Rui Correia

Cronista SIC Notícias

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Laborinho Lúcio e a nudez da escola

Perguntaram-lhe o que faz um homem depois de ser ministro? Respondeu que “é fundamental que um ministro saiba que quando se é ministro não é para ficar ministro e que quando se foi alguma coisa antes de se ser ministro, deve-se voltar a sê-lo, depois de o ter sido”.

Laborinho Lúcio e a nudez da escola

Talvez tenha sido por isso que, na sua condição de professor pós-ministro, Laborinho Lúcio decidiu empenhar-se a fundo numa iniciativa chamada “Programa Malhôa”. Ou melhor: “Grupinho Permanente de Análise do Programa Malhôa”. Melhor ainda: Laborinho Lúcio reunia-se regularmente com meninos e meninas de uma escola das Caldas da Rainha para que discutissem assuntos que os preocupavam num formato de assembleia participativa. Era ele que os convocava.

Andar na escola

Ninguém esteve à espera do seu desaparecimento para temer que um dia ele pudesse deixar de estar entre nós. Perdoe-se a escatologia, mas todos percebemos muito bem que é necessário pensar nestas coisas quando encontramos alguém que sabemos que realmente merece escapar às leis da vida. Nada é mais intolerável e egoísta do que supor que os deuses levam para junto de si aqueles que mais amamos.

Por todo o lugar onde andou, Laborinho Lúcio deixou um rasto de amabilidade elegante, de acutilância humorada e, para quem entendesse a sua índole, um apelo encarniçado à reflexão, ao pensamento insubmisso de olhos postos no céu e de pés e mãos bem assentes na terra.

Foi um namorado das escolas. Um irmão dos professores. Não deve haver um único professor em Portugal que não tenha andado dezenas, centenas de quilómetros somente para o escutar. Peregrinação. Percorreu o país de lés-a-lés para iluminar conferências em mínimos refeitórios, anfiteatros cheios, bibliotecas, ginásios escolares à pinha. Nunca foi de amabilidades frívolas e nunca teve uma palavra de complacência para com a escola ou para com os professores.

Uma vez perguntaram-lhe que riscos corre um professor “que anda na escola”. Foi esta a expressão. Riu-se e brincou dizendo que um professor que apenas “anda na escola” corre o risco de não correr risco nenhum… nem sequer o de ser professor. Defendia que, antes de tudo o mais, ser professor é ser um factor de risco.

Os alunos só atrapalham

Foi sempre exigente na noção que tinha da responsabilidade civilizacional que se preserva dentro de cada sala de aula. Estudioso da arquitetura movediça e volúvel dos sistemas educativos, Laborinho Lúcio deixou-nos um diagnóstico de embaraço e de nudez sistémica. Não vivia o Complexo de Cassandra mas expunha como ninguém os limites da mecânica educativa. E fazia-o de forma tão irredutivelmente plausível que era forçoso sair das suas palestras com a convicção de que há muito por fazer. Dizia frequentemente acerca do sistema educativo – e não só português, reconheça-se - “É esse o problema da nossa escola: temos modelos educativos extraordinários. O que atrapalha são os alunos!”.

Com Laborinho percebe-se que quanto mais aumenta a distância entre um professor e um aluno menos utilidade têm um professor e um aluno. Tudo quanto sirva para estorvar essa reciprocidade serve apenas o desleixo improdutivo de aturdir e de confundir. “O Rei vai nu” sentiu-se sempre que o escutámos, no que à escola dizia respeito. E não o fazia por capricho ou por ufania literata. Era mais demolidor do que isso. Conseguia-o por verosimilhança de argumentos, sempre assentes numa eloquência imaculada e num vigilante sentido de realidade.

Como se vive um programa

Laborinho Lúcio investiu sempre na ideia de que a escola deve construir-se “a partir dos alunos e não o contrário”.

O lugar do professor é o de criador. Tem a obrigação de cumprir o programa, mas tudo depende da “forma como vive o programa, como o amplia, como o rodeia, como o individualiza à imagem do aluno e de como é capaz de o conduzir ao encontro do máximo das suas capacidades pessoais.”

Os conteúdos escolares deverão, assim, converter-se num “pretexto”, num “ponto de partida” e nunca num “inevitável e desesperante ponto de chegada”. Nunca acompanhou aquela perspectiva complacente, de louvor silenciador dos professores. Reclamou a dissensão e a autonomia intelectual dos professores como agentes culturais de primeira necessidade. Exigia que os ministérios aprendessem a desafiar intelectualmente os seus professores e que os instigassem nesse combate ao conformismo. Quem aprende o inconformismo perpetua a liberdade. A expressão madura de quem sabe que tudo pode e deve ser melhorado por cada um de nós. Nunca idealizou a figura do professor.

Laborinho Lúcio era professor. Conhecia bem os meandros das manhas profissionais. É preciso um professor para reconhecer um professor. Confessava que “Os bons professores são os que mandam, na percepção antecipada de que estão a mandar de acordo com a vontade dos alunos”.

O aluno Laborinho

Laborinho Lúcio não tinha um professor preferido. Tinha vários. Recordava-se amiúde dos seus professores e mencionava-os nas suas comunicações públicas. O Professor Moura, professor de História “com estilo”, que nunca falava alto e que lhe ensinou que rir com gosto e ter seriedade são compatíveis tanto numa personalidade como numa sala de aula. Maria Xavier, de Português e Francês, alérgica, fanhosa e fundamente afectiva que o tratava por “filho”. Irene de Albuquerque, de Inglês e Alemão que carregava nos érres por profissão, mesmo quando falava Porrrtuguês.

Também teve maus professores. Considerava-os tão importantes como os melhores que teve. Um deles, professor de Português, chegou a sugerir à família que estudasse a possibilidade de o retirar dos estudos porque o jovem não manifestava qualquer apetência “para as coisas do intelecto”.

A família ouviu e calou. Mas fez mais do que isso: ignorou o professor. Décadas depois, Laborinho Lúcio encontrava nesse episódio a importância que a família pode ter na vida e na construção do futuro de cada um de nós.

No Liceu, confessava nunca ter sido muito aplicado a não ser como guarda-redes de futebol, ator amador e adepto “da brincadeira em geral”. Só na Universidade se revelou um aluno “bastante bem classificado”, como dizia.

A mestria de Laborinho

A visionária honestidade de Laborinho Lúcio representa mais do que uma matriz de prestígio, cultura e dignidade que todos procurámos emular enquanto tivemos o privilégio de o ter só para nós. Como ministro procurou sempre uma oportunidade para recordar o que foi bem feito pelos seus antecessores, nomeadamente em matéria de combate à corrupção, designando certas medidas anteriores como “bem intencionadas” ou “respostas necessárias” em contextos políticos que nem o recomendavam.

Como cidadão e como professor lega a toda a comunidade educativa nacional a sua vigorosa sinceridade e um profundo conhecimento da realidade educativa das escolas portuguesas. Laborinho Lúcio foi uma autoridade respeitada e consagrada por todos. Fica-nos a sua recusa crónica pela reverência postiça, por todo o tipo de solenidade que tente apoucar a reflexão, o confronto e a autenticidade. Fica-nos o seu desdém pelas hierarquias arcaicas que se concentram no acessório e anuviam o essencial.

Laborinho Lúcio desmontou verdades inclinadas, abriu armários, despiu farpelas, togas e roupagens e pôs tudo a arejar. Com a sua morte a Pátria perdeu uma sumidade; com a sua vida Portugal ganhou serventia.