Ironia amarga: a situação de quarentena que estamos a viver faz com que alguns filmes menos vistos possam adquirir uma desconcertante actualidade. Será o caso de “A Hora da Saída” (2018), produção francesa dirigida por Sébastien Marnier que passou pelas salas portuguesas de modo muito discreto.
Tendo como base um romance de Christophe Duffossé, adaptado pelo próprio realizador, nele se narra a odisseia de um professor do ensino secundário contratado para ocupar um lugar, no mínimo, incómodo: é sua missão ensinar uma turma cujo professor se suicidou durante uma aula, lançando-se de uma janela.
Há, como é óbvio, uma discreta sugestão de um cliché do cinema de terror: será que os alunos, para mais formando uma turma experimental de adolescentes sobredotados, são “especialistas” em manipular os seus professores, a ponto de os fazer perder o equilíbrio emocional? Seja como for, o essencial joga-se noutra dimensão. Na verdade, o que distingue os alunos é o facto de se comportarem como uma pequena tribo marcada por um pessimismo radical, justificado, em particular, pelo conhecimento das tragédias climatéricas do nosso planeta — os seus rituais definem, afinal, uma bizarra forma de resistência.
Entenda-se: a actualidade do filme não envolve qualquer “tese” sobre o estado das coisas na Terra. O que confere especial força dramática ao trabalho de Marnier é a sua capacidade de construir um ambiente de dúvidas, ambiguidades e inquietações a partir de dados muito específicos (e algumas imagens perturbantes) do nosso frágil equilíbrio ecológico. Isto sem esquecer a solidez do elenco, liderado pelo magnífico Laurent Lafitte, actor da Comédie Française que já tinhamos visto, por exemplo, em “Pequenas Mentiras entre Amigos” (2010), de Guillaume Canet, ou “Ela” (2016), de Paul Verhoeven, contracenando com Isabelle Huppert.
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