O grupo parlamentar do PS vai pedir a audição dos ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa Nacional, no Parlamento, para obter esclarecimentos sobre os caças com destino a Israel que fizeram escala na base das Lajes, em abril.
"O grupo parlamentar do Partido Socialista vai pedir para ouvir os dois ministros na Assembleia da República, quer o ministro dos Negócios Estrangeiros [Paulo Rangel], quer o ministro da Defesa Nacional [Nuno Melo]", adiantou, acrescentando que têm de explicar "ao país afinal do que se trata e porquê que não houve comunicação entre os dois ministérios".
Em declarações aos jornalistas, o secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, afirmou que as declarações de Rangel "têm gravidade" e devem impor esclarecimentos claros", referindo que o responsável disse "não ter conhecimento de uma operação aérea que utilizou território nacional e que não terá sido informado, como deveria".
José Luís Carneiro falava no concelho de Machico, na Madeira, após uma arruada no âmbito da campanha eleitoral para as autárquicas de 12 de outubro e antes de um comício que decorre no Fórum Machico, com todos os cabeças de lista aos municípios da região autónoma.
PCP também quer ouvir Rangel e Nuno Melo
O PCP pediu a audição parlamentar dos ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa Nacional, anunciou o secretário-geral do partido. Em declarações aos jornalistas durante uma arruada em Faro, Paulo Raimundo defendeu que Portugal "é um país soberano" e "não se pode dar ao luxo" de deixar que aviões, em particular dos Estados Unidos, aterrem em solo nacional "sem autorização".
"Alguém vai ter de explicar isso e é exatamente porque alguém vai ter de explicar isso que nós chamámos à Assembleia da República quer o ministro dos Negócios Estrangeiros, quer o ministro da Defesa", anunciou Paulo Raimundo.
O secretário-geral do PCP defendeu que "não vale a pena eles estarem a sacudir as responsabilidades um para o outro", porque a "responsabilidade é do Governo" e, portanto, "o Governo vai ter de explicar".
Questionado se lhe parece que o ministro da Defesa Nacional se deveria demitir, como sugeriu o porta-voz do Livre, Rui Tavares, Paulo Raimundo considerou que estar agora a "precipitar a consequência da demissão" de Nuno Melo só teria "uma consequência".
"Deixava de ter explicar aquilo que aconteceu e nós não queremos que ele deixe de explicar. Vai ter de explicar o ministro da Defesa e vai ter de explicar o ministro dos Negócios Estrangeiros", afirmou.
Paulo Raimundo recordou que "já não é a primeira vez que acontece" uma situação desta natureza, numa alusão a um barco com pavilhão português que, em outubro de 2024, transportava material explosivo para Israel, salientando que Portugal não pode ser uma "república das bananas".
Uma "falha de procedimento"
De acordo com um comunicado divulgado esta quinta-feira pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), tutelado por Paulo Rangel, três aeronaves norte-americanas fizeram uma escala na base açoriana das Lajes com destino a Israel, sem comunicação prévia ao Governo português, uma "falha de procedimento" sobre a qual o chefe da diplomacia portuguesa quer apurar responsabilidades.
A nota refere que esta operação teve "comunicação e autorização tácita (isto é, por decurso do prazo respetivo)" e a comunicação tinha já parecer favorável da AAN (Autoridade Aeronáutica Nacional), que depende do Ministério da Defesa Nacional, tutelado por Nuno Melo.
O MNE realça que "a escala e sobrevoo de três aeronaves americanas para entrega a Israel", ocorrida em 22 de abril, não significa que "tenha sido estritamente violado o compromisso assumido pelo Ministério ou pelo Governo nesta matéria", referindo-se ao embargo à venda de armas e passagem pelo território nacional de material militar para Israel, determinado pelo executivo de Luís Montenegro.
