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Relato de uma noite na Cova da Moura. Diário de bordo sobre o racismo

Otávio Raposo

Otávio Raposo

Doutorado em Antropologia e Investigador

Pedro Varela

Pedro Varela

Doutorando em Sociologia e Investigador

Dois antropólogos que em 2015 realizaram um trabalho académico no Bairro da Cova da Moura, Amadora, partilham aqui o seu «diário de bordo» onde registaram alguns episódios de preconceito étnico.

Há vários anos que realizamos pesquisas académicas em bairros da periferia de Lisboa, alguns deles habitados maioritariamente por populações afrodescendentes. Infelizmente, não foram raros os casos de abuso policial com que nos deparamos, um indicador de que o racismo institucional é algo presente na sociedade portuguesa.

A “Cova da Música”

No ano de 2015, fazíamos uma pesquisa etnográfica sobre artistas de origem imigrante em bairros do concelho da Amadora, entre os quais destacava-se a Cova da Moura devido à riqueza das suas praticas artístico-culturais. Esse trabalho consistia em acompanhar o quotidiano de artistas e assistir aos seus espetáculos, principalmente musicais.

Nos finais de semana à noite, pessoas vindas de várias partes do concelho de Lisboa enchem os bares e restaurantes do bairro para saborear as iguarias de Cabo Verde e dançar os ritmos desse arquipélago. Não por acaso a Cova da Moura é, como nos disse um rapper do bairro, a “Cova da Música”.

A 10 de Janeiro de 2015, circulávamos entre dois bares onde atuavam uma banda são-tomense e outra cabo-verdiana. Era perto da uma manhã quando uma carrinha da polícia aproximou-se com faróis desligados.

Depois de parar ao nosso lado, um dos polícias abriu a janela para perguntar o que fazíamos ali. Respondemos que éramos investigadores da universidade e que realizávamos um estudo no bairro.

A resposta pareceu não ter agradado, pois oito polícias saíram da carrinha, um deles com uma espingarda na mão, e, num tom agressivo, separaram-nos, obrigaram-nos a colocar as mãos na nuca ou na parede, afastar as pernas e revistaram-nos. Por vezes gritaram connosco, ameaçaram-nos e perguntaram se tínhamos droga.

Aqui só há pretos e criminosos. É só escumalha”; “Isto aqui é a Selva”

Identificaram-nos através dos nossos cartões de cidadão para saber se tínhamos antecedentes criminais. Após terem a certeza de que éramos pesquisadores da universidade, iniciaram uma campanha de teor racista contra o bairro e seus habitantes. E disseram-nos frases como: “Não sabem que isto é o cancro do país?! Aqui só há pretos e criminosos. É só escumalha”; “Isto aqui é a Selva”; “Achas que isto é um bairro de trabalhadores? A maior parte acorda de manhã para planear roubos”.

Depois de quase trinta minutos de perguntas e intimidações concluíram: “Não queremos vir cá um dia buscar-vos mortos. Eles dizem-se amigos, mas matam-se uns aos outros” e “os pretos que vivem aqui não são iguais a nós. Desta vez a gente trata-vos como iguais, mas para a próxima podem ser tratados como os diferentes”.

Ao tentarem atemorizar-nos de que era errado estarmos na Cova da Moura, manifestavam uma ideologia racista, pois o ódio dominava as palavras daqueles homens.

Nas semanas anteriores já tínhamos observado uma maior presença policial no bairro, com carrinhas e agentes a circular nas ruas de espingarda na mão. Poucos dias após o episódio que relatámos, sucedeu-se o conhecido caso de violência policial da esquadra de Alfragide que levou ao banco dos réus 17 polícias acusados pelo Ministério Público de insultos, ofensa à integridade física, tortura, sequestro, disparos com balas de borracha, falso testemunho e outros crimes agravados por ódio racial contra jovens da Cova da Moura.

Recentemente, oito desses agentes foram condenados, um deles com pena efetiva. No entanto, durante o decorrer do processo, o Procurador retirou as acusações de tortura e racismo, revelando a dificuldade dos nossos tribunais e instituições em aceitar a existência do racismo na nossa sociedade.

Diante desses fatos, vale a pena recordar um episódio que nos marcou profundamente.

O que fazia aquele polícia armado em frente a um infantário?

No ano de 2008, a polícia cercava o bairro da Cova da Moura em plena tarde. Um dos polícias armados colocou-se na entrada do infantário do Moinho da Juventude.

Os miúdos saíram de mãos dadas com as mães, encarando esse polícia ostensivamente armado. Assustadas, choravam. A pergunta sempre nos ficou: o que fazia aquele polícia armado em frente a um infantário? Era uma provocação ou a demonstração de um profundo desprezo por crianças negras, talvez encaradas como criminosos em potencial? Não podemos ignorar o racismo e a truculência policial a que uma parte da população portuguesa está submetida. As marcas dessa violência traumatizam, e fragilizam as bases da nossa democracia.

Leia Aqui o artigo que inspirou este texto

Otávio Raposo é doutorado em antropologia e investigador do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-IUL) do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL).

Pedro Varela é doutorando em sociologia e investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES-UC

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