Sob uma chuva que encoraja o aumento da produção, são apenas mãos asiáticas que colhem valiosas amoras nesta exploração agrícola em Faro. Não há aqui um único trabalhador português. Abandonaram o setor após a recuperação económica que se seguiu ao resgate financeiro. O fluxo migratório foi a tábua de salvação para a perspetiva de prosperidade, não só da quinta como de toda a organização de produtores.
Sem esses trabalhadores, a fruta não seria colhida. Frutos vermelhos e outros tropicais duplicaram o volume de negócios da empresa Madre Fruta na última década. Durante a campanha, chega a ser necessária a contratação de até 3300 trabalhadores, sendo 92% destes de origem estrangeira.
Em janeiro de 2014, havia cerca de 52 mil trabalhadores estrangeiros em Portugal. Em dezembro de 2023, esse número subiu para 504 mil. Estes dados ilustram bem a importância destes trabalhadores para a economia nacional. Quando olhamos para os setores económicos, os números tornam-se ainda mais reveladores. Na agricultura e pescas, cerca de 43% dos trabalhadores eram estrangeiros em 2023; na construção, 31%; e no turismo, 23%.
70% da mão-de-obra em hotéis é estrangeira
Todos estes setores estão em crescimento, num país próximo do pleno emprego. Construir um novo hotel, como este, é hoje, por necessidade, um exercício de multiculturalidade. Cerca de 70% da mão-de-obra envolvida vem do estrangeiro — muitos com qualificações — incluindo trabalhadores dos PALOP e, por exemplo, do Peru.
Segue-se o recrutamento para a operação turística, já com a consciência de que não haverá portugueses suficientes para preencher as vagas. A construção também recruta mão-de-obra estrangeira. A verdade é que, sem os imigrantes, a agricultura e a construção não teriam hoje esta capacidade produtiva em Portugal.
Agricultura já sente dificuldades em contratar
É o mesmo que dizer que, sem os trabalhadores estrangeiros, o país não teria crescido como cresceu. No entanto, a mudança recente nas políticas de imigração surge precisamente num momento em que estes setores ainda estão em expansão.
E nas estufas da Madre Fruta, já se nota uma quebra nas expectativas de recrutamento. Com o encerramento das manifestações de interesse, o impacto já é visível: há menos novos trabalhadores a chegar, ao contrário do que acontecia nos últimos anos.
Algarve com dificuldade em garantir alojamento
A nova Via Verde para a imigração é encarada como uma solução inevitável.
Contudo, pelo menos no Algarve, garantir alojamento — uma das condições básicas para esse recrutamento — é um verdadeiro quebra-cabeças. Se essa dificuldade persistir, nenhuma das partes sairá a ganhar.
