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O que se comia na praia nos anos 80? Casal encontrou lixo com 40 anos em Peniche

Rita Rogado

Rita Rogado

Jornalista

Foram encontradas mais de 180 embalagens de iogurtes, garrafas, restos de comida e embalagens de cremes e protetores solares. Algumas eram datadas de 1987. Lídia e Manuel, o casal que encontrou os resíduos, teve “um misto de sentimentos”. Dizem que é um “achado arqueológico”, mas a poluição preocupa-os.

Lídia e Manuel Nascimento estavam na praia com um propósito: apanhar lixo. O casal foi para uma zona de dunas porque sabia que naquele sítio há aquilo a que chamam "lixo eterno": "Sempre que vamos lá, apanhamos quilos de lixo. Há uma grande quantidade de microplásticos e lixo enterrado", contou Lídia Nascimento em entrevista à SIC Notícias.

Resíduos encontrados na Praia de Peniche de Cima.

Resíduos encontrados na Praia de Peniche de Cima.

A mulher tinha acabado de apanhar um boneco que saía como brinde nos gelados nas décadas de 60 ou 70. É hábito encontrá-los naquele sítio da praia. A poucos metros, o marido puxou a ponta de um saco velho e degradado. Foi nesse momento que descobriram um buraco com cerca de um metro quadrado e quilos de lixo: 186 embalagens de iogurtes e de refrigerantes de marcas diferentes e ainda sacos com ossos de frango e cascas de caracóis.

A validade de uma das embalagens era de Janeiro de 1987. Outra era de abril do mesmo ano. Para o casal, este lixo é um "achado arqueológico". Pelo tipo de embalagens, eram todas da mesma altura, e estavam bem conservadas, contou Lídia.

Embalagem com data de validade de abril de 1987.

Embalagem com data de validade de abril de 1987.

"Espantou-nos porque já apanhámos coisas muito estranhas, grandes quantidades de lixo de uma só vez, mas nunca encontrámos tanta coisa no mesmo sítio. Tínhamos que percorrer 200 ou 300 metros numa praia para apanhar a mesma quantidade de lixo que apanhámos naquele metro quadrado", disse Lídia.

O casal não sabe o que se passou naquele local há cerca de 40 anos, mas tenta reconstruir o momento. “Deu-nos a ideia que alguém tinha feito o buraco de propósito para depositar lá o lixo todo na mesma altura. Nos anos 80 fazia-se campismo selvagem. Imagino que alguém estivesse ali a acampar. Não havia caixotes do lixo na altura nem a consciência e conhecimento que há agora”, afirmou.

Manuel Nascimento junto ao buraco onde encontrou o lixo.

Manuel Nascimento junto ao buraco onde encontrou o lixo.

“Não conseguimos passar sem apanhar o lixo”

Lídia e Manuel moram perto da Praia de Santa Cruz, em Torres Vedras. Cresceram ligados à praia e a barcos e têm um amor pelo mar que consideram destemido. Querem salvar os oceanos.

No dia em que encontraram lixo com cerca de 40 anos foi apenas um dos muitos em que andam pelo areal. “Vamos à praia à procura de ondas porque o meu marido faz bodyboard, mas todas as vezes que vamos à praia encontramos muito lixo e recolhemos. Não conseguimos passar sem apanhar lixo”, realçou Lídia à SIC Notícias.

Em Santa Cruz, não costumam ver lixo no areal deixado por banhistas. O que chega, vem do mar, contam. No entanto, nas outras praias que frequentam encontram muito resíduos.

Já encontraram partes de carros e coisas de países “muito distantes”. Lídia contou à SIC Notícias que durante duas semanas apanharam muitas embalagens da Turquia. Dias mais tarde, encontraram lixo do Japão. “Temos quase a certeza que são os barcos que deitam o lixo fora. Quando vão para terra, têm um limite de quilos de lixo para entregar de forma gratuita. Tudo o que passe esse valor estabelecido, tem de ser pago. Achamos que deitam ao mar o lixo que têm a mais”, afirmou.

No entanto, o casal não encontra apenas lixo nas praias portuguesas. Tem encontrado animais marinhos mortos por causa da poluição e da ação humana. É o caso de gansos patolas com fios de pesca à volta do bico e nas asas e golfinhos sem barbatanas. “Tanto quanto sei, os pescadores cortam-lhes as barbatanas para não partirem as redes quando ficam presos”, denunciou Lídia.

“Mar à deriva”

“Neste momento está tudo à deriva no mar, sem rumo, perdeu-se um bocado o norte”, afirmou Lídia Nascimento. Foi este pensamento que deu o nome à página do Facebook criada pelo casal: Mar à deriva - Adrift Sea. Querem alertar as pessoas para o problema do plástico no mar através de fotografias e de vídeos de lixo que encontram nas praias.

O casal apanha lixo marinho “desde sempre”, contou. Mas eram poucas as vezes que encontravam esse lixo. Acontecia depois de uma tempestade ou quando o mar estava revolto. No início de 2019, passou a ser constante e em grande quantidade. Em abril, encontraram dois cavalos-marinhos mortos na Praia Azul, em Torres Vedras.

Lixo recolhido e fevereiro pelo casal, numa praia de Peniche.

Lixo recolhido e fevereiro pelo casal, numa praia de Peniche.

“Foi aí que se fez luz. Pensámos que tínhamos de chamar a atenção para o facto de estarmos a encontrar muito mais lixo do que em anos anteriores, especialmente microplásticos, embalagens e produtos de outros países”, realçou. Lídia destacou ainda os “milhares” de cotonetes, que chegam ao mar porque são deitados na sanita, e o esferovite em pedaços ou bolinhas. Chamam-lhes “marés brancas”.

Foi nesse mês de abril, quando começaram a ver cada vez mais lixo nas praias, que criaram a página do Facebook. O casal quer acabar com essa poluição. “Toda a gente pode apanhar lixo no percurso da praia até ao carro, por exemplo. Se toda a gente apanhar um bocadinho, a praia já fica mais limpa”, lembrou Lídia. Todos podemos contribuir para diminuir o lixo nos mares e nas praias. Esse é o mote de Lídia e Manuel.