Opinião

O cinema secreto de François Ozon

"8 Mulheres" (2002): quando François Ozon reinventou o género musical

Jean-Claude Moreau

João Lopes

João Lopes

Crítico de Cinema

Com um novo filme de François Ozon, “Verão de 85”, a chegar às salas, vale a pena lembrar que ele é um dos mais originais autores da produção francesa das últimas décadas.

Agora que está a chegar ao mercado português o mais recente filme de François Ozon, “Verão de 85” (2020), vale a pena lembrar o lugar muito especial que a sua obra ocupa na história das últimas décadas do cinema francês. Quanto mais não seja porque a riqueza dramática e, sobretudo, melodramática do seu trabalho o define como herdeiro directo de um símbolo da Nova Vaga, François Truffaut, que, por sua vez, era já um discípulo de Jean Renoir.

“8 Mulheres” (2002), um dos seus maiores sucessos, pode servir de emblema da sua trajectória. Isto porque Ozon conseguia a proeza de reinventar o género musical (fazendo lembrar outro mestre francês: Jacques Demy), para mais através de um elenco feminino que reunia talentos de várias gerações, de Danielle Darrieux a Ludivine Sagnier, passando por Catherine Deneuve, Fanny Ardant e Isabelle Huppert.

Sempre atento à dimensão secreta de cada personagem, a sua versatilidade vai desde o mistério policial — lembremos “Sob a Areia” (2000) ou “Swimming Pool” (2003), ambos com Charlotte Rampling — até à comédia quase surreal “Potiche - Minha Querida Mulherzinha” (2010), com uma Catherine Deneuve em delirante transfiguração burlesca. Isto sem esquecer que, na primeira fase da sua carreira, com “Gotas de Água sobre Pedras Escaldantes” (2000), Ozon assinou uma originalíssima adaptação de uma peça de Rainer Werner Fassbinder.

O novo filme, “Verão de 85”, crónica romanesca de uma adolescência, sucede a “Graças a Deus” (2018), evocação de um escândalo sexual que abalou a Igreja francesa. Aliás, por vezes, as convulsões da história adquirem um peso especial nos filmes de Ozon. Lembremos, a esse propósito, o magnífico “Frantz” (2016), história de amizade e amor assombrada pelas memórias da Segunda Guerra Mundial — é um belo exemplo de um cinema que, até pela escolha das imagens a preto e branco [trailer], se mantém ligado ao mais depurado classicismo.