Opinião

De “pobre padre” a cardeal

A opinião de Joaquim Franco.

É este. Não digas nada a ninguém. Não quero que ponham pedras no caminho.

As palavras não foram exatamente estas. Quem as contou, já não as lembra com certeza milimétrica. Mas percebe-se o sentido. No final daquele retiro de Quaresma para a Cúria, em fevereiro de 2018, Francisco estava convencido. O que ouvira correspondia ao que já lhe haviam contado e ao que lera.

O jovem padre português traçara naqueles dias um itinerário de introspeção que saciara o Papa argentino. Francisco tinha-lhe dito para se sentir à vontade e dizer o que entendesse que devia dizer. Com esta liberdade, o "pobre padre", como o próprio José Tolentino se via naquele retiro, mergulhou nas sedes do mundo para, embalado por poetas, filósofos e pensadores que o deslumbram, cristãos e não-cristãos, de Fernando Pessoa a Etty Hillesum, desenhar um percurso de silêncio(s) na reflexão dos cardeais da Cúria.

“O Elogio da Sede”, assim se intitularam as 10 meditações preparadas pelo sacerdote português, tocaram o pontífice, que agradeceu “o chamamento para nos abrirmos sem medo, sem rigidez, para sermos suaves no Espírito e não mumificados nas nossas estruturas que nos fecham”, concluindo com um “obrigado padre”.

Logo ali, ainda os cardeais não tinham deixado a Casa Divino Maestro, nos arredores de Roma, Francisco confidenciou a um colaborador próximo que aquele padre era a pessoa certa.

Francisco foi eficazmente discreto, não esperou pelo demorado processo formal de nomeações episcopais, que pode levar meses ou anos, sujeito a questionários sigilosos e jogos de influência nos gabinetes. Cinco meses depois nomeou José Tolentino Mendonça para o episcopado, assumindo a direção da Biblioteca e dos Arquivos do Vaticano, no decorrer de uma reforma da Cúria que pode levá-lo à presidência de um dicastério.

A notícia da nomeação para o colégio cardinalício dependia apenas da oportunidade e do tempo discernido. Um retiro de Quaresma deu assim a conhecer um futuro cardeal ao Papa Francisco. Pela tradição, os cardeais são uma “criação” do Papa. E neste caso sem constrangimentos ou inerências.

O colégio de cardeais eleitores ganha uma cada vez maior sensibilidade bergogliana, que, não significando uma segura maioria de 2/3 na escolha do sucessor, garante já o paradigma franciscano de um papado ao serviço, em autenticidade, “sem medos”, aberto à diversidade e ao diálogo com o mundo.

Com José Tolentino Mendonça, Portugal tem, à data de hoje, três cardeais na linha de sucessão, ou seja, três cardeais com o direito e o dever de escolher o sucessor de Francisco num eventual Conclave. Escolher ou ser escolhido.

Não é por ter mais um cardeal que o catolicismo português ou de língua portuguesa passa a ter mais relevo no Vaticano ou num Conclave. Contudo, tendo também no horizonte a Jornada Mundial da Juventude, é inegável a projeção que Francisco dá à Igreja portuguesa. A semana só não é totalmente em alta para a Igreja em Portugal porque sobra ainda o espanto (1) com o anúncio do novo embaixador da Santa Sé em Lisboa.

Língua, nacionalidade ou idade, não são os principais critérios na escolha de um Papa. Os prévios debates entre os cerca de 120 que hão-de entrar na Capela Sistina, são importantes para alinhar sensibilidades e perfis. Tome-se, como exemplo, a eleição de Jorge Mario Bergoglio. Mas o percurso pastoral e académico, o prestígio intelectual e a idade – com 53 anos, é um dos mais novos cardeais –, a rápida ascensão ao cardinalato – em ano e meio foi de “pobre padre” a cardeal –, fazem acender os projetores dos analistas sobre José Tolentino Mendonça. Tem pela frente quase três décadas de história a construir até ao limite de idade para os cardeais eleitores. E só os primeiros 19 anos deste século já conheceram três papas. Outro tempo discernido dirá se aquele retiro terá dado a conhecer mais do que um bibliotecário e arquivista, que vê “fogo” nas palavras e nas bibliotecas um “projeto de resistência” à barbárie.

(1) Vindo do Chile, o Núncio apostólico Ivo Scapolo traz também a ambiguidade na forma como tratou dos casos de pedofilia naquele país. Acusado por vítimas de ter defendido um bispo que encobriu o caso de um padre abusador, da suspeita, pelo menos, o novo Núncio não se livra.