Opinião

O que é Fátima sem a presença física dos peregrinos?

Fátima (sobre)viverá no calendário sem esta circunstancial presença física dos peregrinos. E sairá reforçada a crença do coração e do sofrimento.

O bispo de Leiria/Fátima emocionou-se quando anunciou que não vai realizar-se a peregrinação internacional de maio de 2020. Para quem acompanha de perto a experiência do peregrinar para Fátima, não é difícil entender a voz embargada do cardeal António Marto, ao comunicar, com “o coração em lágrimas”, este “ato de responsabilidade pastoral”. O bispo sabe “da importância” destes momentos “para tantos milhares de peregrinos”.

Tentando atenuar a gravidade da decisão, tomada “com dor e tristeza”, António Marto diz que a peregrinação não vai realizar-se “nos moldes habituais”. O prelado sugere que há uma outra peregrinação a fazer sem a “deslocação física”, uma “peregrinação interior”, com “a mente e o coração”, em sintonia com a data que assinala o primeiro fenómeno das narrativas da devoção, conhecido popularmente como aparição.

Para tentarmos perceber o peso simbólico de um 13 de maio sem peregrinos na Cova da Iria, temos de rever o que é a Fátima dos peregrinos e das multidões.

Em 2017, na celebração do Centenário, o papa Francisco antecipou uma reflexão: “No crer e sentir de muitos peregrinos, se não mesmo de todos, Fátima é sobretudo este manto de Luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da Terra quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe.”1.

1. Enquadrando o fenómeno numa destradicionalização da sociedade portuguesa, o antropólogo Alfredo Teixeira defende que “Fátima é muitas coisas”2.

A devoção deduz-se também na reconstrução de um lugar-alto para procuras de sentido3, na possibilidade de recriar a utopia coletiva como identidade plural ou pela memória ancestral do símbolo feminino com a exaltação de uma maternidade divina ou divinizadora.

A «fé» de Fátima começa no local, um destino de caminhada, um (re)encontro com a multiplicidade de leituras e experiências que atravessam o íntimo. Como é também a exortação plástica e devocional pela complexidade da memória ou pela tradição. Operando individualmente, a (con)vivência em multidão desperta sentidos e emoções com capacidades cognitivas que a elevam à categoria de uma experiência única. E temos as peregrinações a pé, em que um eu de procura menos definida, mas intimamente motivada ou condicionada por via de compromissos/promessas, se deixa regular por antigos modelos de religação – a peregrinação e a superação de um esforço, retomando a linguagem do sacrifício –, ateé ao desconhecido/desejado, para ter uma experiência com um tu de/em caminho, construindo, quanto mais não seja por uma experiência fugaz, um nós social e solidário que desenha um utopos, um lugar desejado, a construir.

Pedro Nunes

2. Na sua génese, é uma expressão genuinamente popular. Frei Bento Domingues apresenta o fenómeno de Fátima como “uma fala ao coração, um estremecimento da alma”4 que supera “todos os apetites de milagres, todas as experiências místicas de que se ufanam outros santuários” e ganha imagem simbólica na procissão do adeus.

Será possível recorrer também ao filósofo e teólogo protestante Rudolf Otto quando conduziu5 em 1917 – coincidência – o conceito de numinoso, entre o racional e o irracional do sagrado, numa vivência moldada pela emoção, por um mistério tido como inexplicável porque desconhecido. Para Otto é a vivência, uma experiência concreta, que dá sustento à religião. O demais é apenas a tentativa de racionalizar, enquadrar e/ou explicar.

Mesmo que de forma indefinida, é a esta “Presença” localizada no íntimo da consciência humana que Miguel Real atribui o sentimento do sagrado, que “não necessita da religião para se realizar, realiza-se contemplando ou «experimentando» (sensibilidade) o seu próprio vazio”6.

Pedro Nunes

3. Retomem-se as “imagens-guia” propostas por Danièle Hervieu-Léger, trabalhadas também por Policarpo Lopes entre as grandes linhas de sentido na paisagem religiosa: o peregrino; o convertido; o praticante. A imagem que revela maiores potencialidades na pós-modernidade é a do peregrino.

A peregrinação cruza a dimensão da “errância” do peregrino na procura de sentido com as imagens-guia do convertido e do praticante, é uma instituição determinante na cristandade da Idade Média. A “imagem do peregrino precede, no nosso horizonte cultural, a do praticante”7.

A “«errância» religiosa para os «lugares altos» do sagrado exerceu sempre uma forte atração nos crentes”8, reativada atualmente pelos fluxos turísticos e na forma de “experiência física do espaço como itinerário espiritual”.

É difícil perscrutar as motivações para presumir padrões. Mas podemos falar num processo que alinha os dramas e os traumas individuais, propondo um mecanismo de catarse na via do esforço/sacrifício por razões menos definidas ou pela mais habitual «promessa». Andam entre “o altruísmo e o egoísmo”9. A «promessa» é habitualmente em benefício próprio ou de terceiros, e o respetivo destinatário na maioria dos casos, é um familiar próximo.

“O peregrino esvazia-se de si, vive um processo de regeneração e predispõe-se a uma união profunda com o ser divino neste utopos alternativo à vida sob o impacto da modernidade”10, propõe o sociólogo Policarpo Lopes, como espaço de um irrealizável, momentaneamente concretizável na experiência mística de encontro entre o homem, o divino e o mundo.

Pedro Nunes

4. “Não há «o(a)» peregrino(a) de Fátima, há «os(as)» peregrinos(as) de Fátima que não se anulam na multidão, cada qual com as suas motivações espirituais ou materiais, alicerçadas num mistério simbolicamente maternal, seja com as balizas da devoção mariana mais tradicional da fé católica ou no retorno simbólico – como caminho para o encerramento de um ciclo, um desejo natural – ao ventre protetor”11. Policarpo Lopes realça que “encontramos uma grande profusão de homologias inscritas no horizonte semântico do maravilhoso, cujo objeto é o misterioso, o divino, o sagrado, o sobrenatural”, reguladas por um “registo estético, mais caro ao homem contemporâneo que o registo moral”12.

É a “irrupção do maravilhoso sobrenatural” que pode experimentar-se na concentração de multidões – por via de uma emoção contagiante e direcionada – com uma “apetência para o extraordinário”. O «lugar-alto» da peregrinação tem uma força sedutora. O encontro com o belo e a arte, na música, na cor e no movimento litúrgico teatralizado que exalta a memória do local e da crença, “fazem dele o espaço de representação do desejo ilimitado que nasce do conflito permanente entre os desejos profundos” [de cada indivíduo e do coletivo] “e os meios de que dispõem para os satisfazer”13.

Pedro Nunes

5. A peregrinação a Fátima tem uma dinâmica de pertença, é identitária. Podemos falar de uma peregrinação sem peregrinos a este “lugar-alto”? No contexto da Fátima dos caminhos é um contrasenso. O princípio do compromisso, ou promessa, de caminhada mexe nos mais profundos sentimentos religiosos e espirituais. Uma “peregrinação interior” não a substitui, quanto muito atenua a impossibilidade circunstancial. Até porque a “peregrinação interior” de muitos peregrinos e peregrinas, chamemos-lhe também espiritual, explica-se e encerra-se nesta simbiose: o caminho e a caminhada, o espaço e o tempo, um lugar e uma chegada, a superação e a emoção.

Sublinhe-se, embora, que a «fé» de Fátima revela-se também na distância – a imagem e símbolo da devoção assume neste processo uma importância fulcral –, por isso se instalou um pouco por todo o mundo devocional, por vezes quase como superstição. Mas Fátima não é sem o local do encontro e a experiência dos(as) peregrinos(as), no qual e pelos(as) quais as distâncias se encurtam.

Fátima (sobre)viverá no calendário sem esta circunstancial presença física dos peregrinos, ou seja, sem um elemento constituinte do próprio fenómeno. E sairá reforçada a crença do coração e do sofrimento. Não cumprindo agora, cumprirão depois. É como se os peregrinos, todos, vestissem neste maio a pele da diáspora, propulsora da devoção no mundo. Terão, mais tarde, o tempo e a ocasião para revigorar o espírito, no “estremecimento” do corpo em caminhantes ofertas e físicas presenças. Impedidos de se fazerem à estrada nos dias 12 e 13 de Maio, viverão a angústia diante da televisão ou do computador, que mostrarão um santuário vazio, em gritante contraste, com uma celebração fechada num templo e a emotiva assertividade do celebrante diante da imagem da devoção. O impacto será semelhante ao das orações, das celebrações quaresmais e pascais do Papa, com basílica e praça de São Pedro sem vivalma, refazendo, neste vazio, a inevitabilidade da experiência religiosa.

O cardeal António Marto fala numa Fátima que “vai estar vazia mas não deserta”. Como a água, a fé mais quente e comovente encontra sempre um caminho…

POOL New

1 Papa Francisco, Homilia na missa de 13 de maio de 2017, Fátima.

2 Teixeira, Alfredo. Entrevista na Agência Ecclesia, a 11 de maio de 2018.

3 Lopes, Policarpo. (2010). Para uma sociologia do catolicismo. Lisboa: Oeiras: Rei dos livros.

4 Domingues, Frei Bento. (2018). A religião dos portugueses. (p. 74). Lisboa: Temas e Debates.

5 Otto, Rudolf. (1917). O Sagrado. Lisboa: Edições 70. (1992).

6 Real, Miguel. (2018). Fátima e a Cultura Portuguesa. (p.47). Amadora: Publicações D. Quixote.

7 Lopes, Policarpo. (2010). Para uma sociologia do catolicismo. (p. 156). Lisboa: Rei dos Livros.

8 Idem

9 Fortuna, Carlos. (1999). Estradas e Santuários: Percurso socioreligioso dos peregrinos-caminhantes a Fátima. In Identidades, percursos, paisagens culturais: estudos sociológicos de cultura urbana. (p. 86). Coimbra: Imprensa da Universidade.

10 Lopes, Policarpo. (2010). Para uma sociologia do catolicismo. (p. 179). Lisboa: Rei dos Livros.

11 Franco, Joaquim. (2010). Leitura (Im)possível de uma Visita. (p.37). Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas.

12 Lopes, Policarpo. (2010). Para uma sociologia do catolicismo. (p. 179). Lisboa: Rei dos Livros. 13 Idem, p. 163