Os dois militares da GNR abordavam os imigrantes perto das explorações agrícolas, à hora de fecho de turno, como foi o caso da tarde de 6 de junho de 2024. Neste dia deram ordem de paragem a um imigrante do Bangladesh, inventando multas para ficarem com o dinheiro.
O imigrante em causa não tinha seguro, mas avisou que iria pedir que lho trouxessem. Os dois guardas disseram-lhe que era inútil, até porque haveriam, alegadamente, mais infrações no veículo e anunciaram uma multa que podia chegar aos 400 euros, porém o assunto poderia ficar por ali por 120 euros.
"Se não pagares os 120 euros, não te damos os documentos. Vamos comunicar à AIMA para não te dar a residência e para te cancelar a carta de condução para te mandar para o Bangladesh", disse José A., um dos militares de Tavira, segundo o despacho de acusação emitido pelo DIAP de Faro a 20 de novembro.
O imigrante em causa pedia perdão. O amigo chega entretanto com o seguro, mas a viatura em que seguia é também fiscalizada. Os dois militares apontam-lhe sujidade, pneu careca e luzes foscas.
O condutor nega as alegadas infrações, mas decide pagar os 100 euros que lhe são pedidos.
"Entregas o dinheiro todo junto, vai levantar 120", disse Diogo R., o outro militar. José A. acrescenta: "Se quiseres papel, vai para as Finanças e tens de pagar 450 euros. Vou tirar-vos o cartão de residência e mandar-vos para o Bangladesh."
A acusação relata pormenorizadamente 11 episódios, dos quais reuniu prova suficiente. Mas admite que possam ter ocorrido outros mais.
Esquema para extorquir imigrantes leva a quase dois mil euros
José A., de 27 anos, e Diogo R., de 25 anos, detidos em maio, terão orquestrado um esquema para extorquir os muitos imigrantes que trabalham na zona rural de Tavira.
Só nas ocorrências descritas, foram extorquidos quase dois mil euros entre junho de 2024 e março de 2025, diz o Ministério Público. Na maioria das vezes, quando as vítimas não tinham dinheiro consigo, eram acompanhadas até ao multibanco em Tavira.
Os militares aguardariam pelo dinheiro a alguns metros junto a um pavilhão, evitando as câmaras de videovigilância. O que não sabiam é que já estavam a ser vigiados e pela própria GNR.
Os autos de notícia por furos nos estofos e outras infrações invulgares levantaram suspeitas. Uma escuta no carro-patrulha revelara as combinações para extorquir as vítimas. Uma delas, sem passaporte físico na posse, foi obrigada a pagar 60 euros na hora. O Ministério Público descreve a forma como pediu clemência.
"Se entregasse a quantia que lhe foi pedida, ficaria sem dinheiro para comprar a sua alimentação", descreve-se o despacho.
A vítima não terá comido nessa noite, descreve a acusação, que enumera ainda episódios de intimidação e humilhação.
A investigação, levada a cabo pelo próprio Comando Territorial de Faro da GNR, fez buscas à casa dos militares e inquiriu dezenas de vítimas.
O despacho do procurador acusa-os de 27 crimes, a maioria de concussão, mas também falsificação de documentos, abuso de poder, burla qualificada, peculato e ofensa à integridade física.
Aguardam julgamento com pulseira eletrónica.
