e os saibam efetivamente gerir. À luz destas regras, a política externa dos EUA é hoje, por definição, não estratégica, afirmando continuamente objetivos sem ponderar se podem realisticamente ser alcançados. O resultado é que as tácticas substituem a estratégia.

A maioria dos analistas americanos concorda que o mundo seria muito melhor se Maduro, Assad e Khamenei fossem substituídos por líderes moderados amigos dos Estados Unidos. Mas eles não cairão com um curso infrutífero e dispendioso de acção. As políticas de mudança de regime são dispendiosas, demoradas e incertas: raramente produzem objetivos declarados e mesmo quando isso acontece os benefícios para os Estados Unidos raramente superam seus custos em sangue, tesouro e efeitos secundários.

Trump, como Obama, prometeu durante sua campanha presidencial reduzir os compromissos americanos no exterior, e poucos candidatos democratas às presidenciais de 2020 defendem mudanças de regime ou novas intervenções militares no estrangeiro. Uma recente sondagem do Centro para o Progresso Americano sugere que, embora o povo americano não seja isolacionista, quer que seus líderes fortaleçam a frente interna (reforçando as infra-estruturas, os serviços de saúde e a educação) actuando de forma comedida no mundo. Tal fórmula alinha com o tema central do discurso de Pompeo, mas é contrária ao funcionamento quotidiano da administração Trump.

A essência do discurso de Pompeo – uma política externa baseada na humildade e contenção – pode, em última análise ainda que involuntariamente, apontar um novo consenso bipartidário sobre o papel dos Estados Unidos no mundo.

Seria uma política ancorada no reforço interno, alinhando fins com meios, prudente no uso da força, e concertando acções com aliados que também enfrentam uma China crescente e revanchista. Trump e aqueles que trabalham para ele podem acreditar que são administradores de tal política. Mas os seus tweets impulsivos e a falta de deliberação estratégica ou processo de tomada de decisões impossibilitam qualquer coerência nas relações exteriores. O resultado líquido é que os adversários de Washington se fortalecem, seus aliados estão perplexos e suas alianças desgastadas. Observadores em todo o mundo vêem a “saúde e o vigor” da sociedade americana a esgotar-se de mês a mês.

Uma citação importante não incluída no discurso de Pompeo é de um dos mais famosos fundadores dos EUA, Alexander Hamilton. Escrevendo em 1800 sobre os atributos necessários para guiar o país, Hamilton apontou para o “modesto e sábio” Washington, que como presidente "consultou muito, ponderou muito, resolveu lentamente, resolveu com sabedoria".

Trump não poderia ser mais diferente. Raramente consulta. Nunca pondera. Quase nada resolve. Faz pouco sabiamente. A sua política externa é um caos, e não a prudência e comedimento imaginados por Pompeo e exigidos pela maioria do povo americano. Aqueles que agora buscam a presidência, e que estão preparados para concorrer contra Trump com base no mérito da sua política externa, têm uma oportunidade de assimilar esse consenso emergente e definir um papel mais inteligente para os Estados Unidos no exterior baseado no verdadeiro significado do tríptico de Pompeo: “realismo, contenção e respeito ”.

Republicanos e democratas poderão eventualmente concordar com esta fórmula. Os Estados Unidos seriam muito mais fortes se o fizessem.

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