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Novo livro de Cavaco Silva 

"Uma experiência de social-democracia moderna".

"O título é o livro"

Está - há muito - pronto para ser impresso. E "o título é o livro", revela fonte ligada ao processo de construção da obra que será a última lição preparada pelo Professor Cavaco.

Depois de "Quinta feira e outros dias", onde relata com cuidado e precisão a memória e as impressões com que ficou das reuniões que, enquanto Presidente da República, manteve com os diversos primeiros-ministros ao longo de dez anos, o Professor regressa à escrita mas, esta última obra nada tem de memórias, relatos de conversas, impressões ou factos.

É uma reflexão critica e analítica sobre o que Cavaco Silva entende que deve ser a "social-democracia moderna". E pouco mais se sabe, a não ser que na cabeça arrumada e metódica de Cavaco Silva, hoje seria o dia do lançamento, precisamente 35 anos depois de se tornar presidente do Partido Social Democrata.

E a partir daqui, tudo o resto é especulação, revela a mesma fonte, guardando Cavaco Silva segredo absoluto sobre o que pensa que deve ser a "experiência de social democracia moderna".

Uma data simbólica

O livro, outra vez editado pela Porto Editora, será lançado mais perto do fim do ano, provavelmente quando se completarem também 35 anos, não da eleição de Cavaco Silva como presidente do PSD mas das legislativas de 1985, as primeiras que venceu, sem maioria absoluta, no dia 6 de Outubro do mesmo ano, menos de seis meses depois de chegar à liderança do PSD.

A pandemia estragou as contas do homem que sempre planeou tudo. A data de hoje é simbólica, porque marca a viragem que fez no partido e, depois, fez no país. Chegou ao congresso da Figueira da Foz como o "out-sider", o homem que vinha de fora da política, o não-político. Cultivou essa imagem durante uma década como primeiro-ministro e outra como Presidente da República.

Ganhou cinco eleições, quatro delas com maioria absoluta. Mas se lhe perguntarem hoje, dirá que nunca foi um "político profissional" .

O célebre Citroen que precisava de "fazer a rodagem"

Para sustentar esta tese de que chegou a líder do PSD por acaso e sem premeditação, construiu até a narrativa de que só foi ao congresso da Figueira da Foz, onde nem tinha pensado estar, porque à época tinha acabado de comprar um carro novo, o célebre Citroen, e precisava de "fazer a rodagem".

De Lisboa à Figueira da Foz são quase 200 quilómetros. Não chegam para fazer a rodagem de um automóvel, na altura em que isso ainda se fazia, mas a tese vingou e Cavaco passou sempre a imagem de que estava ali por um acaso e que ganhou o partido porque foi empurrado.

Na verdade, a história do Citroen, sendo verdadeira, não é razoável. O carro era novo e precisava de quilómetros, mas o destino escolhido não foi ao acaso.

Durante quase três, anos, Cavaco Silva, com o título de ex ministro das Finanças de Sá Carneiro, vinha fazendo intervenções públicas, dentro e fora do partido, muito críticas para com os líderes de então: Balsemão, primeiro e Mota Pinto, depois.

A sustentação das críticas do professor começava sempre pelo lado económico e financeiro, mas a vida interna do partido, a que dizia sempre ser alheio, também era tema dos discursos que foi fazendo.

Com um partido partido, com o PS a liderar o Bloco Central e o PSD "profundo" zangado com as cúpluas, Cavaco aproveitou o descontentamento das bases.

O discurso na Figueira

Quando chega à Figueira da Foz, os barões do PSD já estavam alinhados com a candidatura de João Salgueiro, também antigo ministro das Finanças, mas de Balsemão. A vitória deste estava garantida, os apoios acertados e o PSD seguiria o seu rumo. Mas o discurso inicial de Cavaco Silva - curiosamente sobre as presidenciais, outra das questões que dividia e afligia o PSD de então - abriu portas para que a "máquina" que dizia não ter pudesse começar a trabalhar.

Eurico de Melo e outros notáveis do norte começaram a juntar apoios e a construír uma alternativa.

Na abertura do discurso, Cavaco disse logo ao que ía e foi surpreendente: "Quero pedir-vos um favor: que não me interrompam até ao fim da minha intervenção. Quero dizer-vos, com os olhos bem nos olhos, o que penso sobre uma questão que considero crucial: as eleições presidenciais".

Foi ouvido em silêncio absoluto.
Ainda antes de ganhar o partido, já tinha ganho o Congresso.
Hoje, se não houvesse pandemia, o Professor lançaria as suas mais recentes ideias.
Fica para outubro.

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