Grande Reportagem SIC

Volta para a tua terra: quando o outro somos nós

O medo tomou conta da comunidade portuguesa indocumentada nos Estados Unidos da América. Medo de sair à rua. Medo de ir trabalhar. Medo de ir buscar os filhos às escolas. Medo da denúncia anónima. Medo da deportação para o país de origem. A Grande Reportagem entrevistou quatro famílias de Fall River, em Massachusetts, que regressaram aos Açores antes de serem apanhadas pelo ICE, o serviço norte-americano de imigração e alfândegas.

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Em janeiro de 2025, quando a administração Trump tomou posse, eram claros os objetivos da ordem executiva assinada pelo recém-empossado Presidente: deportar os imigrantes que "ameaçam a segurança do povo americano", deter aqueles cuja entrada não foi autorizada, aqueles que tendo entrado sem documentação, tenham permanecido continuamente no país e promover a "remoção eficiente e rápida de estrangeiros".

A comunidade portuguesa nunca se sentiu indesejada até então. Nunca se autorretratou como "o outro". Calculou que a caça ao imigrante seria dirigida apenas aos que tinham registo criminal e aos imigrantes hispânicos, dado que eram esses que estavam a cruzar a fronteira dos EUA.

Presença musculada do serviço de imigração

Aos milhares por ano. Em poucas semanas ficou evidente, através da presença musculada do serviço de imigração e alfândegas (ICE) nas ruas, que o alvo não eram apenas os imigrantes com cadastro.

As notícias de detenções, as partilhas de vídeos particulares e os alertas institucionais, narrados pela Secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, a prometer a deportação dos imigrantes indocumentados começaram a erodir a confiança dos imigrantes portugueses.

Mesmo a confiança daqueles que vivem nos chamados estados ou cidades santuário como Nova Iorque, Los Angeles ou Boston.

As jurisdições restringem a colaboração entre as autoridades locais e federais, limitando a eficiência do ICE e acabando por ser um escudo mais protetor aos imigrantes ilegais.

O medo levou ao regresso a Portugal

Fall River, em Massachusetts, é uma dessas cidades. Local de emigração portuguesa desde princípios do século XIX, mantém, no presente, uma das maiores comunidades portuguesas e luso-descendentes nos EUA.

Desde janeiro que o medo tomou conta do quotidiano dos portugueses indocumentados, obrigando ao regresso aos Açores, de onde saíram há anos, há décadas mesmo.

“Paula” (nome fictício), o marido e os dois filhos deixaram Fall River em março deste ano.

O que é difícil é saber que o teu país não te pode dar o que os outros podem. Mais difícil ainda é teres que deixar a tua família, as tuas coisas, migrar para um país que nem sabes a língua, mas procurar o melhor para ti. Nos primeiros anos chorava todos os dias. Mas pensar que podíamos ter um futuro melhor foi o que me aguentou lá”.

Nascida em São Miguel há 41 anos, “Paula” emigrou aos 20 para Fall River, onde já tinha familiares. Entrou, como tantos outros, com o visto de turista, que acabou por deixar caducar, sem nunca conseguir a tão desejada legalização, apesar de garantir ter recorrido a vários advogados para iniciar o processo de cidadania.

Os filhos, nascidos cidadãos norte-americanos, ainda não atingiram os 21 anos para fazerem a carta de chamada para os pais. A partir de janeiro, pela primeira vez em duas décadas, sentiu a ponta da espada e o frio da parede.

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A micaelense chegou aos EUA no final do mandato de George W. Bush. Entrou no mercado de trabalho pela porta da cozinha de um restaurante. Foi empregada de limpeza e, por fim, cuidadora de crianças, filhos de casais norte-americanos.

Comprou um carro com a carta de condução portuguesa. Alugou casa e fez os contratos da água e da luz com o passaporte português. Tinha conta bancária e cartão de crédito. Recebia o pagamento do trabalho em cheque e pagava impostos, no final do ano, porque tinha o Tax ID number, o número fiscal idêntico ao NIF português.

Os filhos frequentaram a escola pública em Fall River. Sem a cidadania, considerava-se uma cidadã exemplar. Útil, na medida em que a família não dependia de subsídios estaduais, e grata por conseguir na América o que nunca poderia alcançar em São Miguel, com o ensino secundário por acabar.

A vida empacotada em barris

O regresso à ilha, onde não vinha há 20 anos - podia sair dos EUA, mas a entrada não era certa por estar ilegal - está a ser uma provação para toda a família. Retornou à casa dos pais, com o marido, mecânico já com trabalho em Ponta Delgada, e com os dois filhos adolescentes.

Venderam os dois carros e os móveis da casa alugada. Empacotaram a vida toda em barris de 30 e 55 galões. Barris de mais de 200 litros onde colocaram as roupas e os sapatos; os diplomas escolares dos filhos. Na bagagem de mão traziam a procuração que fizeram em nome do tio, também emigrante, nomeando-o tutor legal dos filhos, se por azar, fossem detidos pelo ICE.

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Fizemos para as crianças, se acontecesse alguma coisa, que o meu tio podia ter a guarda deles, fizemos para os carros, para as contas do banco, que ele tinha autorização de tirar o dinheiro, tinha autorização de vender o carro.

Os pais dão autorização em caso que a imigração pegue neles essa pessoa tem a responsabilidade de tomar conta das crianças temporariamente até os pais serem deportados. Depois essa pessoa tem a responsabilidade de unir as famílias, mandar essas crianças para Portugal.

A Grande Reportagem Vai para a tua terra entrevistou “Paula” e outras três famílias que regressaram a São Miguel e à Terceira, com medo de serem detidas, encaminhadas para os centros de detenção de imigrantes e deportados à força.

Ficha Técnica

  • Jornalista: Amélia Moura Ramos
  • Imagem: Manuel Ferreira, Filipe Melo e Hugo Dinis Neves
  • Edição: Ricardo Tenreiro
  • Grafismo: Patrícia Reis
  • Colorista: Rui Branquinho
  • Pós-produção Áudio: Octaviano Rodrigues
  • Iluminação: André Gaspar
  • Legendagem: Spell
  • Produção Editorial: Diana Matias
  • Coordenação: Miriam Alves
  • direção: Marta Brito dos Reis e Bernardo Ferrão