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O que terá levado Marta Temido a apresentar demissão durante a madrugada?

O que terá levado Marta Temido a apresentar demissão durante a madrugada?
NurPhoto/Getty Imagens
Depois de dois anos de pandemia e de nos últimos meses ter enfrentado forte contestação devido à falta de especialistas nas urgências de obstetrícia de vários hospitais, a ministra da Saúde está de saída. Foi de madrugada que o anúncio foi feito, mas porquê? E como sai Marta Temido desta situação? Não pela porta grande, consideram os politólogos ouvidos pela SIC Notícias.

Às 1:18 chegava às redações uma nota do Ministério da Saúde a informar que “a ministra da Saúde apresentou a demissão ao primeiro-ministro por entender que deixou de ter condições para se manter no cargo”.

Cerca de cinco horas antes, à hora de jantar, era notícia a morte de uma grávida de 30 semanas que foi às urgências do hospital Santa Maria apresentando dificuldade respiratória e tensão alta, mas após melhoria foi transportada para o hospital S. Francisco Xavier.

Durante a viagem sofreu uma paragem cardiorrespiratória, pelo que quando chegou ao S. Francisco Xavier foi submetida a “uma cesariana urgente”. O bebé sobreviveu, mas a progenitora acabaria por falecer. O episódio aconteceu no início da semana passada, mas só ontem à noite foi notícia.

Apesar dos relatos sucessivos nos últimos meses e em vários hospitais sobre a falta de obstetras e urgências fechadas, não foi o caso no passado dia 23 de agosto no Santa Maria: “a equipa de urgência de Obstetrícia e Ginecologia do CHULN estava completa”.

Terá sido, porém, esta morte o fim da linha para Marta Temido? Até pode ter sido, mas não deixa de ser “bastante extemporâneo o anúncio de uma demissão de madrugada”.

Quem o diz é o professor António Costa Pinto, lembrando que “a grande maioria das demissões (…) tem sempre uma planificação pela parte do Governo e uma coordenação entre ministro e primeiro-ministro, o que nos leva a crer que esta demissão tem contornos ainda menos conhecidos, mas que apontam para uma grande firmeza da ministra”.

Na opinião do investigador coordenador no Instituto de Ciências Sociais (ICS) da Universidade de Lisboa, “parece evidente que houve alguma falta de gestão na comunicação”. Apesar de a “demissão nesta conjuntura não ser uma novidade”, muito fica por saber, nomeadamente se a saída se trata de “assumir responsabilidades políticas ou se por dificuldade de gestão do setor tendo em vista as relações mais complexas com sindicatos, ordens, etc.”.

Ainda assim, reitera António Costa Pinto, “isto é símbolo de alguma descoordenação que não costuma marcar quer o primeiro-ministro atual quer os anteriores, desde Cavaco Silva que a centralização da decisão e comunicação são uma marca dos governos e, nos últimos tempos, isso não tem acontecido. Muito embora seja um episódio menor face, por exemplo, ao que se passou com o ministro das Infraestruturas”.

Opinião diferente tem o cientista político José Adelino Maltez. A ministra “tem soberania para se relacionar com o primeiro-ministro” a que horas for. Ainda assim reconhece que “é mau ter acontecido desta maneira porque acho que os ministros devem demitir-se num confronto direto”.

E apesar de estarmos “todos a pressupor que [na origem da demissão está] o caso da grávida, pode não ser”. A verdade é que, prossegue, Marta Temido “era o rosto de uma determinada política pública e, portanto, isto é como uma pedrada que acerta na cabeça da ministra, que deve naturalmente ter-se sentido mal [com o caso] mesmo que civilmente não seja responsabilidade dela”.

Apesar de recordar que na pasta da Saúde, as saídas têm sido recorrentes, o politólogo destaca que estamos a falar de uma das “pedras básicas deste e do anterior governo”.

“Era a ministra mais conhecida, mais expressiva e chegou a ser a mais popular [durante a pandemia]. Julgo que entrou no quotidiano de todos os portugueses e parece não ter entrado por antipatia, era como se fosse da família, que viveu um tempo connosco e que agora foi embora”

Que marca deixa Marta Temido como ministra e militante?

Se durante a pandemia alcançou uma “imagem extremamente positiva” e que “levou até à sua transição de ministra independente para ministra do PS”, por “eventualmente ter alguma ambição politica, (…) este modelo de demissão neutraliza o seu futuro político”.

À SIC Notícias, António Costa Pinto explica ainda que Marta Temido é “uma recém-chegada ao PS, não se trata de uma política ao contrário, por exemplo, de Fernando Medina”, que polémicas à parte segue o seu caminho na governação. A ministra da Saúde estava ainda “num processo de transição” e pode, com esta decisão, “ter comprometido esse caminho” político.

José Adelino Maltez desvaloriza, para já, esse impacto, acreditando que é deputada e acha "que vai continuar”, como já aconteceu com vários antigos governantes. Marta Temido foi aliás, recordou, cabeça de lista do PS pelo círculo eleitoral de Coimbra nas eleições legislativas deste ano.

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