País

“As glórias, terrores e aventuras” do eurodeputado Paulo Rangel

A relação com a família, a conversa que nunca teve com os pais sobre a orientação sexual, os sonhos, que acabam tarde e são muitos, e os planos para o futuro, que não faz, numa entrevista ao programa da SIC Alta Definição, onde houve ainda espaço para falar da possível candidatura à liderança do PSD.

Enquanto os colegas conheciam todas as equipas de futebol, o jovem Paulo Rangel sabia de cor o nome dos ministros e secretários de Estado de vários governos. Em miúdo já “vibrava” com a política e foi bem cedo que criou “uma ligação enorme” a Sá Carneiro. Lembra-se que andou seis meses de gravata negra quando o primeiro-ministro morreu.

Admite que, com a idade que tinha, era algo estranho, mas ao mesmo tempo diz que era uma pessoa muito social e que estava sempre em aniversários e em casa de toda a gente. Garante que teve uma infância muito feliz, sem grandes preocupações, com estabilidade e muitas viagens com a família.

Com os pais “havia uma grande intimidade e cumplicidade, mas havia também uma certa distância”. Tinha uma vida livre, mas havia regras em relação, por exemplo, aos estudos e ao ser educado com as pessoas, “não ser chato e não abusar”, recorda.

A relação em casa era afetuosa mas com algum rigor.

“A tentativa de campanha negra sobre a orientação sexual de Paulo Rangel”

O pai sempre demonstrou orgulho no percurso do filho, mas a mãe nunca apoiou a carreira política. Relembra que quando foi nomeado secretário de Estado lhe disse que não ia à cerimónia da tomada de pose. Acredita que teve sempre receio da exposição do filho: da vida política, mas também da vida pessoal.

Apesar de nunca ter falado sobre a orientação sexual com os pais, sabe que “era uma coisa difícil” para a mãe, por ser uma pessoa católica. Por isso, tentou sempre proteger a família.

Paulo Rangel admite que, antes de 2019, não teria falado publicamente sobre o assunto “para proteger a mãe”, mas considera que sempre foi livre.

É por isso que desvaloriza aquilo a que chama de “tentativa de campanha negra sobre a orientação sexual de Paulo Rangel”, porque considera que não é nenhum problema e que nunca o escondeu.

“Vivi sempre discretamente porque é a vida privada. Não é nenhum segredo, mas também não é uma coisa para se publicar nos jornais nem pôr nas televisões.”

O eurodeputado considera que a orientação sexual de um político não é relevante para a sociedade, mas sabe que a homossexualidade pode ser uma arma de arremesso. Mesmo assim, diz que não tem nada a esconder.

Admite que o processo de aceitação não é fácil e o ambiente católico em que cresceu pesou, mas diz: “Deus gosta de nós como nós somos e Jesus nunca faria uma discriminação”.

O eurodeputado conta que passou por um processo natural de descoberta “difícil”, depois por “um processo de recusa” até que “as coisas se pacificaram”. Falar publicamente sobre o assunto exigiu algum tempo e alguma reflexão, mas sabia que depois da morte da mãe isso iria acontecer.

“Deus não está assim tão interessado com o que se passa dentro do quarto de cada um”

Paulo Rangel cresceu numa casa marcada pelos valores católicos, com pais conservadores, mas encontrou uma definição própria de Deus.

Assume-se como cristão de cultura católica e diz que tem uma relação positiva com a igreja, mas vê alguns assuntos em que “estamos pior”, dando o exemplo do papel da mulher, do sexo e do casamento.

Para o eurodeputado, há uma fixação demasiada com estes assuntos e “Deus não está assim tão interessado naquilo que se passa dentro do quarto de cada um.”

“O que é que eu fiz da minha vida?”

Quando morreram as pessoas mais importantes da vida, o pai e a mãe, diz que estava preparado, porque desde cedo que tem uma relação fácil com a morte.

Mais tarde viria, no entanto, a passar pelo “período mais difícil” da vida. “Tive um ano muito difícil em que fui muito abaixo. Tive uma operação que correu mal, foi na altura que decidi deixar definitivamente a advocacia e precisei de ajuda médica a sério”.

Estava num impasse e admite que “foi um momento duro”. A morte do pai leva-o a fazer uma reflexão sobre o que é que tinha feito da vida.

Foi um período de balanço não apenas da vida pessoal, mas também profissional. Confessa que, na altura, parecia que não tinha feito nada, mas hoje não tem dúvidas que fez muito e não hesita em dizer: “fui injusto comigo”.

“Todos temos glórias, terrores e aventuras”

Estar na vida pública tem muitas exigências e algumas são especialmente duras, mas quando acontece uma coisa séria ou grave diz que fica “calmíssimo”. Explica que foi o que aconteceu quando, recentemente, foi publicado um vídeo seu na internet.

Não estava a fazer mal a ninguém, mas afirma que “todos temos glórias, terrores e aventuras”. Sobre a publicação, não tem dúvidas: tinha a intenção de o enfraquecer politicamente.

E a presidência do PSD?

Sobre o futuro, Paulo Rangel diz que tem muitos sonhos, mas faz poucos planos. Muitas vezes apontado como candidato à liderança do PSD, e eurodeputado diz, para já, que “o futuro dirá”.

“O que importa é a pessoa saber se num dado momento está em condições de fazer um serviço público e de se dedicar a 100% a ele”, conclui.

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