João Rosado

Comentador SIC Notícias

Opinião

Opinião

O Benfica Distrait já está de pé

Em Braga, as manobras de diversão confirmaram o pior cenário para o futebol português.

O Benfica Distrait já está de pé

No paraíso artificial onde todos os sonhos se arriscam a ser uma realidade e todos os recordes se arriscam a ser batidos, o impossível acontece ou amanhece com a maior das naturalidades.

Nem é preciso a calculadora especial de José Mourinho que transforma um empate numa vitória. Basta um delírio e a obra nasce.

Paul Pogba, o tal jogador que uma bela tarde o técnico do Benfica deixou em casa para lançar Scott McTominay às feras de Old Trafford, pode testemunhar como ninguém a magia inigualável do Dubai e dos Globe Soccer Awards.

Após uma longa suspensão por doping, o campeão do Mundo em 2018 voltou em novembro ao ativo com a camisola do Mónaco e esta espécie de efeméride permitiu-lhe ganhar o prémio de “Melhor Regresso em 2025”, o que significa que não há limites para a criatividade de quem ano após ano se responsabiliza pelo lado mais burlesco de uma cerimónia que já vai na 16.ª edição.

Os 26 meses de castigo cumpridos por Pogba devem ter moldado os critérios dos jurados, de outra forma quase de certeza que Portugal sairia dos Emirados com meia dúzia de conquistas. Pedro Proença recebeu o troféu correspondente à melhor seleção de 2025, Cristiano Ronaldo voltou a ser distinguido como o melhor futebolista do Médio Oriente, Vitinha foi considerado o melhor médio do Mundo, enquanto Luís Campos e Jorge Mendes não deram hipóteses à concorrência nas categorias, respetivamente, de melhor diretor desportivo e melhor agente.

Globe Soccer Awards/ Reprodução Redes Sociais

Ou seja, para completar o ramalhete só faltou relegar o ressuscitado Pogba para um honroso segundo lugar, com o futebol português a reivindicar o galardão correspondente ao Melhor Regresso… ao passado. Num sábado que podia ter ficado apenas marcado pelas vitórias individuais e coletivas no Dubai, o desfile de lamentações e acusações que marcou o rescaldo do Braga-Benfica confirmou que é uma ingenuidade continuar a acreditar numa nova mentalidade emprestada pela nova geração de dirigentes.

António Salvador e Rui Costa, na linha do que há poucos dias tinha sido proferido por Frederico Varandas e André Villas-Boas, não hesitaram em continuar a desvalorizar o produto que, ironia das ironias, lhes proporciona um estatuto invejável no panorama nacional, com a particularidade de o líder dos encarnados ter feito questão de falar aos jornalistas depois de o treinador ter desafiado a estrutura a escolher entre a “resignação” e os protestos.

Talvez esmagado pelo peso institucional de Mourinho, pelos vistos uma figura maior que qualquer outra no Estádio da Luz, ao presidente nem sequer ocorreu que podia e devia ter-se antecipado ao setubalense se a ideia era de facto continuar a recriar o que de pior ficou registado nas batalhas de comunicação travadas entre os “grandes” nas décadas de 90 e do novo milénio.

HUGO DELGADO

Claro que os verdadeiros adeptos do futebol dispensam ver os seus ídolos sentados na sala de conferências de Imprensa a inventariar desculpas pelos maus resultados e a incendiar o que sobra nos devastados terrenos da arbitragem, restando saber até que ponto a indústria resistirá a tantos tiros nos pés no caminho minado para a centralização.

Com quatro anos de mandato pela frente, Rui Costa ganharia muito mais se, em vez de autorizar o Benfica Distrait, trocasse as manobras de diversão pelo trabalho que ainda pode ser feito para tornar o impossível uma realidade.

ANTÓNIO COTRIM