País

25 de Abril. Marcelo diz que é preciso repensar o passado para diminuir intolerâncias

ANTÓNIO COTRIM

Parlamento assinalou a data com restrições pelo segundo ano consecutivo devido à covid-19.

A sessão solene comemorativa do 25 de Abril no parlamento teve este domingo e pelo segundo ano consecutivo restrições devido à pandemia de covid-19, mas desta vez sem contestação por parte de qualquer partido.

O Presidente da República recordou no seu discurso do 25 de Abril o passado colonial de Portugal e pediu que se olhe para a História sem temores nem complexos, sem alimentar campanhas e combatendo intolerâncias.

Os discursos dos partidos políticos ficaram marcados por duras críticas no Parlamento. A corrupção e a justiça foram os temas marcantes.

"Não há nem nunca houve um Portugal perfeito"

Na sessão solene comemorativa do 47.º aniversário do 25 de Abril, na Assembleia da República, Marcelo Rebelo de Sousa pediu que se faça "história da História" e que se "retire lições de uma e de outra, sem temores nem complexos, com a natural diversidade de juízos própria da democracia".

"Mas que se não transforme o que liberta, e toda a revisitação, por mais serena liberta ou deve libertar, em mera prisão de sentimentos, úteis para campanhas de certos instantes, mas não úteis para a compreensão do passado, a pensar no presente e no futuro", acrescentou.

A reação dos partidos ao discurso de Marcelo

Em reação ao discurso do Presidente da República, o PSD disse que continua disponível para consensos relativamente aos vários problemas do país, uma posição criticada pelo PS.

O Bloco de Esquerda diz que se deve olhar para os mais fragilizados para construir o futuro. Já o Chega diz que houve temas que faltaram ao discurso de Marcelo Rebelo de Sousa.

"Não há democracia sem Parlamento"

O discurso do presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.

"Ou nos ajudamos mutuamente ou naufragamos todos juntos"

O deputado socialista Alexandre Quintanilha afirmou este domingo que uma das lições da pandemia da covid-19 foi a de agregar esforços para que exista um mundo mais sustentável, advertindo que ou há ajuda mútua ou a humanidade naufraga.

Esta posição foi assumida pelo cientista e professor universitário na sessão solene comemorativa do 47º aniversário 25 de Abril no parlamento, num discurso em que alertou para "a fragilização das democracias", fenómeno que disse estar a crescer.

"O populismo e a demagogia, fortissimamente financiados, ganham força de forma insidiosa. E os Estados Unidos da América escaparam por pouco", observou, numa alusão à turbulenta transição de poder de Donald Trump para Joe Biden na presidência deste país.

Alexandre Quintanilha sustentou que os desafios do presente "são imensos, são globais, complexos e interdependentes" e "exigem uma sólida união de esforços e de recursos".

"Ou nos ajudamos mutuamente ou naufragamos todos juntos. É essa também a lição da pandemia. A emergência climática, as desigualdades obscenas, as novas e antigas doenças, a insegurança laboral, a transição demográfica e os conflitos armados não podiam ser mais evidentes", declarou.

Rui Rio pede "vontade política e ambição" para realizar reformas

O presidente do PSD centrou este domingo a sua intervenção na sessão solene do 25 de Abril na Justiça, pedindo "vontade política e ambição" para fazer as reformas necessárias ao país e apontar caminhos a "um regime doente".

Perante o parlamento, o presidente do PSD começou por fazer um diagnóstico sobre a forma como se chegou aos 47 anos de Abril, considerando não ser de estranhar que "Portugal celebre hoje o nascimento do regime num clima de algum descontentamento e algum descrédito".

"Se a sociedade muda a grande velocidade, é imperioso que os regimes políticos estejam, também eles, capazes de se adaptar às novas realidades", referiu.

Num discurso que tem repetido, até antes de ser líder do PSD, Rio defendeu que, quando as reformas exigidas pelas mutações sociais não se fazem, "é inevitável o aparecimento de um fosso entre a sua fraca capacidade de resposta e as legitimas aspirações do povo que é suposto servir".

BE defende que 25 de Abril ficará por cumprir cabalmente enquanto não se encarar "de frente a corrupção"

O BE defendeu este domingo que o 25 de Abril ficará por cumprir cabalmente enquanto não se encarar "de frente a corrupção", avisando que a revolta resultante deste fenómeno "é explorada por muitos para fazer crescer o seu negócio político".

A deputada Beatriz Gomes Dias foi a escolha dos bloquistas para o discurso.

"Abril também não se cumprirá cabalmente enquanto não encararmos de frente a corrupção. A corrupção é o cimento da injustiça económica e da desigualdade. Ela mina a democracia, corrói a justiça e ameaça a coesão social", avisou.

PCP pede indignação contra injustiças e a corrupção

O PCP evocou este domingo os seis milhões de portugueses que já nasceram depois do 25 de Abril de 1974 e pediu a indignação dos portugueses contra as injustiças, as desigualdades ou a corrupção.

"Quando hoje nos indignamos, nos levantamos contra a injustiça, a desigualdade, a corrupção é porque podemos fazê-lo", afirmou a deputada comunista Alma Rivera, ao discursar na sessão solene dos 47 anos do 25 de Abril, depois de lembrar as conquistas permitidas pela "Revolução dos Cravos", a começar pela liberdade.

CDS-PP defende prioridade ao combate à corrupção

O deputado Pedro Morais Soares, do CDS-PP defendeu este domingo que existe um "sentimento generalizado de descrença dos portugueses" com a justiça, e defendeu que o combate à corrupção "terá de ser uma das prioridades".

"Importa que o Estado não ignore o sentimento generalizado de descrença dos portugueses, muitas vezes justificado, relativamente à justiça, urge reformá-la e o combate à corrupção é necessário e indispensável, terá de ser uma das prioridades", afirmou o centrista na sua intervenção na 47.ª sessão solene comemorativa do 25 de Abril, no parlamento.

IL critica "esquerda sectária" que "acha que é dona do 25 de Abril"

A Iniciativa Liberal considerou este domingo que "cada vez mais portugueses estão descrentes na democracia e desconfiam da liberdade", sentindo que o "sistema lhes está a falhar", acusando a "esquerda sectária" de se achar dona do 25 de Abril.

João Cotrim Figueiredo afirmou, mais do que uma vez, que os liberais estarão esta tarde na Avenida da Liberdade para celebrar esta data, depois de uma semana de polémica com a comissão promotora do desfile.

"Queremos celebrar uma data da qual ninguém se pode apropriar. A esquerda sectária, do alto da sua arrogância moral e intelectual, acha que é dona do 25 de Abril. E a direita ambígua permite-o por falta de comparência. A Iniciativa Liberal diz presente", enfatizou, referindo-se ao desfile próprio que os liberais vão manter.

Ventura diz que devia ser celebrado "luto da democracia"

O deputado único do Chega, André Ventura, considerou este domingo que, 47 anos depois da Revolução dos Cravos, Portugal é um "país de contradições" e defendeu que deveria ser celebrado "o luto da democracia".

"Hoje, os cravos vermelhos deviam ser substituídos por cravos pretos porque é o luto da nossa democracia que hoje devíamos estar a celebrar", afirmou, na sua intervenção na 47.ª sessão solene comemorativa do 25 de Abril no parlamento, assinalando que "daqui a duas horas o país fechará todo", numa referência às medidas de combate à pandemia.

PEV quer "colorir" o país com o que "ficou por fazer"

A deputada dos Verdes Mariana Silva citou este domingo o poeta Jorge de Sena para lembrar "a cor" da liberdade e pediu que se continue "a colorir" Portugal com o que "ficou por fazer" na justiça, na saúde.

Na sessão comemorativa, a deputada do Partido Ecologista "Os Verdes" (PEV) começou por citar o poema "A Cor da Liberdade", de Jorge de Sena (1919-1978), que começa com os versos "Não hei-de morrer sem saber/ qual a cor da liberdade".

De seguida, afirmou que Abril, dos capitães da Revolução dos Cravos, é sinónimo "de cor, de alegria, de festa, de paz" pelo "fim do cinzentismo, do silêncio, da mordaça, da fome, da ignorância", que representou a ditadura de Salazar e Caetano.

"É preciso continuar a colorir o futuro, com tudo o que ainda ficou por fazer", pediu, para logo a seguir dar os exemplos em áreas em que os Verdes tem vindo a insistir, da saúde ao ambiente, dos transportes à justiça.

PAN pede criminalização de enriquecimento ilícito num "Portugal capturado pela corrupção"

O deputado do PAN André Silva defendeu este domingo que Portugal está "capturado pela corrupção", responsabilizando o Bloco Central por esta "democracia doente", num país que "teima em não ter uma lei de criminalização do enriquecimento ilícito".

André Silva dedicou à corrupção a sua intervenção na sessão solene comemorativa, sustentando que o "Portugal amordaçado" da ditadura deu lugar ao "Portugal Ressuscitado" do 25 de Abril de 1974, e é hoje um "Portugal capturado", que "teima em não ter uma lei de criminalização do enriquecimento ilícito".

Avenida da Liberdade recebe dois desfiles este domingo

As comemorações do 25 de Abril voltam este ano à Avenida da Liberdade e incluem um segundo desfile, organizado pela Iniciativa Liberal, que não aceitou os lugares oferecidos por outros partidos.

Depois da recusa da comissão organizadora à participação da Iniciativa Liberal, a Associação 25 de Abril pediu uma reunião de emergência das 44 entidades promotoras onde foi revertida a decisão anterior e decidido abrir a manifestação a todos as organizações interessadas.

Cada organização participante pode inscrever 12 pessoas na manifestação, mas a Iniciativa Liberdade diz que a decisão veio tarde demais.

O Livre foi o primeiro de vários partidos que entretanto disponibilizaram lugares aos excluídos Iniciativa Liberal e Volt.

Vasco Lourenço diz que a Associação 25 de Abril até se opôs ao regresso do desfile por não ser possível trazer de volta uma grande manifestação popular como noutros anos.