Os caminhos dos rios Unhais e Zêzere cruzam-se em plena Albufeira da barragem do cabril. Pouco antes, as águas caminham lado a lado, separadas apenas por uma estreita língua de terra. Precisamente a zona escolhida para instalar dezenas de ilhas flutuantes de painéis fotovoltaicos, com a que já existe no Alqueva.
“Vão ficar nos dois braços do rio, portanto, quer do lado do rio Zêzere, quer do lado do rio Unhais e nesse sítio precisamente onde estamos que é a estrada que divide os dois rios será instalado, então, as sub estações que fazem parte, então, no fundo a recolha dos pontos de energia”, explica Jorge Custódio, Presidente da Câmara municipal de Pampilhosa da Serra.
“Vai provocar a criação de uma rede de média tensão de 30 quilómetros que irá dar a Penela” acrescenta António Lopes, Presidente da Câmara Municipal de Pedrógão Grande.
E esse é apenas um dos muitos problemas que a central fotovoltaica pode trazer a Pedrógão Grande. O município teme, por exemplo, por um projeto turístico que iria criar 200 postos de trabalho e que pode fugir quando encontrar uma paisagem totalmente alterada
Em construção estão as instalações de um centro náutico para apoio às atividades turísticas na albufeira que irão ficar com muito menos espaço.
Em resposta à SIC, a Voltalia, empresa vencedora do concurso, garante que vai manter a navegabilidade na albufeira e que os painéis serão instalados fora da zona turística.
“Há só um corredor de seis metros que vai ficar sem painéis no rio em Unhais. O rio Zêzere vai ficar com espaço. Vai ser muito fácil prever que vão fechar no rio Unhais e que já não se pode fazer o contorno da ilha que era um dos elementos mais interessantes em termos de passeio e canoagem”, diz José Pais, do parque de campismo de Pedrogão Grande.
Todos acusam o poder central de falta de diálogo. Aliás, os municípios só souberam de que aqui ia nascer um parque fotovoltaico quando foram contactados pela empresa que ganhou o concurso.
À sombra, e com o aquecimento de milhares de painéis fotovoltaicos, vai correr por aqui a água que depois há de chegar às torneiras de quem vive em Lisboa.
“40 campos de futebol a fazer sombreamento numa área como nós aqui estamos a ver, acredito que obviamente tem de haver variação e tem de haver alteração na fauna porque não deixa de haver intervenção humana e, portanto, vamos mudar completamente o que é o percurso da fauna e da natureza nestes percursos de rio”, explica José Custódio.
A empresa vencedora do concurso garante a existência de estudos que mostram que as fotovoltaicas flutuantes podem preservar ou até melhorar o ecossistema aquático. Uma perspetiva muito distante da que já levou ao lançamento de uma petição pública contra o projeto.
O Ministério do Ambiente assegura estar a acompanhar o processo que vem do Governo anterior e apenas garante que não tem prevista a instalação de novas centrais flutuantes
Já a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) revela que a avaliação de impacte ambiental que começou em setembro está agora suspensa à espera da entrega de elementos adicionais.
Lembra ainda que o caderno de encargos prevê medidas de controlo para assegurar a qualidade da água e que o projeto da central fotovoltaica terá que ser compatível com as atividades do Centro Náutico e não interferir com o abastecimento das aeronaves de combate a incêndios.
