Opinião

As agendas erradas de Marcelo e Costa

JOÃO RELVAS

Enquanto os principais dirigentes políticos se entretêm a aproveitar todas as hipóteses de aparecer na abertura dos principais noticiários televisivos, o país caminha rapidamente para uma tragédia social e económica sem precedentes.

Enquanto Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa se especializam em rácios de transmissibilidade e medidas sanitárias, o tecido empresarial vê o mercado interno e externo desaparecer e todo o país naufraga num mar de novas dívidas. Tanto o Presidente da República como o primeiro-ministro gerem agendas erradas. Deviam estar a definir um plano urgente para Portugal juntamente com os empresários.

A economia portuguesa vai perder entre 10 e 15 por cento do seu volume este ano. As contas do Estado já estão no vermelho e as contas externas do país degradam-se a cada mês.

A maior parte da população não consegue interiorizar o que estas frases significam, sabem que o país voltou a estar mal, mas associam esse mal-estar à pandemia, quanto ao resto continuam alheados, como se estivessem anestesiados.

Mas alguns cidadãos já vão percebendo, quando o vizinho ou alguém da própria família perde o emprego. O desemprego já começou a disparar e pode ultrapassar os 10 por cento em poucos meses. E muitos estão a perdê-lo.

Os economistas mais líricos acham que a recuperação vai ser em V, isto é, que no ano que vem os aviões estarão de novo cheios de passageiros, os hotéis, restaurantes e bares com fila de espera, as praias e esplanadas cheias de turistas, as empresas de transportes e circuitos turísticos com muito trabalho.

Estão enganados. As mudanças económicas que estamos a viver não são conjunturais, são estruturais, vieram para ficar. A crise está a desenhar-se em L, parte da economia ruiu e não vai reerguer-se por si.

A aviação comercial não vai voltar a ser o que era, durante os próximos anos, por isso o grande exportador nacional que era a TAP vai perder 20 a 30 por cento da sua capacidade. A hotelaria, a restauração e a animação turística vão demorar muitos anos a recompor-se. Os setores associados, igualmente.

Num tempo de emagrecimento brutal da economia, o risco para as finanças do país, do Estado, das empresas, das famílias e dos Bancos é elevadíssimo. O regresso ao endividamento galopante foi a saída de emergência, um caminho que não pode continuar a ser seguido, sob pena de regresso à fragmentação dos mercados financeiros. Para os mais distraídos este palavrão em economês significa que apesar de o BCE estar a comprar dívida de todos os estados europeus em doses massivas, Portugal arrisca-se a ver de novo os juros da sua dívida em mercado secundário a disparar.

O tão aguardado maná dos dinheiros do Fundo Europeu de Reconstrução e dos fundos estruturais do próximo Quadro Comunitário de Apoio é apenas uma ilusão para os políticos que se recusam a abrir os olhos à realidade: esse dinheiro não vem diretamente para os cofres do Estado e só chega à economia a prazo, entre quatro a sete anos, ao ritmo de 7 a 8 mil milhões de euros por ano. Ora este número é metade, repito, metade do défice do Orçamento do Estado apenas neste ano. Estão enganados os que pensam que a salvação da economia e do país vem da Europa. A salvação tem de ser garantida a partir do nosso próprio planeamento e esforço.

A urgência é encontrar alternativas para repor o nível de atividade económica o mais depressa possível. Mas para isso era preciso que os dirigentes nacionais tivessem consciência do que esta realmente a acontecer ao país.

Só depois de ganharem essa consciência é que poderão mudar as suas agendas e as prioridades coletivas.

Entretanto, que fazem Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa?

O Presidente da República tornou-se um especialista de RT e analisa a pandemia com mais argumentos que muitos médicos e cientistas.

O primeiro-ministro especializou-se em cercas sanitárias, estados de emergência e situações de calamidade. Debita conceitos, números, fórmulas e decretos sem hesitar, numa sucessão impressionante, mais depressa que os próprios especialistas.

Ambos aproveitam ao máximo a exposição pública garantida pelas iniciativas assistêncialistas do Estado, do setor social e até do setor privado em relação às vítimas sociais da pandemia. Não perdem uma oportunidade de aproveitar a máxima exposição pública na televisão, na internet e nos jornais. A prioridade de ambos parece ser gerir as suas carreiras.

Nem um nem outro pararam ainda para pensar que por mais extensa que seja a rede de apoio às vítimas sociais da pandemia, se não forem atacadas as causas económicas da crise, mais vítimas sociais aparecerão e não haverá solidariedade pública, social ou privada suficiente para tanta gente. Nem um nem outro perceberam que, passado um primeiro momento em que deviam estar de facto junto das estruturas de saúde, das estruturas sanitárias e de combate à pandemia, agora já deviam estar junto das estruturas que aguentam o país do ponto de vista económico e financeiro.

Já lá vão quatro meses de pandemia e dois meses de agravamento de todos os indicadores económicos, mas nem o Presidente da República nem o primeiro-ministro perceberam ainda que onde fazem mais falta não é nas conferências de imprensa do Infarmed, não é nas reuniões técnicas e nas conferências de imprensa onde substituem os próprios médicos e os especialistas.

Onde Marcelo Rebelo de Sousa faz mais falta ao país é no Conselho de Estado, a procurar soluções alternativas para o futuro do País; e é junto dos empresários que exportam e dos que substituem importações;

Onde António Costa faz mais falta é a promover uma grande conferência de reconstrução nacional, urgente, com o líder da oposição, os dirigentes dos principais partidos, os representantes dos grandes e dos pequenos empresários do país, os que exportam e os que substituem importações, os autarcas, economistas, banqueiros e especialistas setoriais de reconhecida competência.

A estrutura produtiva do país foi seriamente abalada e já é tempo de os principais dirigentes nacionais ajudarem os empresários a escolher um novo rumo.

Já é tempo de os políticos e os empresários que estão no mercado a sofrer as consequências da pandemia se juntarem para redefinirem o nosso destino coletivo. É tempo de em conjunto apontarem para um projeto verdadeiramente nacional de reindustrialização, definirem os novos setores em que o país deve apostar, com que novos processos e com que meios humanos, materiais e financeiros vão fazer essa mudança.

É tempo de Rui Rio aparecer com uma agenda verdadeiramente nacional, com propostas para salvar a economia e as finanças do país, em vez de intervenções pontuais e tiradas desgarradas.

Basta de repetirmos sempre os mesmos erros do passado.

O ministro do Ambiente e o secretário de Estado da Energia não podem ser deixados em roda livre a comprometer 7 mil milhões de euros de fundos privados, públicos e europeus, num projeto megalómano de uma nova fábrica de hidrogénio que nenhum outro país europeu quis lançar. Um projeto que vai sugar fundos valiosos, indispensáveis para outras empresas da economia real, e que se arrisca a ser mais um elefante branco ou uma nova La Seda, contribuindo perigosamente para aumentar ainda mais o preço da eletricidade para as famílias e as empresas e baixando por esta via a competitividade de todo o país. O Ministério do Ambiente tem de parar com a atribuição de novas licenças de eletricidade fotovoltaica num sistema que já tem excesso de potência e que passa todos os custos para os consumidores ou para a dívida que é para pagar mais tarde pelos mesmos consumidores

Um único especialista como António Costa e Silva não pode ficar com a responsabilidade de redefinir toda a estrutura económica do país, por mais competente que seja (e é!).

Aos políticos de agora, que assumam a responsabilidade histórica que têm em mãos.

Aos cidadãos que somos, que não nos calemos enquanto os políticos não acertarem as suas agendas com as necessidades reais do país.

E a cada um de nós, que comecemos a fazer o que é muito urgente e importante: comprar português. Comprar o que é nosso é garantir a manutenção dos empregos e impedir a saída dos poucos recursos financeiros do país. Mesmo à custa de alguma qualidade menor e de preços relativamente mais elevados, é agora de importância extrema comprar o que é fabricado no nosso país. Se as importações não caírem bastante e se as exportações não aumentarem rapidamente, em breve estaremos novamente de joelhos perante os credores oficiais.

E logo a seguir, os mesmos responsáveis que hoje não percebem quais deviam ser as suas prioridades, estarão outra vez a gritar contra a austeridade e a atribuir o ónus aos que a não provocaram...