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Pobreza em Portugal: os "novos pobres" e os que regressam a cenários vulneráveis

(Arquivo)

Pedro Nunes

Veja aqui as conclusões do estudo "Pobreza em Portugal - Trajetos e Quotidianos".

As pessoas que vão cair em situação de pobreza devido à pandemia serão quem saiu e regressa a essa condição e quem já se encontrava em cenários de vulnerabilidade, e não "novos pobres", revela um estudo.

De acordo com o estudo "Pobreza em Portugal - Trajetos e Quotidianos", promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, hoje divulgado, faz "mais sentido falar de vulneráveis empobrecidos (e regressados à pobreza) do que de novos pobres".

No caso da crise provocada pelos efeitos da covid-19, marcados por "um elevado grau de incerteza", por depender "da intensidade e da sua duração", o que está em causa é "um possível aumento da intensidade da pobreza" e, para os mais vulneráveis, "um (re)ingresso nessa situação", segundo o estudo.

"A maior parte das situações de pobreza em Portugal são pobreza tradicional, porque persistente ao longo da vida dos indivíduos e porque há uma tendência forte para se reproduzir entre gerações", enfatizou, em declarações à agência Lusa, o coordenador da análise, Fernando Diogo, professor de Sociologia na Universidade dos Açores.

Embora não desvalorize as consequências da atual crise na criação de dificuldades em quem antes não as tinha, o investigador acredita que "esse impacto vem acrescentar pouco ao que já existe" em relação à população "com determinadas caraterísticas".

"O que está escrito sobre a pobreza em Portugal não vai ser muito modificado pelo impacto da covid-19", antecipa Fernando Diogo, que antevê "mais gente em situação de pobreza".

Segundo o académico, "muitas são pessoas que saíram da pobreza e regressam à pobreza, muitas são pessoas que estão em situação de vulnerabilidade, que pouco se distinguem dos pobres, a não ser por rendimentos um pouco acima do limiar de pobreza", e qualquer fator que afete a estabilidade ou a conjuntura os faz cair numa situação de pobreza.

"Pessoas que verdadeiramente entram pela primeira vez em situação de pobreza, apesar de tudo, continua a ser uma minoria. Claro que existe, claro que está a aumentar agora com a crise, mas não é isso que é o cerne da pobreza em Portugal", argumentou.

Fernando Diogo vincou que parte importante dos pobres em Portugal são indivíduos que alternam entre a pobreza e a vulnerabilidade.

"Qualquer incidente de percurso, como o desemprego numa situação de crise, os faz voltar à situação de pobreza, não sendo por isso exatamente novos pobres, mas indivíduos com retorno à condição de pobreza. O que está em causa, portanto, mais do que novos pobres, são os vulneráveis empobrecidos, muitos regressados à situação de pobreza", reforçou.

No estudo hoje divulgado é referido que quem trabalha em setores como o turismo, a restauração ou os serviços em geral está particularmente vulnerável ao desemprego.

Quem tem vínculos precários ou informais também está mais suscetível de passar a viver num contexto de pobreza.

"Contudo, a falência das empresas trará, potencialmente, para a pobreza, mesmo os indivíduos com vínculos mais sólidos", com a agravante de se um trabalhador ficar desempregado poder "levar todo o seu agregado para a pobreza", dependendo da configuração do agregado familiar, antecipa o estudo.

O documento alerta que "o tempo pode ter um efeito cumulativo no desenvolvimento desta situação", já que à medida que os subsídios de desemprego terminarem, os rendimentos das famílias diminuirão.

Quem está desempregado ou desocupado vai ver reduzidas as possibilidades de "conseguir uma atividade remunerada, por precária e informal que seja", enquanto trabalhadores precários ou informais "mais facilmente podem ser dispensados" e "muitos não terão, sequer", direito a apoios sociais.

Os 11 investigadores que participaram no estudo sublinham que "a pandemia e suas consequências estão já a ter um efeito na pobreza em Portugal, intensificando-a e aumentando o número de pessoas nessa situação", com a certeza de que "não está a atingir todos por igual e os mais pobres estão a ser mais afetados".