Opinião

Trump e as "fake sanctions" contra os aiatolas

A opinião de Luís Costa Ribas.

O Irão estava já sujeito a 1.000 sanções. E se dúvidas houvesse sobre a desordem que reina na Casa Branca de Donald Trump, bastaria reparar no anúncio, esta segunda-feira, das “fortes medidas” punitivas contra o Irão pelo derrube de um drone americano: sanções falsas e soldados que não combatem.

No sábado passado, 22 de Junho, Donald Trump anunciou “grandes sanções” contra o Irão. Dois dias mais tarde, anunciou, numa cerimónia na Casa Branca, sanções que não existem e mil soldados que não vão combater.

As sanções, anunciadas como medidas contra o clérigo supremo do regime, Ali Khamenei, sem explicação nem pormenor. E apesar de Trump as ter considerado retaliação pelo derrube do drone, o seu secretário do Tesouro, Steve Mnuchin, confirmou que estavam em preparação há bastante tempo, mas recusou-se a indicar pormenores, sobre o que são e como funcionam, para além de referir que atingem milhares de milhões de dólares em activos iranianos.

Esta incapacidade de explicar detalhadamente as medidas punitivas foi vista com cepticismo, por analistas ao lembrarem que não há muita margem de manobra para novas medidas porque o Irão está sujeito a mil sançõeseconómicas, que abrangem os interesses económicos de Khamenei.

Numa entrevista à emissora NPR (National Public Radio) Suzanne Malloney, conselheira para assuntos iranianos no Departamento de Estado durante a administração de George W Bush, considerou o anúncio das sanções como fumaça: “são uma reacção” a declarações conciliatórias de Trump sobre o Irão no fim-de-semana, e à sua decisão de não retaliar pelo derrube do drone. Considera, ainda, que para além de haver pouco por onde punir, a economia iraniana tem maior capacidade de resistência, devido a sanções passadas, pelo que duvida que esta pressão leve Teerão a renegociar o acordo nuclear, como Trump pretende

O segundo anúncio, na semana anterior, foi o envio de mais tropas americanas para o Golfo Pérsico. Mas os mil efectivos a destacar, não são combatentes. Para além do número insignificante para efeitos de dissuasão – as duas guerras do golfo envolveram, cada uma, mais de 120 mil soldados – sabe-se são especialistas em inteligência, reconhecimento e vigilância. Não há aumento visível do poder de fogo. Num cenário que lembra a “gestão” do dossiê da Coreia do Norte, Trump tropeça em si mesmo e não consegue demonstrar que tem uma politica pensada para o Golfo Pérsico. Tudo o que precisa é de meia dúzia de frases bombásticas para mostrar à sua base eleitoral que é um durão.

O mundo preocupa-se com a região porque por ali passa 40% do petróleo mundial. Mas Trump não se preocupa porque os EUA já só importam 10% do seu petróleo no Médio Oriente. Mas para a restante comunidade internacional, a instabilidade é um caso sério

Quem estava habituado, nos últimos anos, a ver Washington como promotora da estabilidade como base para o crescimento e segurança, não se cansa de se preocupar

As atitudes de Trump mesmo quando parecem bluffs aparentemente inconseqüentes, são perigosas porque desmontam as regras de convivência internacional e convidam à barbárie e à anarquia. Atente-se à impunidade com que os amigos sauditas de Trump assassinaram e esquartejaram um colunista do Washington Post.

Mesmo quem não gosta do Irão, da sua promoção do terrorismo e dos seus desafios às normas de convivência internacional, convirá que é ridícula a situação em que se encontra de sofrer sanções por cumprir o que o Acordo Internacional de 2015 lhe impôs. Os EUA de Trump denunciaram o acordo e desvincularam-se mas exigem a Teerão que o cumpra. Quando Teerão anunciou que tenciona violar o acordo, os mesmos EUA de Trump ameaçam retaliar, usando a confusão como desculpa pela ausência de estratégia, criando instabilidade sem margem para sucesso.

Para ensinar lições a países párias é precisa vantagem moral e política. Trump não tem uma, nem outra.

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