No coração da cidade do Porto, o Mercado do Bolhão é a prova viva de que a renovação de um espaço pode ir muito além da mera preservação do património. Com a reabertura em 2022, o vencedor do Prémio Nacional de Turismo 2025, na categoria Turismo Autêntico, foi devolvido à cidade, como edifício reabilitado que voltou a cumprir a função original de mercado de frescos, de espaço de encontros e de comércio, e que hoje atrai visitantes de todo o mundo sem, porém, perder a ligação à cidade.
Mais de 60% dos comerciantes históricos que integravam o antigo Bolhão regressaram ao novo espaço que hoje apresenta uma taxa de ocupação de 95%, com 121 espaços atribuídos, revela a Go Porto, empresa municipal responsável pela gestão do mercado. Das 76 bancas do piso térreo, 53 pertencem a estes comerciantes que se mantêm desde antes da reabilitação. Cerca de 80% das bancas são dedicadas a produtos alimentares; mas há ainda 13 bancas históricas, que incluem floristas, artesanato e um amolador, preservando a diversidade tradicional do mercado.
Conciliar visões sem perder a essência
“É preciso equilibrar o património arquitetónico com o património imaterial que são as pessoas que aqui vivem todos os dias. Há muitas equipas e comerciantes que passam mais tempo no Bolhão do que em casa. As pessoas tratam-se pelo nome, é uma grande família. Para quem vem fazer compras, é delicioso. Hoje em dia isolamo-nos nas compras online e até parece que estamos sempre conectados, mas estamos cada vez mais isolados. Este contacto pessoal faz-nos falta”, assinala Francisca Carneiro Fernandes, administradora executiva da Go Porto, com o pelouro do mercado.
Apesar da dimensão arquitetónica do projeto, o Mercado do Bolhão continua a ser, acima de tudo, um mercado vivo, feito de pessoas, rotinas e relações que evoluem ao longo do tempo. “Temos comerciantes com visões e necessidades diferentes, em tempos distintos. O nosso posicionamento tem sido o de nos adaptarmos e tentarmos chegar a todos. Há uma natureza competitiva dos negócios e é preciso garantir que se mantém a essência de mercado de frescos, mas sem impedir que os negócios sobrevivam”, acrescenta.
A casa de uma vida
A transformação do espaço foi acompanhada e sentida por quem ali trabalha há uma vida. Ana Rita Pereira Duarte, da banca Flores Ana Rita, vai fazer 74 anos. Está no Bolhão há mais de 50 e fala com gosto da nova casa. “A cara nova antes era cara antiga e agora é moderna, mas bonita”, resume. A florista viu o mercado envelhecer e, por isso, a mudança é clara: “Tudo o que era antigo estava velho. Agora está melhor, há mais pessoas cá dentro, turistas e tudo”, refere.
Para Ana Rita, a memória familiar mistura-se com a história do espaço. “A minha mãe faleceu com 58 anos. Se fosse viva, ficaria abismada com o que o mercado é agora.” Apesar da maior presença turística, a comerciante nota continuidade: “As famílias continuam a vir ao Bolhão. Antes eram as pessoas antigas, agora são as filhas, as noras, as cunhadas.” No entanto, reconhece o papel dos novos visitantes: “Se o turista não entrasse cá, o Bolhão estava vazio. O turista é que faz o mercado.”
Trazer os portuenses ao mercado é uma prioridade assumida pela gestão. Iniciativas como os jantares “À Bolhão Pato”, que cruzam gastronomia, identidade e produto local, procuram reforçar essa ligação. “Convidamos os portuenses a sentarem-se a uma mesa comum no mercado, com um chef profissional residente no Porto”, explica Francisca Carneiro Fernandes. Os menus são construídos a partir dos produtos das bancas e os comerciantes participam ativamente, apresentando vinhos, entradas ou sobremesas e partilhando as suas histórias. A segunda edição destes jantares é uma das grandes novidades previstas para breve, agora com periodicidade mensal e datas fixas, "para criar o hábito".
Agarrar o presente com memórias do passado
André Fernandes, de 37 anos, o único amolador do mercado e representante da terceira geração da família no Bolhão, viveu a renovação como um regresso a casa. “A experiência tem sido fantástica, nada a dizer.” André Amolador, como é hoje conhecido, aprendeu o ofício ainda pequeno, a ver o pai a “fazer faíscas”. Foi aí que começou a sentir a arte, embora o gosto tivesse nascido mais tarde. Depois de anos a conciliar outros trabalhos, assumiu definitivamente a atividade em 2013. Durante a transição para o mercado temporário, em 2018, aproveitou a oportunidade para se profissionalizar: frequentou ações de formação em vitrinismo, gestão, redes sociais e línguas, apoiadas pela autarquia. Hoje, além de afiar facas e tesouras, produz peças de cutelaria da sua autoria e tem uma marca própria. “Não estou no mesmo local em que estava antes, à porta, mas agora tenho banca própria, onde sou amolador e faço facas e navalhas”, conta.
Do ponto de vista arquitetónico, André reconhece o valor da intervenção. “Restauraram a estrutura original e fizeram o miolo todo novo. O cais de cargas e descargas está fantástico.” Nota, porém, que o público mudou: “O mercado está mais virado para o turista com os comes e bebes. Também há mais supermercados e o mercado esteve fechado quatro anos. Quem vinha aqui acabou por criar outras rotinas”. André é entusiasta desta nova era, mas carrega a memória do Bolhão antigo e dos comerciantes mais velhos que o afastaram de “maus caminhos”. “Marcaram a minha vida. Havia pessoas que eram como avós para mim. Isso não se esquece.”
De cinco mil para mais de 20 mil visitantes
Para voltar a trazer os residentes ao mercado, além dos jantares, estão em estudo outras iniciativas como serviços de entregas regulares, com especial acompanhamento a idosos, e novas ações de proximidade à comunidade, desenvolvidas em articulação com a Câmara Municipal. “Apelamos a que as pessoas usem o mercado e percebam que ele é bom, mas precisa de ser alimentado. Se os locais não vêm, vêm os turistas. Queremos manter a essência tradicional e autêntica, sem fechar a porta a quem nos visita”, sublinha Francisca Carneiro Fernandes.
Dados da Go Porto revelam que, antes do encerramento para obras, o Bolhão recebia cerca de cinco mil pessoas ao sábado, o dia de maior movimento, num horário limitado. Atualmente, a média diária ultrapassa as 21 mil entradas, chegando aos 23 mil visitantes aos sábados, com crescimento sustentado desde a reabertura.
A reabilitação do mercado representou um investimento global de 50 milhões de euros e contou com financiamento comunitário através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, no âmbito do programa NORTE 2020. Durante a fase de obra estiveram envolvidos cerca de 400 trabalhadores. Quando encerrou, existiam no Mercado Temporário do Bolhão 58 comerciantes, três restaurantes e 282 auxiliares inscritos (funcionários ou pessoas que apoiam os comerciantes). Atualmente, o mercado conta com 76 comerciantes, sete restaurantes e 719 auxiliares registados.
Iniciativa do Expresso e do BPI, o Prémio Nacional de Turismo (PNT) – que conta com o alto patrocínio do Ministério da Economia e da Transição Digital, o apoio institucional do Turismo de Portugal, e o apoio técnico da Deloitte enquanto knowledge partner – tem como objetivo promover, incentivar e distinguir entidades, práticas e projetos que se destacam no sector do turismo.
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