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Roupa que atenua sintomas melhora qualidade de vida

05.01.2022 17:01

Futuro Hoje, por Lourenço Medeiros


Feita a pensar na menopausa, a tecnologia, desenvolvida em Guimarães, que permite regular a temperatura corporal, tem muitas outras aplicações.

Filipa Fernandes aceitou um desafio. Seria possível fazer uma roupa que aliviasse os sintomas típicos dos chamados afrontamentos? 

O truque que usou tem um enorme potencial. Do desporto às forças armadas e à medicina este material tem propriedades testadas antimicrobianas e antifúngicas, além da função de regulação de temperatura. 

Num ginásio de Guimarães encontramos Cristina Costa a correr numa passadeira, cansada, como é natural, mas, a confirmar-nos que consegue correr mais, e mais tempo, graças à t-shirt que está a usar. Parece uma t-shirt normal, branca, o que a distingue é um leve padrão florido, como que embebido no tecido. Ninguém diria que é ali que está o segredo, a tecnologia que lhe mantém o calor corporal abaixo do que seria expectável com o exercício. 

Durante a reportagem do Futuro Hoje, a Filipa Fernandes afadiga-se a apontar uma câmara  térmica para o tronco da Cristina. Vemos os habituais padrões de cores mostrados por estas câmaras, numa leitura rápida, a zona estampada da t-shirt não aquece tanto como a não estampada, fica 3 a 4 graus celsius abaixo.

A zona estampada tem as partículas capazes de regular a temperatura embebidas em silicone medicinal

A t-shirt funciona porque tem partículas capazes de contrariar o efeito do aumento do calor no nosso corpo, partículas ínfimas capazes de regular a temperatura. Este material, se fosse estampado nas t-shirts, sairia facilmente com algumas lavagens. O truque foi criar a mistura certa, embeber as partículas em silicone medicinal, neutro para a nossa pele. A mistura certa pode variar com o efeito pretendido, será diferente nesta t-shirt ou numas meias ou, porque não, num uniforme militar. Está aqui boa parte do segredo do negócio.

Filipa Fernandes, que desenvolveu este processo, já fazia investigação na Universidade do Minho, no curso de Engenharia de Materiais e foi uma feliz coincidência que fez com que o fizesse dentro da própria indústria, onde continua a trabalhar.

Já criou a sua empresa de materiais, a Ooze Nanoteche, neste caso, está a colaborar com uma empresa têxtil. 

“É basicamente ter um conhecimento primordial dos materiais e tentar extrair deles as melhores propriedades possíveis. E foi isso que eu tentei fazer. Eu  conjuguei os materiais de forma a que, num tecido, tivéssemos uma localização exata, com um material que conseguisse absorver o calor que nós emanamos, nas oscilações em que temos, aumentos repentinos ou quedas repentinas de temperatura, dando-nos no fim conforto.”

Uma empresa têxtil apostou na investigação, arriscou nos testes e já está a produzir para o mercado. As peças são feitas em Guimarães e estampadas com um material especial, basicamente partículas capazes de regular a nossa temperatura que normalmente sairiam numa lavagem. O segredo passa pela forma de prender essas partículas ao têxtil em silicone medicinal, inofensivo para a nossa pele e que não deixa fugir a fórmula nas lavagens e com o uso do dia a dia.  

A reportagem do Futuro Hoje na fábrica próxima de Guimarães

Foi o empresário Manuel Ribeiro, da Ribeiro e Matos, com quem já colaborava noutros projetos, que perguntou à investigadora se não teria uma solução para o sofrimento da sua mãe com os sintomas da menopausa

“O regulador de temperatura foi mesmo pela minha mãe. A minha mãe tinha problemas de temperatura, chegou a desmaiar, chegou a ir para o hospital e a ideia veio dali, vem de uma pessoa de quem eu gosto muito.”

Filipa descreve assim o retorno dos testes que fizeram nos últimos dois anos. 

“Há pessoas que nos agradecem diariamente pela melhoria que têm na qualidade de vida. Pessoas que não conseguiam dormir, que hoje em dia conseguem, pessoas que sofriam imenso com a menopausa e que conseguem chegar ao fim e dizer, agora tenho uma vida normal, agora consigo viver normalmente, passar a não andar tão irritada, não ter aqueles afrontamentos violentos. Conseguem ter qualidade de vida, e não há nada no mundo que seja melhor do que esses feedbacks.”

Não querem ir depressa demais e pretendem testar todas as soluções, mas o potencial da tecnologia vai muito para além de t-shirts para a menopausa. Estão a fazer estudos com a psicóloga Rita Soares, sobre o impacto desta tecnologia em diferentes patologias e sintomas.

93% das Mulheres inquiridas e que utilizaram a t-shirt demonstram uma melhoria muito significativa ao nível do conforto, portanto, maior conforto, melhores níveis de sono, muito mais regular, logo uma carga de energia muito maior que permite ter o seu dia a dia e fazerem as suas atividades.”

É difícil encontrar lojas com estas t-shirt à venda, para as quais criaram a marca Intimae. Estão a vender sobretudo na Internet. 

Para já, apostaram na t-shirt. Grande parte da produção inicial, nos primeiros dois anos, foi para testes e aperfeiçoamentos. Filipa Fernandes tenciona ir muito mais longe. 

“Estamos a falar, de produtos que já testámos, que ainda não estão no mercado, mas que virão de futuro, como por exemplo meias, a roupa interior, boxers, cuequinhas ou até a coleção masculina. Acoplada a este tipo de regulação de temperatura temos também capacidade antimicrobiana e antifúngica ambas dermatologicamente testadas.”

A saúde é obviamente uma motivação, mas esta é também uma indústria com fortíssima pressão internacional e que precisa constantemente de se reinventar.

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