Repórteres do Mundo

O desinteresse na Antártida, o pesadelo das toalhitas e uma adoção especial

Ao contrário da Gronelândia, que é um objetivo de Donald Trump, a Antártida está cada vez menos na mira dos Estados Unidos. No Reino Unido, as toalhitas húmidas estão a tornar-se num pesadelo e a alternativa "mais ecológica" pode não ser uma solução. E uma adoção que está a comover a Alemanha. Estes são alguns dos destaques do Repórteres do Mundo.

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EUA reduzem presença na Antártida enquanto China e Rússia reforçam influência

Enquanto cresce o interesse do Presidente Donald Trump na Gronelândia, os Estados Unidos reduzem a presença na Antártida, uma região onde as atividades militares e a exploração comercial estão proibidas. A mudança levanta questões sobre o equilíbrio de poder num dos territórios mais isolados e mais cruciais para o clima global.

1.600 quilómetros separam a última zona habitada no Chile da Antártida. A viagem de avião dura mais de 5 horas e revela um continente que se mantém hostil e inóspito. No meio da paisagem de gelo, a estação científica britânica destaca-se pela cor. Rothera fica no oeste da Antártida e desempenha um papel adicional: manter a presença territorial britânica. Com vários países a reclamarem partes do continente, a ciência tornou‑se a principal forma de afirmação geopolítica.

Enquanto a presença norte‑americana perde força, outros Estados reforçam posições. A Rússia mantém o maior número de bases científicas no continente, mas é a China que tem avançado de forma mais acelerada. O país inaugurou uma nova estação em 2024 e já prepara outra, numa expansão que tem sido alvo de atenção crescente entre parceiros ocidentais.

A mudança coincide com cortes nos financiamentos norte‑americanos. A administração Trump reduziu verbas destinadas à investigação climática, num sinal que alguns analistas interpretam como desinteresse estratégico no degelo que fragiliza as convenções territoriais. Os investigadores britânicos estão preocupados.

"À medida que a Antártida aquece e o gelo derrete, torna‑se menos claro durante quanto tempo este continente continuará a ser um deserto protegido."

O que está em causa para o futuro?

Com o degelo acelerado, novas rotas áreas, antes inacessíveis, começam a surgir. Os especialistas temem que, se os tratados atuais forem postos em causa, países com maior presença científica e logística possam tentar reivindicar novos direitos ou expandir interesses. Entretanto, países como o Reino Unido reforçam meios no terreno. O navio quebra‑gelo Sir David Attenborough, um dos mais modernos do mundo, voltou ao continente, uma viagem que simboliza a renovada aposta britânica na região, num momento em que o equilíbrio geopolítico começa a deslocar‑se.

Como está a correr o combate à imigração ilegal no Reino Unido? É um sucesso ou um falhanço?

O número de detenções de imigrantes ilegais aumentou 83% desde a chegada dos Trabalhistas ao poder, mas uma detenção nem sempre resulta numa expulsão. No terreno, as operações de fiscalização repetem-se, mas a realidade do combate à imigração ilegal é bem mais complexa do que os números sugerem.

As suspeitas e repetidas infrações levam as autoridades britânicas a um posto de lavagem de automóveis, nos arredores de Londres. À chegada da polícia foram encontrados apenas dois trabalhadores. Desta vez, está tudo de acordo com a lei, os dois têm vistos de trabalho. Mas nem sempre foi assim neste local. O responsável garantiu que o negócio tinha mudado após uma multa aplicada há alguns anos.

"Aprendemos a lição e agora temos toda a documentação em ordem."

O segundo alvo da operação é um salão de manicure. Aqui as suspeitas indicavam que mulheres de origem chinesa trabalhariam ilegalmente. As abordagens foram realizadas com apoio de intérpretes via telefone. Depois de verificar os registos do Ministério do Interior, os agentes concluíram que ambas estavam em situação irregular. As mulheres foram detidas, mas acabaram por ser libertadas sob fiança, um procedimento frequente quando não há condições imediatas para garantir a deportação.

Segundo dados oficiais, o número de detenções aumentou 83% nos 18 meses de governação trabalhista. O Ministério do Interior tem divulgado vídeos de detenções em várias regiões do Reino Unido, reforçando uma narrativa de maior controlo e resultados visíveis. Mas a perceção dos britânicos é bem diferente.

As organizações que apoiam imigrantes dizem que muitos dos detidos são libertados sem qualquer controlo e acabam por escapar às autoridades. Por isso, o número de deportações não corresponde aos resultados anunciados.

A discrepância entre a perceção pública e a realidade operacional levanta questões sobre os métodos de recolha de informação, a fiabilidade das denúncias e a capacidade de executar expulsões após a detenção, um processo frequentemente demorado e burocrático.

"15 contentores de lixo por dia, o cheiro é insuportável", o pesadelo das toalhitas no Reino Unido

A partir de 2027, as toalhitas húmidas com plástico deixarão de poder ser vendidas no Reino Unido. A decisão do Governo britânico surge após anos de alertas sobre o impacto destes produtos nos sistemas de esgoto e na poluição dos cursos de água. Só em 2023, foram vendidas 32 mil milhões de toalhitas, das quais 12 mil milhões continham plástico, muitas continuam a ser descartadas pela sanita, apesar das recomendações oficiais.

Em Minworth, perto de Birmingham, onde se localiza uma das maiores estações de tratamento do país, a escala do problema é evidente. Todos os dias são retirados 15 contentores de resíduos das redes de esgoto.

"Temos os itens comuns que chegam às estações de tratamento: produtos sanitários, preservativos… e depois montes de toalhitas húmidas. O cheiro não é bom, não."

Grant Mitchell é o responsável pela empresa que faz o tratamento de resíduos na região de Birmingham. As toalhitas húmidas descartadas de forma incorreta são a causa dos quase 30 mil bloqueios da rede de saneamento, só no último ano. Além dos bloqueios, as autoridades estão preocupadas com a quantidade de plástico que existe nas toalhitas. Por isso, a partir de 2027 a venda deste produto estará proibida. Para quem quiser continuar a usar toalhitas húmidas, a solução será a versão biodegradável.

Toalhitas "biodegradáveis": solução ou falso alívio?

Com a proibição, apenas toalhitas sem plástico, feitas de materiais naturais e rotuladas como "descarregáveis", poderão continuar à venda. Mas esta alternativa está longe de ser consensual entre investigadores. Dan Jolly, da Universidade de East Anglia, testou o comportamento destas toalhitas biodegradáveis em ambiente natural. Deixou-as durante uma semana num rio e o resultado levanta dúvidas sobre a eficácia das novas regras.

"Mesmo após uma semana na água, continuam muito resistentes. É preciso muita força para as rasgar. Embora estes materiais se decomponham, demoram bastante tempo. E continuam a causar bloqueios."

Além disso, as toalhitas sem plástico podem libertar microfibras quando chegam aos rios ou ao mar.

"Ainda não compreendemos o impacto destas fibras no ambiente, se é sustentável ou prejudicial."

A recomendação continua a mesma: só os 3 Ps. Para quem lida diariamente com o problema, a mensagem essencial mantém-se inalterada. Mitchell deixa um conselho simples, que resume anos de campanhas públicas.

"Apenas os três Ps devem ir pela sanita: poo, pee and paper - cocó, xixi e papel."

As autoridades esperam que a proibição das toalhitas com plástico, aliada a uma maior sensibilização pública, permita reduzir significativamente o número de bloqueios na rede de saneamento e a libertação de microplásticos no ambiente, mas os especialistas lembram que o comportamento dos consumidores será determinante.

Adoção comovente na Alemanha junta uma cadela e cinco javalis

Cinco pequenos javalis órfãos estão a emocionar a Alemanha e milhões de utilizadores nas redes sociais. Encontrados no início por um caçador, sozinhos no meio da floresta, os animais foram entregues a uma família de veterinários. Desde então, ganharam um novo lar, novos cuidados e até uma nova mãe.

Quando chegaram à casa dos Kalden, em Wanfried, os cinco pequenos javalis estavam em estado crítico. Ainda tinham o cordão umbilical e terão passado três dias sem leite.

"Estavam muito debilitados. Mas hoje são fortes, saudáveis e bastante atrevidos."

A cadela Nala, uma dachshund de pequeno porte e enorme instinto maternal, assumiu naturalmente o papel de mãe. Desde os primeiros dias, acompanha os cinco por todo o lado, limpa‑os, protege‑os e tenta, nem sempre com sucesso, pôr ordem no grupo.

"A Nala tenta educá‑los para que a sigam, mas cinco javalis normalmente correm em cinco direções diferentes… e aí ela fica um pouco stressada."

A rotina exigia, no início, vigilância constante. E a família de veterinários não descansou até estar garantida a sobrevivência dos cinco javalis.

"Tínhamos de nos levantar de três em três horas durante a noite para lhes dar leite. Agora já não é preciso, porque estão maiores e mais fortes. Mas continuam a fazer‑se ouvir, têm uma fome enorme e o barulho que fazem ouve-se pela casa inteira."

Friederike Kalden gere uma conta no Instagram dedicada aos resgates da família. A cada nova publicação, os cinco javalis conquistam mais fãs e os pedidos de atualização são constantes.

"Houve claramente um efeito 'uau'. Muitas pessoas perguntam quando sai o próximo vídeo, querem saber se cresceram, o que andam a fazer. Há muita, muita curiosidade."

A casa dos Kalden está habituada a acolher animais selvagens: corços, cervos, cegonhas, cisnes e até gansos‑do‑Nilo. A regra é simples: cuidar, recuperar e, quando possível, devolver à natureza.

Apesar de estarem saudáveis, os cinco javalis já não podem ser devolvidos ao habitat natural. Por terem sido criados desde o nascimento em contacto próximo com humanos, a lei impede a sua reintrodução. A solução será encaminhá‑los para novas famílias nas próximas semanas e interessados não faltam.

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