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Uma comunidade indiana em Portugal diversa e dialogante na fé

Hindus, muçulmanos, sikhs e católicos, a comunidade indiana em Portugal é diversa na fé, dialogando entre si e sem conflitos inter-religiosos.

De acordo com dados fornecidos pela Embaixada da Índia, a comunidade em Portugal é feita de 45 mil hindus, 35 mil sikhs, 25 mil muçulmanos (20 mil sunitas e 5 mil xiitas ismaelitas) e 15 mil católicos (goeses).

O desconfinamento avançou a tempo de permitir a celebração do nascimento do deus Rama, no Templo Hindu Radha Krishna, em Telheiras, inaugurado em 1998.

A comunidade está em festa, mantendo distanciamentos e cuidados. A puja - cerimónia patrocinada por uma ou várias famílias - dura toda a manhã, numa sucessão de orações, cânticos, oferendas. No final, surgem bandejas com flores, fruta e frutos secos e bandejas com velas são elevadas aos altares.

Cerca de 60 crentes, mulheres de um lado (envergando saris de muitas cores), homens do outro, participam de um ambiente dourado, animado por um grupo de músicos, que cantam e tocam tabla, harmónio e mais uns quantos instrumentos tradicionais.

Nos bastidores dos altares dedicados às divindades hindus, um computador assegura a transmissão da cerimónia em direto, através do canal YouTube.

No final, o presidente da Comunidade Hindu de Portugal, Kirit Bachu, transmite informações importantes - a autarquia de Lisboa deu finalmente luz verde para passar a haver gás natural no templo.

Saem em fila para voltar a erguer na cúpula a bandeira colorida, retirada para ser limpa, e que indicará ao longe que ali está um templo hindu. Vai dentro de um cesto e circula de cabeça em cabeça, acompanhada por palmas e cânticos (Hare, Hare / Krishna, Krishna).

Em pleno Ramadão, mês sagrado para o islão, os muçulmanos fazem fila à porta da Mesquita Central de Lisboa. Nem a pandemia nem a chuva os afastam da oração da uma da tarde.

Mais homens do que mulheres chegam de todas as idades e origens, vestidos a rigor ou com a farda do trabalho. Uma equipa de voluntários coordena as entradas e encaminha os fiéis para as várias salas de oração, agora com regras de distanciamento e um quarto da capacidade. Ao final do dia, às 20:21, será quebrado o jejum diário.

Durante o Ramadão, a Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL) distribui "800 refeições por dia", agora em formato take away, para famílias, hospitais e prisões. Fora deste período, oferecem sopa, diariamente, a quem precisar, sem pedir cartão do cidadão ou perguntar a religião.

O recém-empossado presidente da CIL, Mohamed Iqbal, estima que existam cerca de 60 mil muçulmanos em Portugal e que um terço sejam indianos (sunitas e xiitas juntos).

A comunidade está "perfeitamente" integrada na sociedade, garante o sucessor do banqueiro Abdool Vakil, moçambicano de origem indiana que foi líder da comunidade durante mais de três décadas.

De origem indiana e nascido em Moçambique, onde já se tinham instalado avós e bisavós, Iqbal chegou a Portugal com 16 anos, logo após a revolução de 1974. Nessa altura, recorda, não havia mesquita. Mas já havia comunidade muçulmana, fundada há mais de 50 anos, por duas dezenas de estudantes, fundamentalmente de origem indiana.

As orações de sexta-feira começaram por ser feitas na embaixada do Egito e depois num espaço cedido pela Câmara de Lisboa, no Príncipe Real.

Assim foi até à década de 1990, quando a Mesquita Central foi construída num terreno cedido pelo Governo português, com o apoio de países islâmicos e mecenas vários. Hoje existem várias mesquitas em todo o país, Lisboa, Porto, Algarve.

"Não tem comparação qualquer com aquilo que era quando os primeiros muçulmanos chegaram", reconhece o bancário, há mais de 20 anos em Portugal.

Hoje, diz, há "um fluxo maior" de migrantes indianos.

"Há uma nova vaga, que veio à procura de oportunidades em Portugal", na agricultura, mas também nos serviços.

Chegou à mesquita num Uber conduzido por um indiano, há três anos em Lisboa e a falar "50% de português", oriundo do estado do Gujarate - também o seu e o do primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, cuja deslocação ao Porto, em maio, para reuniões com a União Europeia (UE), foi cancelada, devido à situação pandémica na Índia, para desgosto da comunidade em Portugal.

Com um legado de filantropia e voluntariado (basta pensar nos projetos da Fundação Aga Khan), a comunidade muçulmana xiita ismaelita chegou a Portugal igualmente a partir de Moçambique e também com raízes na Índia.

"No início, era sobretudo uma comunidade que se estabeleceu por conta própria, com vários negócios, sobretudo na área do mobiliário e hotelaria", recupera Rahim Firozali, presidente do conselho nacional ismaelita, acrescentando que hoje há uma "maior diversificação das atividades económicas".

A educação é considerada "primordial" pela comunidade. "Praticamente 100% da nossa juventude frequenta o ensino superior", frisa, sublinhando que não há "qualquer tipo de distinção" de género.

Aliás, o anterior imã indicou aos crentes que, se tivessem recursos para educar apenas um descendente, deviam "privilegiar a rapariga", que tem depois "o papel de educadora da família".

Portugal começou a despertar o interesse da comunidade ismaelita mundial a partir de 2015, quando se celebrou o acordo entre o Estado português e o Imamat Ismaíli para o estabelecimento da sede mundial em Portugal (que está a ser construída num palácio de Lisboa).

A curiosidade aumentou quando o líder espiritual dos ismaelita, Aga Khan, decidiu celebrar o final do seu jubileu de diamante em Lisboa, em 2018, trazendo cerca de 45 mil fiéis de todo o mundo.

Em resultado, nos últimos anos, têm-se estabelecido mais ismaelitas em Portugal, fazendo investimentos bastante significativos. E a comunidade, que começou por ser "muito homogénea", da Índia e Paquistão, é hoje mais diversa, com gente da Ásia Central, Afeganistão, Irão.