Opinião

Diego, o meu querido esteta-transgressor

Rui Santos

Rui Santos

Comentador SIC Notícias

Rui Santos escreve sobre Diego Armando Maradona. O comentador da SIC recorda o astro argentino e conta como o “Deus Maior” dos jogadores de futebol o influenciou como jovem e profissional.

Maradona disse, em vida, que se um dia voltasse a nascer gostaria de ser outra vez futebolista e outra vez Diego Armando. A mesma pessoa. A mesma pessoa que proporcionou alegrias a tanta gente — e que isso lhe bastava.

Aquele golo marcado a 22 de Junho de 1986, ao minuto 54 do jogo com a Inglaterra, no Estádio Azteca, na Cidade do México, nos quartos-de-final do Mundial, é a expressão máxima do artífice Maradona, a obra-prima do pintor-escultor, do artista que usa os pés e as mãos (a mão de Deus, minutos antes, nesse jogo) para dar tinta naquele monumento de insuperável talento que ofereceu ao Mundo.

Em cerca de 50 metros, ele pintou o céu a terra de azul: capta a bola ainda no meio-campo da Argentina e, com vestes de bailarino, passa por Reid e Beardsley, pisando a bola e rodopiando para encontrar o espaço onde pudesse meter aquela velocidade que lhe permitiu passar por cinco adversários, incluindo Peter Shilton, tirado do lance com um toque de veludo que o transformou num guarda-redes banal e sem chão.

Em apenas 10 segundos, Maradona colocou o futebol numa dimensão extraterrestre. Como era possível um corpo tão franzino pegar na bola no seu meio-campo e passar por todos os obstáculos, à custa de velocidade e drible, e de uma das coisas mais difíceis no desporto que é meter drible na velocidade, em contínuo, como se fosse uma pulga supersónica, resistente a todo o tipo de impactos, físicos e psicológicos?

Naqueles 10 segundos de magia e arte, não existiam tácticas nem bitácticas, nem músculos, nem metros, nem sequer centímetros; era talento puro, talento saído das entranhas, as vísceras vomitadas pela terra, num bailado vestido pelas sedas mais puras.

Maradona representou tudo o que gosto no futebol e na vida: talento, liberdade e irreverência.

O talento do rapaz-da-terra, do tubérculo-de-oiro, que aproveitou no campo um dom que lhe permitiu ser D. Diego, o esteta do futebol.

A liberdade que lhe permitiu ganhar asas para se apaixonar por quem quis, por causas e pessoas, como por exemplo Fidel Castro, mas também pelos vícios que o ajudaram a enfraquecer e que aceleraram a deterioração e a morte. Maradona nunca foi um homem de ordem e de ordens. Ele achava que o dom que Deus lhe deu era suficiente para justificar uma omnipotência que, naturalmente, não tinha. Lutou por ela, mesmo nos momentos de maior decadência, quando fazia questão de transgredir e de fundir num único corpo, primeiro delgado e plúmico, depois obeso e deformado, a estética e esse apelo à transgressão.

Aquele lance do minuto 54, em 22 de Junho de 1986, foi a expressão máxima do esteta-transgressor. Uns minutos antes de ter driblado Peter Shilton já o tinha ludibriado com a ‘mão de Deus’.

A irreverência de ser sempre quem quis, contra a FIFA e a UEFA, os impulsos e os caprichos dos cartolas com quem não ia à bola. A bola da sua vocação de menino. A bola da rebeldia. A bola que tratava com mimo, o mesmo mimo que utilizava para deslumbrar mas também para desiludir.

O esteta-transgressor fica para a história como o Deus maior. O Deus de carne e osso. O Deus mimético. O Deus que é, também, o espelho e o reflexo do Mundo.

A MINHA ‘RELAÇÃO’ COM MARADONA

Eu tinha 19 anos e Diego 18 quando definitivamente me apaixonei pelo futebol do génio argentino.

Somos do mesmo ano de nascimento, eu nasci em Junho e ele em Outubro e, em Setembro de 1979, ele disputava a final do Mundial de Sub-20, no Japão, frente à União Soviética, e marcou um dos dos três golos com que a equipa de Menotti derrotou os soviéticos (3-1), revelando-se então como um rapaz que jogava a bola de uma forma diferente de todos aqueles que já se haviam mostrado ao Mundo.

Antes de entrar na minha vida jornalística, no final da década de 70, já eu tinha estabelecido uma relação com Maradona. Porque eu adorava jogar à bola, não é muito bonito dizer isto mas eu faltava às aulas para ir jogar à bola e, na minha adolescência, a bola era quase tudo, organizava campeonatos, arrastava o pessoal para o jogo, desde a primária, passando pelo liceu e mesmo quando passei na universidade a malta levava o Samuelson debaixo do braço e expressava-se em economês e eu levava a Bola colada ao sovaco e pronunciava-me em futebolês.

A fotografia a preto e branco abaixo sou eu e um grande amigo meu, o José Soares, também da ‘colheita de 60’, amigo de sempre e para sempre, e ainda ontem ele me ligou e brincámos ao telefone, a recordar os tempos em que ‘entrávamos em campo’, ele armado em Beckenbauer (na verdade, era mais Schawarzenbeck!) e eu armado em Maradona, e se olharem para a fotografia podem confirmar que o meu cabelo, farto e encaracolado, tinha uns jeitos maradonescos.

Regressando à minha ligação a Maradona na parte profissional e à distância, eu comecei a escrever sobre futebol através de crónicas que assinei n’A Bola, de jogos da II Divisão, publicavam-se os onzes e uma dúzia de linhas sobre os Orientais, os Almadas, os Sesimbras, os Lusitanos, os Juventudes e os Barreirenses daqueles tempos, e sem lhes saber explicar exactamente o motivo, creio que foi apenas convicção, comecei a interessar-me pelo futebol dos miúdos, nos clubes e nas selecções, porque achava que era ali que tudo começava e era ali que se tinha de investir, para que o nosso futebol atingisse a maioridade (que carga de trabalhos!), como acabou por atingir, depois de se efectuarem as reformas pelas quais durante anos me fui batendo, com muitas ‘guerras’ e incompreensões à mistura…

Nesse gosto e nessa curiosidade, foi no complexo desportivo do Estádio Nacional, bastante diferente daquele que hoje se nos apresenta, que comecei a tomar contacto com a equipa portuguesa que esteve nesse Mundial de 1979, no Japão, onde a Argentina se sagraria campeão do Mundo… com Maradona.

A nossa selecção era liderada por Peres Bandeira e, nessa altura, por um jovem chamado Jesualdo Ferreira e a equipa tinha na baliza o Zé Beto (3 jogos) e o Justino (1), o Santana e o Alberto Bastos Lopes, como únicos totalistas, na defesa e o jogador que atingiria maior notoriedade seria o Diamantino, no Benfica, que no entanto seria suplente não utilizado na partida dos quartos-de-final, quando Portugal foi eliminado pelo Uruguai, com um golo de Rúben Paz, no começo do tempo extra.

A Argentina fez 6 jogos nesse campeonato e o Maradona marcou 6 golos, e reparem a ‘nossa ligação’, eu nasci a 6 do mês 6 (Junho) e somos ambos de 60 e, sem que o tivesse procurado, o meu número de telemóvel tem quatro 6 e termina em 0, e se usássemos a fita métrica para comparar estaturas talvez tivéssemos de desempatar através de um fio de cabelo.

Meu querido Diego, tu estás no céu e eu ainda na terra, mas guarda aí um cantinho nessa nuvem, porque eu quero mostrar-te esta minha fotografia com o ‘Beckenbauer’ e dizer-te que nunca fui um iconólatra, mas que tu, com a tua simplicidade, com a tua ginga, com a tua irreverência, com a tua capacidade de ir à luta e de romper os cânones, com essa tua arte de esteta-transgressor, marcaste a minha vida. A minha e de milhões de pessoas que te amaram por seres quem és, mesmo reconhecendo as tuas e, afinal, as nossas imperfeições.

Massimo Sambucetti