Futuro Hoje

"Uma abelha na Lua"

"Uma abelha na Lua"
Ilustração do telescópio James Webb no espaço / ESA

Um artigo de opinião de Lourenço Medeiros.

A ideia não é tão absurda quanto parece, uma vez que já houve abelhas no espaço, bem fora da Terra, em várias experiências. Mas aqui trata-se de facto de uma metáfora, muito usada pelos comunicadores da Nasa, para descrever a capacidade do telescópio James Webb. Se o mais recente e potente telescópio estivesse na Terra, seria capaz de ver uma abelha na Lua.

O telescópio tem sensores especiais, muitos e muito pequenos, que detetam os infravermelhos captados pelo espelho composto, com 6 metros de diametro. Não contentes com isso, os cientistas estão também a usar o que poderíamos chamar a maior lente que alguma vez veremos. Uma lente que nunca poderemos construir. Os cientistas estão a usar a forma com a luz atravessa um gigantesco conjunto de galáxias, o SMACS 0723, como se fosse uma lente para mostrar, em vez de ocultar, outra galáxias que, em relação a nós, estarão por detrás desta “lente”.

NASA - 12/07/2022: A primeira fotografia captada pelo telescópio James Webb.

Vemos esta imagem, mas será que temos capacidade para a entender ? NASA, ESA, CSA, STScI

O SMACS 0723 aparece-nos como foi há 4,6 mil milhões de anos. O seu efeito de “lente gravitacional”, como os cientistas lhe chamam, traz-nos imagens de galáxias muito mais distantes e antigas. Algumas muito nítidas, outras claramente distorcidas, como acontece em certos vidros, são os pequenos arcos bem visíveis na imagem. Um deles, um dos pontos mais pequenos e vermelhos, está a 13,1 mil milhões de anos. É uma das milhares de galáxias que compõem esta imagem. Mais perto do início do universo, do início do próprio tempo, do que alguma vez pudemos observar.

Cada uma destas galáxias que vemos na primeira imagem completa e a cores, que foi criada com 12,5 horas de dados do James Webb, cada um daqueles pontos é uma galáxia como a nossa Via Láctea. Uma galáxia capaz de conter centenas de milhares de sistemas como este onde o nosso pequeno planeta, com as suas abelhas, gira em torno do Sol.

O Homem, enquanto Homo Sapiens, esta espécie que criou um olho capaz de viajar no tempo milhares de milhões de anos, terá, quando muito, uns 200 a 300 mil anos. Os próprios antropólogos ainda não têm certezas absolutas. Levámos quase esse tempo todo até criar os primeiros exemplos de escrita que conhecemos, na Suméria há pouco mais de 5 mil anos. Foi a partir desses riscos no barro que começámos uma vertiginosa viagem de conhecimento que só nos pode levar a mais e mais humildade.

Agora, ao ver a escala do que fazemos, podemos ter a certeza de que o nosso pequeno cérebro, enquanto Homo Sapiens, nunca poderá entender, nunca poderá ter sequer uma vaga ideia do que é isso a que chamamos Universo. Temos que procurar mais conhecimento, é o que nos faz Sapiens, é o que nos diferencia o suficiente. O suficiente para sabermos que não vamos entender, realmente entender, o que é isso do início do tempo, da formação do Universo e para onde vamos.

Não mais do que a abelha seria capaz de entender a Terra ou o Sol se estivesse na superfície da Lua, a abelha vê, mas não entende, tal como nós. E isso é maravilhoso.

Já agora, vale a pena ver esta e as outras imagens que o James Webb nos trouxe, nesta notícia com apenas dois minutos - Reveladas as cinco primeiras imagens completas do telescópio espacial James Webb -, ou saber um pouco mais sobre o James Webb - Telescópio James Webb: a máquina do tempo que quer contar a história do universo.

Se quiser mesmo explorar mais sugiro os sites da grandes agências envolvidas e dedicados ao James Webb: Nasa (Estados Unidos), ESA (Europa), CSA (Canadá) e o instituto que gere a missão do James Webb, o Space Telescope Science Institute (Baltimore, Maryland)

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