Grande Reportagem SIC

Há gente a quem o azar transforma a vida numa autêntica via sacra

Pedro Coelho

Pedro Coelho

Jornalista Grande Reportagem SIC

Foad, Najib, Madi, Jan e Ran. Quatro deles já chegaram à idade adulta; apenas um é menor. A Grande Reportagem decidiu cruzar-se com cada um deles. A sua história tem de ser contada.

Há gente a quem o azar transforma a vida numa autêntica via sacra. Catorze estações de sofrimento constante na busca da quase inalcançável redenção. A ironia deste trajeto é que, sendo a imagem importada da religião católica, ela retrata os primeiros anos de vida de cinco jovens muçulmanos.

Foad, Najib, Madi, Jan e Ran. Quatro deles já chegaram à idade adulta; apenas um é menor. Grande Reportagem decidiu cruzar-se com cada um deles. A sua história tem de ser contada.

Chegaram a Portugal em março de 2017.

Fugiram do país onde nasceram

Fugiram, em alturas diferentes, do Afeganistão, país onde nasceram. A guerra eterna, num dos países mais afastados do centro da terra, impôs-lhes a fuga.

Um é órfão de pai e mãe, outro perdeu o pai, militar, durante o longo conflito e sentiu que seria a próxima vítima, outro fugiu do trabalho infantil a que os pais o forçavam e os outros dois, irmãos, vieram abrir caminho para um dia poderem trazer a mãe e os restantes irmãos, que deixaram no Paquistão.

O trajeto da fuga foi longo e penoso: passaram pelo Irão, onde trabalharam, fugiram para a Turquia, de onde escaparam, fixaram-se na Grécia onde, se tivessem ficado, teriam continuado reféns de novos enquadramentos de miséria. Nenhuma Europa aceita receber afegãos; menos ainda se forem menores não acompanhados. Tristes rótulos os destes cinco rapazes: afegãos; menores; não acompanhados!

A lista de planos para os cinco jovens era imensa

Em 2017, a Secretaria de Estado para a Cidadania e a Igualdade e a Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, uniram esforços e, em conjunto com uma Organização Não Governamental grega, a METAdrasi, trouxeram estes jovens para Portugal. Chegaram em março de 2017.

A lista de planos para os cinco jovens era imensa: um deles iria praticar kickboxing, outros haveriam de conseguir vaga para treinar num clube de futebol, todos aprenderiam português, iriam à escola e, numa segunda fase, devidamente integrados, poderiam começar a trabalhar. Em nenhum momento as entidades públicas que os receberam haveriam de os abandonar. A via sacra estaria completa: aguardava-os um futuro sem mácula. Em março de 2017, no dia da chegada, esse era o pensamento comum a todas as entidades que assumiram a responsabilidade de acolher e integrar estes jovens.

Tudo o que poderia ter corrido mal, correu mal

Num trabalho de investigação demorado e pleno de labirintos, a SIC percorreu os primeiros dois anos destes cinco jovens em Portugal. Tudo o que poderia ter corrido mal, correu mal. O Estado português, através das entidades que o representam, falhou.

Em dois episódios, Via Sacra apresenta-lhe a dimensão dessa falha e expõe-lhe a forma como, depois da descoberta desse fracasso, uma a uma, as entidades públicas nos fecharam a porta, tentando silenciar o nosso trabalho.

Via Sacra é uma Grande Reportagem de Pedro Coelho e José Silva (imagem), edição de imagem de Rui Berton, grafismo de Luís Bispo, produção de Diana Matias e Mariana Teófilo Cruz, coordenação de Amélia Moura Ramos, direção de Ricardo Costa.

Para ver, esta quarta e quinta-feira, na SIC

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