Opinião

Choro por ti, Beirute

Beirute, Líbano

Alkis Konstantinidis

Líbano, Agosto de 2006. O alcatrão vazio, a estrada deserta, uma ausência de gente e de carros. Alguns quilómetros adiante, um Mercedes topo de gama, de portas abertas, intacto. Ao lado, uma cratera aberta na estrada por uma bomba.

Beirute, Agosto de 2006

Naquela madrugada, Nash, o tradutor saudita infiltrado no Líbano, Rushaash, o condutor veterano que já tinha perdido um braço na guerra de 82, o repórter de imagem Pedro Falé e eu entrámos no «nosso» Mercedes verde de regresso à capital, Beirute.

Deixávamos a cidade de Tiro, depois de uma semana debaixo de bombardeamentos Israelitas ao sul do Líbano.

Nesses dias de Agosto de 2006, a aviação israelita atacava de forma impiedosa toda a terra abaixo do Rio Litani e, na capital, toda a zona controlada pelo Partido de Deus, a milícia xiita do Hezbollah.

Em Beirute, a zona Cristã permanecia intacta, como se nada fosse.

E a vida corria de forma quase normal, não fora o recolher obrigatório que ninguém controlava e algumas cercas de arame farpado diante dos principais edifícios da capital.

Em Agosto de 2006, o Líbano era um país em guerra.

Mas a guerra não era entre libaneses e israelitas, era entre israelitas e o Hezbollah.

A destruição, o número de mortos, feridos, e desalojados disparava a cada dia.

A situação humanitária era desesperante e a aviação israelita mandava panfletos, em árabe, a avisar com muitas horas de antecedência quais as horas e os lugares que bombardearia na noite ou na manha seguinte.

Do alto das montanhas que rodeiam Beirute, zona onde vivem os muito ricos e muito poderosos do Líbano e de todo o Médio Oriente, víamos, de noite, as luzes esverdeadas da artilharia, os riscos no céu e o som das explosões que reduziam a parte xiita da capital a escombros.

De dia, passávamos pelos locais atingidos na véspera: pontes, estradas, instalações «civis» feitas em pó, gente desesperada, sem teto e sem pão, com feridas por tratar e mortos por enterrar.

Na véspera da viagem entre Tiro e Beirute, numa estrada onde não devíamos estar, senti pela primeira vez o peso do silêncio.

O alcatrão vazio, a estrada deserta, uma ausência de gente e de carros, até os pássaros pareciam ter emudecido ou, então, voado para outras paragens.

Alguns quilómetros adiante, um Mercedes topo de gama, de portas abertas, intacto.

Ao lado, uma cratera aberta na estrada por uma bomba.

Ficou tudo como estava naquele momento: os ocupantes fugiram e o Mercedes ficou ali, abandonado, chave na ignição e um livro do corão pousado na chapeleira, debruado a ouro e diamantes.

Ficou lá tudo, no mesmo lugar.

No Líbano de 2006, ninguém toca em despojos de um ataque de «infiéis».

Hoje, volto a chorar pelo Líbano.