Opinião

Ataques iranianos contra petróleo saudita mostram incompetência de Trump

Sarah Silbiger

Luís Costa Ribas

Luís Costa Ribas

Impressões da América

O ataque contra as instalações petrolíferas sauditas expôs a subserviência de Trump a Riade e a ausência de estratégia da politica externa americana.

O ataque, muito provavelmente perpetrado pelo Irão ou seus aliados, contra instalações petrolíferas da Arábia Saudita é grave e não apenas por afectar porção significativa da produção mundial – põe também a nu a incapacidade do príncipe herdeiro, Mohammad bin Sultan, defender ativos estratégicos no seu território, apesar de ter o terceiro maior orçamento militar do Mundo. Prefere, com certeza, utilizar a máquina securitária tão generosamente financiada (apesar dos cortes orçamentais pós crise petrolífera de 2014) para reprimir o seu próprio povo e fomentar um genocídio no Iémen.

É grave, ainda, por ter resultado na estranha atitude de Donald Trump ao atribuir aos Estados Unidos o dever vingar e defender os sauditas. Num momento de particular vexame para Washington, Donald Trump saiu ao Twitter, após o ataque, para fazer uma ameaça e ceder a iniciativa aos sauditas: “Estamos armados e prontos*, mas à espera para ouvir do Reino quem eles acreditam causou este ataque e em que termos devemos prosseguir.“

Por que razão um ataque contra o petróleo saudita deve arrastar os EUA para um conflito armado com o Irão?

Além de vexatória para a grande potência que são os EUA – colocar a sua resposta a uma crise internacional nas mãos de um estado cliente e traiçoeiro – alimenta suspeitas, de há vários anos, de que Trump se serve da presidência para manter relações empresariais lucrativas com os sauditas, ainda que tal constitua uma violação grosseira das normas éticas. Por outras palavras, corrupção.

Mas na segunda-feira, durante uma audiência com o príncipe herdeiro do Bahrain, Trump recuou, dizendo que “não quer guerra com ninguém” apesar de os EUA serem o país “mais bem preparado da história” para um conflito. E insistiu que os ataques não afetam os Estados Unidos. Em pouco mais de 24 horas, uma inversão de marcha quase total.

Subjacente a este comportamento há uma política externa de impulsos, de ignorância das complexidades do médio oriente e do mundo, uma visão tosca da diplomacia e do papel do poder militar na mesma. Há um buraco negro, um profundo vazio, na Casa Branca onde os únicos guias são o ego de Trump e os seus interesses pessoais.

O posicionamento – porque não se lhe pode chamar uma política – dos EUA face ao Irão assenta no pressuposto de que Teerão é uma ameaça à estabilidade regional, a Israel e à Arábia Saudita. Logo, deve merecer, com forte empurrão de Jerusalém e Riade, a oposição total de Washington até que, prostrado, obedeça aos variáveis e irrefletidos impulsos de Trump.

Israel teve sempre um lugar especial à mesa da política americana, fruto da influência do seu lobby em Washington. A Arábia Saudita é, há anos, um aliado de conveniência, em função da sua preponderância na produção petrolífera.

Mas a situação mudou. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tentou transformar a aliança Israel-EUA numa aliança Netanyahu-Trump e há anos que tenta envolver os americanos numa guerra com o Irã que ele próprio não tem coragem de provocar.

Os sauditas são aliados traiçoeiros, financiadores de terrorismo sunita do mundo, apoiantes de sempre dos Talibã, e muito menos importantes para os americanos, agora que os Estados Unidos, devido ao xisto, produzem cerca de 75% do seu petróleo.

Mesmo assim, os dois países convenceram Trump (com a ajuda de alguns radicais na Casa Branca) a assumir a sua guerra contra o Irão. Israel porque Netanyahu caiu no goto a Trump. Os sauditas porque têm em Trump um refém de interesses financeiros.

Em lugar de salvaguardar o acordo nuclear de 2015 – assinado entre Teerão e várias potências mundiais, incluindo os Estados Unidos – que manietava o programa nuclear iraniano e usá-lo como base de uma diplomacia abrangente para isolar os aiatolas, Trump fez a única coisa que sabia: destruir e piorar.

Decidiu desestabilizar o Irão ao abandonar o acordo de 2015 e reacender sanções que provocaram graves problemas económicos e a ira iraniana (serem sancionados por cumprirem um acordo que os EUA decidiram deixar de apoiar).

Trump aguardava um Irão de joelhos a implorar misericórdia. Tem, em vez disso, um animal ferido. O Irão reagiu de forma perigosa, criando uma onda de desestabilização para a qual Trump não tem boas respostas. Quem sabe se, em última análise, para não parecer “fraco”, cede à tentação militarista para proteger o ser reduzido flanco eleitoral em 2020. Ele que passou anos a acusar falsamente Barack Obama de querer uma guerra com o Irão por motivos eleitorais – uma das suas milhares de mentiras (12 mil mentiras desde Janeiro de 2017).

O amadorismo e incompetência de Trump estão a ser explorados pelos seus adversários internacionais, a que se junta o Irão. O regime iraniano aproveitou o recuo americano anunciando que não haverá qualquer encontro entre o seu presidente Hassan Rouhani e Donald Trump, durante a assembleia-geral da ONU.

Trump e o seu secretário de Estado tinham várias vezes aberto essa porta, prometendo diálogo sem pré-condições. Humilhado pelos iranianos Trump vem, mentindo outra vez, dar o dito por não dito.

O problema daqui resultante é que que o Irão, um ator irresponsável no sistema internacional, não é alvo e uma política bem pensada e uma estratégia clara.

Obcecado, e sem outra agenda que não destruir tudo o que Barack Obama tentou erguer, Trump não tem plano, nem estratégia, para as crises em que se envolveu, criou ou agravou. O espalha brasas ateia fogos que não sabe apagar.

Como a China, Coreia do Norte e Venezuela o Irão tenta aproveitar-se da ignorância do presidente americano, explorar o seu ego, a sua insegurança, incompetência governativa e ausência de capacidades de liderança. Haverá, em tempo, um preço alto a pagar.

* “Armados e prontos”: tradução livre de locked and loaded, expressão popular significando que uma arma de fogo está carregada e pronta a disparar.