O Governo ordenou à Inspeção-Geral das Atividades em Saúde a abertura de um inquérito ao caso da mulher que teve um bebé em plena rua, no Carregado. Francisco Goiana da Silva considera que "a linha do SNS24 não foi dimensionada para ter um acréscimo tão grande em termos de volume e de pressão, como sofreu ao longo do último ano". Neste caso, o médico e comentador da SIC aponta para a operadora que gere este serviço: "Houve uma falha humana, este humano, este operador da linha que falhou, é um funcionário não do Ministério da Saúde, é do operador privado".
"Na minha opinião, a senhora ministra deve ver isto como uma oportunidade e como uma necessidade de rever este contrato que já está completamente desajustado à realidade do país", defende Goiana da Silva.
Na análise ao caso da grávida do Carregado, o comentador da SIC faz questão de contextualizar e de realçar que "o SNS é o local onde os serviços mais diferenciados e mais capazes são prestados".
"Temos um bom sistema, historicamente, um bom sistema de resposta às grávidas e aos recém-nascidos, daí termos uma taxa de mortalidade materno-infantil de referência a nível internacional. Este sistema foi sempre alicerçado num acesso primordial que era feito através das portas das maternidades. Ora, chegámos a uma conclusão, enquanto país, isto já acho que já é óbvio para todos, que não temos capacidade de ter tantas maternidades abertas e está então uma transformação em curso. Até lá estamos numa situação de grande pressão", explica Goiana da Silva.
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O comentador da SIC acrescenta que o foco deixou de ser a porta das maternidades e passou a ser a estar na linha do SNS24, na linha SNS Grávida ou o projeto Ligue Antes Salve Vidas.
"A linha do SNS24 não foi dimensionada para ter um acréscimo tão grande em termos de volume e de pressão, como sofreu ao longo do último ano. (...) Isto é um contrato que existe com um operador privado, que conseguiu um contrato que foi adjudicado no final de 2023 num valor de 50 milhões de euros para três anos. É a esse operador privado também que compete garantir que não há falhas e que estes algoritmos e estes protocolos clínicos que são definidos sim pelo Ministério da Saúde são cumpridos à risca", explica.
"Há uma indicação clara no protocolo clínico, que foi aprovado pelo Ministério da Saúde, que esta senhora não pode ser mandada para uma maternidade, tem de ser enviada uma ambulância. Isto falhou. E, a meu ver, a minha questão é, será que isto é responsabilidade da senhora Ministra da Saúde, ou da Presidenta do Conselho de Administração dos Serviços Partilhados, ou é responsabilidade do operador privado, que tem de garantir o respeito por estes critérios clínicos e que não os garantiu", acrescenta Goiana da Silva.
A mulher que teve o parto na via pública e a recém-nascida estão bem e deverão ter alta ainda esta quarta-feira. Tudo aconteceu na segunda-feira de manhã perto da Junta de Freguesia do Carregado, no concelho de Alenquer, numa zona residencial e de comércio. A grávida estava a tomar o pequeno-almoço numa pastelaria quando começou com dores e lhe rebentaram as águas.
