Opinião

A cesta rota da princesa dos ovos

Isabel dos Santos

ENEIAS RODRIGUES

Luís Costa Ribas

Luís Costa Ribas

Impressões da América

A opinião de Luís Costa Ribas.

Isabel dos Santos está cercada. O que antes eram alegações são agora alegações fundamentadas em 700 mil documentos, imunes a insultos ou campanhas para destratar jornalistas. O dia do juízo anda por aí.

Em Março de 2013, numa entrevista-almoço com o Financial Times, a empresária angolana Isabel dos Santos atribuiu a sua fortuna, entretanto avaliada em 3 mil milhões de dólares, ao seu génio empresarial, lembrando que aos seis anos já vendia ovos aos vizinhos.

Vivia nessa altura em Angola, país que visito quase todos os anos desde 1992, e assisti, com curiosidade, ao que aconteceu a seguir: a filha de José Eduardo dos Santos, cuja família era jocosamente chamada “família real”, foi alvo das implacáveis e impiedosas redes sociais angolanas e imprensa afecta à oposição, onde passou a ser conhecida como “princesa dos ovos”.

Aparentemente pouco incomodada com os comentários sobre a sua fortuna, e a circunstância de a ter acumulado a partir do país onde o seu pai for presidente durante 38 anjos, Isabel dos Santos defendeu durante anos que era simplesmente uma boa e competente empresária.

Mas havia sempre uma pergunta a que não sabia responder: a origem dos três mil milhões de dólares. Todas as fortunas têm uma narrativa, mas Isabel dos Santos nunca ofereceu a sua.

A dúvidas eram razoáveis. Aos 25 anos, a filha do presidente era dona de quase nada; aos 40 tinha acumulado três mil milhões de dólares, o que representa um crescimento de 200 milhões de dólares por ano, à média estonteante de 16 milhões de dólares por mês – 16 milhões, mês após mês, durante 15 anos.

Como é possível acumular tanta riqueza em tão pouco tempo? Isabel dos Santos nunca respondeu. Os cépticos acreditavam que fora por nepotismo e uso indevido de bens públicos. Activistas como Rafael Marques revelaram muitas peças do puzzle ao longo dos anos e o jornal Expresso também.

Agora, com a divulgação de mais de 715 mil documentos sobre a teia de interesses do mundo empresarial de Isabel dos Santos, a construção e areia começou a ruir porque já não há defesa verosímil.

Bem pode Isabel dos Santos defender-se com acusações de racismo e colonialismo, com chuva de tweets à maneira de Donald Trump. Mas que motivo têm 120 jornalistas de 36 órgãos de comunicação social de todo o mundo para a perseguirem? Não têm e não perseguem.

Bem pode Isabel dos Santos acusar o presidente angolano, João Lourenço, de perseguição política. Luanda tinha de começar por algum lado a combater a corrupção e começou por onde ela era mais visível, para enviar um claro sinal à sociedade, e por onde havia maior potencial para recuperar dinheiro – avultadas quantias “desaparecidas” de que o país precisa.

Um dilúvio de denúncias, fugas de aliados, a mão da justiça e acção dos reguladores, sugere o possível desmoronamento do império de Isabel dos Santos. Não vai cair sem dar luta. Mas querer lutar pelo que (não) é seu não lhe dá razão.