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Entrevista SIC

Guerra na Europa pode afetar Portugal "de forma gravíssima" daqui a 2 ou 3 anos

Em entrevista à SIC, o almirante Henrique Gouveia e Melo diz que é preciso investir na Defesa face ao crescente risco de um conflito na Europa.

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O chefe do Estado-Maior da Armada diz que os jovens devem ser incentivados a integrar as Forças Armadas, mas não defende o regresso do serviço militar obrigatório. Em entrevista à SIC, o almirante Henrique Gouveia e Melo pede mais investimento na Defesa, alertando para o risco de a guerra na Ucrânia se alastrar pela Europa e afetar Portugal.

“É uma pescadinha de rabo na boca: se a sociedade acha que a Defesa não é uma preocupação, isso reflete-se no poder político. Se o poder político, por outro lado, não considerar que a Defesa é uma preocupação e que deve explicar isso à sociedade, também alimenta um certo autismo dessa sociedade.”

Os recursos humanos são apenas uma parte do problema, a outra é o financiamento, aponta Gouveia e Melo.

“Os países ocidentais, na maioria, estão a chegar à conclusão, perante este conflito na Ucrânia, que têm de gastar entre 2 a 3% do orçamento.” No entanto, em Portugal, cada vez que se discute um eventual aumento do orçamento da Defesa a reação não é positiva.

"Lá vem o militarismo outra vez”, dizem. “Não vem militarismo nenhum, são os outros que nos estão a impor que nós nos defendamos, são os outros que são os agressores, nós estamos só a tentar reagir”, argumenta o chefe do Estado-Maior da Armada.

“É preciso que o outro lado perceba que não vai ganhar nada confrontando-nos. Há uma fórmula, muito usada nos meios militares, que é ‘o poder relativo das capacidades’. Muitas vezes não é só ter capacidade, tem que haver capacidade e vontade, e a vontade está nas populações, no sistema político.”

“Em termos de capacidade, a Europa ocidental, sem os Estados Unidos, é muito superior à Federação Russa”, mas a Rússia tem tido mais vontade do que a Europa”, considera, até porque "o agressor, normalmente, tem muito mais vontade do que quem se defende.”

O almirante Gouveia e Melo considera que Portugal pode ser afetado pelas ações da Rússia “daqui a dois, três anos, de forma gravíssima” e lembra a localização geográfica do país, com uma grande orla costeira voltada para o Atlântico, é um fator de risco.

“Só no ano passado fizemos mais de 40 ações de seguimento de navios russos nas nossas águas”, nota. “Se houver um conflito na Europa, estamos tão envolvidos como a Europa de leste ou como a Europa central nesse conflito.”

Para Gouveia e Melo, a prevenção é essencial: “Prefiro estar prevenido, prefiro discutir os temas, preparar-me. Mesmo que depois, se calhar, a decisão seja ‘não temos capacidade para fazer isto, não vamos fazer’, mas pelo menos discutimos, não nos escondemos, não evitamos a discussão”.