A escritora Clara Pinto Correia morreu esta terça-feira, aos 65 anos. A notícia foi avançada pelo Correio da Manhã e confirmada pela SIC.
Além da literatura, numa carreira em que se destaca a obra "Adeus, Princesa", escrita quando tinha 25 anos, Clara Pinto Correia foi também bióloga e professora universitária.
Ao que a SIC apurou, Clara Pinto Correia foi encontrada morta em casa, em Estremoz, distrito de Évora, depois de um "episódio de doença súbita". O INEM e os bombeiros de Estremoz foram acionados às 09:47.
Clara Pinto Correia foi também jornalista, cronista, apresentadora e até atriz, no filme "Kiss me" (2004), de António Cunha Telles.
Presidente da República "consternado" com "partida prematura"
O Presidente da República reagiu entretanto à morte da escritora. Marcelo Rebelo de Sousa "apresenta à Família, amigos e admiradores de Clara Pinto Correia os seus afetuosos sentimentos, consternado pela sua partida prematura"
"Clara Pinto Correia juntava à alegria de viver, uma inteligência e um brilho que se expressaram na intervenção oral e escrita, no magistério científico e na comunicação com os outros. Não deixou nunca ninguém indiferente. Daí o sentido de ausência por todos partilhado neste momento", lê-se numa nota publicada no site da Presidência.
Da biologia à literatura
Licenciada em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em 1984, doutorou-se em 1992 em Biologia Celular, pelo Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar da Universidade do Porto, embora já estivesse integrada no corpo docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, na área de biologia celular e histologia e embriologia.
Viveu nos Estados Unidos, onde continuou os estudos, fez investigação e publicou obras científicas, regressando a Portugal em 1996, para se dedicar à docência universitária.
A par da biologia, área por que se apaixonou ainda na infância, durante o período em que viveu com os pais em Angola, Clara Pinto Correia desenvolveu uma profícua carreira de escritora.
Muito para lá dos livros científicos, Clara Pinto Correia cedo se começou a dedicar à literatura, tendo publicado aos 23 anos, em parceria com outras escritoras, o livro "Anda uma mãe a criar filhas para isto".
Dois anos depois publicou aquele que se tornaria o seu mais conhecido romance, "Adeus, Princesa", que teve na altura, um grande impacto junto da crítica, que chegou a classificá-lo como "um dos livros notáveis de 1985".
"Ponto Pé de Flor", "A Mulher Gorda", "Domingo de Ramos", "Clonai e Multiplicai-vos", "A Ilha dos Pássaros Doidos", "A Deriva dos Continentes" e "Mais que Perfeito", são apenas alguns dos títulos da quase meia centena que publicou.
Durante muitos anos, a autora foi uma figura pública marcante em Portugal, quer pelas suas obras, como pelo cruzamento que fez entre ciência, literatura e comunicação, mas também pela sua presença mediática.
No entanto, sofreria uma queda do palco mediático para uma vida de dificuldades pessoais e profissionais, tendo perdido o emprego e enfrentado problemas financeiros, vendo-se obrigada a sair da sua casa de longa data, em Sintra.
Clara Pinto Correia contou esta sua história, numa entrevista à revista Sábado em janeiro de 2025: "Fiquei sem emprego, sem qualquer espécie de trabalho. Primeiro que começasse a receber o subsídio de desemprego foram quase dois anos. Nas filas da Segurança Social olhavam para mim de esguelha. A minha senhoria da casa no Penedo [perto de Colares, Sintra] pôs-me uma ordem de despejo. Há 30 anos que lhe arrendava a casa e dava-me lindamente com ela".
Em 2003, foi acusada de plágio relativo a um artigo de opinião publicado na revista Visão, a que na altura reagiu afirmando nem sequer saber do que se estava a falar.
No ano passado publicou "Antares", um romance que decorre ao longo de uma única noite, sob o brilho constante da estrela vermelha que lhe dá nome, e que a própria autora diz ter escrito como uma "mensagem de esperança", para "que as pessoas não se esquecessem de todas as coisas boas que a vida lhes ofereceu".
