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Não acontece só "aos filhos dos outros": livro dá orientações a famílias sobre violência sexual

Não acontece só "aos filhos dos outros": livro dá orientações a famílias sobre violência sexual
Tinnakorn Jorruang / EyeEm

"Silêncio só beneficia os abusadores", quanto mais se falar nestas questões e normalizar a discussão sobre elas, mais fácil é prevenir ou detetar qualquer situação anómala.

Ângelo Fernandes, ele próprio vítima de violência sexual em criança por parte de um amigo da família, chamou a atenção que "estes mitos criam uma falsa sensação de segurança nos pais" que acreditam que fizeram tudo o que estava ao seu alcance.

Os abusos sexuais não acontecem só "aos filhos dos outros", há muitas formas de violentar uma criança além da violação, geralmente o agressor é alguém próximo e para que a criança sinta vontade em denunciar é preciso promover diálogo. Estes e muitos outros factos, mas também mitos, e orientações para pais, mães e cuidadores constam no mais recente livro do presidente da associação Quebrar o Silêncio de apoio a homens e rapazes vítimas de abuso sexual.

O livro tem o título "De que falamos quando falamos de violência sexual contra crianças - Guia de prevenção com orientações para mães, pais e pessoas cuidadoras" e, em entrevista à agência Lusa, Ângelo Fernandes, autor do livro, explicou que há muitos mitos associados a esta questão. A apresentação do livro é quinta-feira, dia 13, na Fnac do Chiado, em Lisboa.

A vontade de escrever este livro, explicou à Lusa, veio precisamente das muitas formações que tem dado a profissionais e onde constatou que as dúvidas mais frequentes eram colocadas não na perspetiva profissional, mas enquanto pais e mães, e que também entre estas pessoas "havia muita desinformação".

Apesar de já existirem outros recursos sobre este tema, Ângelo Fernande disse entender ser importante um livro em que o foco estivesse nos pais e na prevenção e que não responsabilizasse a criança pela denúncia do abuso. Apontou que muitos pais e mães "não têm noção da real profundidade ou da dimensão da violência sexual contra crianças" e que procurou, por isso, dar orientações e ferramentas para cada família aplicar na sua dinâmica familiar.

Mitos entendidos como verdade

Muitos pais, mães e cuidadores acham que a violência sexual "é um problema que só acontece aos outros", esta é uma ideia perigosa pois está a criar uma "falsa sensação de segurança". O autor sublinha que muitos pais acham que este fenómeno só acontece em determinados contextos ou dento de determinados grupos sociais.

Um dos mitos entre as famílias é achar "que muitas vezes são estranhos que abusam de crianças, quando sabemos que isso não é verdade. Na maior parte dos casos o abusador é da própria família da criança ou então tem uma relação próxima", apontou, acrescentando que também acontece com frequência acreditar-se que o abuso só acontece uma vez e que a criança não terá memória disso.

Os pais também acreditarem que o filho lhes contaria se fosse vítima de abuso porque têm um contexto familiar de proximidade e diálogo. "Nós sabemos que não é essa a realidade. As crianças não partilham, não é comum as crianças partilharem histórias de abuso e as poucas que o fazem, muitas vezes quando o fazem, essas histórias não são reconhecidas como partilha, muitas vezes são descredibilizadas ou passam despercebidas", apontou.

Outros tipos de abuso sexual

O autor destacou que a violência sexual não é apenas a violação ou atos penetrativos. Por exemplo, um abusador que se masturbe e ejacule à frente de uma criança também constitui uma forma de abuso sexual apesar de não ter havido qualquer contacto físico com a criança.

"As pessoas têm que ter consciência que há diferentes formas de violência sexual, umas com contacto físico, outras sem, mas que importa saber o impacto traumático que teve na vítima", alertou.

No caso de uma criança partilhar uma história de abuso, Ângelo Fernandes defendeu que é importante validar o sofrimento da criança, valorizar a partilha e elogiar a coragem que teve ao fazê-lo, evitando entrar em pânico, uma vez que isso pode fazer com que a criança se arrependa de ter falado.

Disse ainda que no caso de uma denúncia formal, importa pedir logo ajuda a um psicólogo especializado em violência sexual e trauma para aumentar a probabilidade de que o trauma não venha a ser prolongado ao longo da vida.

O que se pode fazer?

Ângelo Fernandes sublinhou que "é fundamental" ensinar às crianças os nomes corretos da genitália, saber identificar o pénis, os testículos, a vulva ou a vagina.

"Lembro-me do caso de uma menina que tinha dito, no contexto de escola, que o tio lhe tinha tocado na bolacha e esta partilha passou despercebida até a professora mais tarde tomar consciência de que em casa desta menina a família usava o termo bolacha para referir-se à vagina", contou, acrescentando que se a menina tivesse sido ensinada a usar o termo correto, a partilha teria sido encarada com outra importância.

Destacou também a importância da educação para a sexualidade, como um "percurso que é importante não só para o desenvolvimento da criança, em termos da saúde, da saúde sexual, mas também como da prevenção de situações de violência sexual".

O presidente da Quebrar o Silêncio, Ângelo Fernandes, recordou que, segundo estimativas do Conselho da Europa, uma em cada cinco crianças foram, são ou vão ser vítimas de violência sexual, um dado que quando apresenta aos pais e mães nas suas formações os faz compreender que "afinal não é uma realidade assim tão distante da sua".

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