Um tratamento para a doença de Alzheimer retarda a progressão do declínio cognitivo em 27% durante um ensaio clínico global. A informação está a ser divulgada pelas farmacêuticas Eisai e Biogen, que adiantam que há uma probabilidade do medicamento Lecanemab ser aprovado já no próximo ano.
"Uma desaceleração de 27% na deterioração parece um resultado modesto, mas, para os pacientes com Alzheimer, pode ser muito significativo", disse Gil Rabinovici, neurologista da Universidade da Califórnia, em São Francisco.
O medicamento está na terceira fase de testes e atendeu a todos os objetivos primários e secundários. Os níveis reduzidos de amilóide (proteína característica da doença de Alzheimer) foram positivos, quando comparados com os resultados de um placebo (substância sem qualquer efeito para o organismo).
Para conseguir este resultado, no ensaio clínico participaram 1.795 pacientes em fase inicial de Alzheimer, que receberam aleatoriamente o medicamento, ou placebo, a cada duas semanas, durante 18 meses.
Os participantes foram testados em várias áreas para avaliar o ritmo do declínio, incluindo memória, orientação e resolução de problemas.
As farmacêuticas Eisai e Biogen informam que a partir de seis meses de testes, o grupo de indivíduos que recebeu o tratamento da Lecanemab saiu-se melhor do que o grupo que foi administrado com o placebo.
A empresa japonesa Eisai, que está a liderar o desenvolvimento do medicamento e a trabalhar com as autoridades reguladoras, disse que apresentará os resultados completos do estudo no final de novembro, na Conferência sobre o Alzheimer, e os resultados serão posteriormente publicados numa revista médica.
As duas farmacêuticas já solicitaram a aprovação à FDA do Lecanemab. O prazo final para uma decisão é 6 de janeiro de 2023.
MEDICAMENTO ADUHELM
Antes do Lecanemab, a Biogen desenvolveu o medicamento Aduhelm para os mesmos propósitos: retardar a progressão do declínio cognitivo em pacientes com Alzheimer. Contudo o lançamento falhou porque a seguradora Medicare recusou cobri-lo amplamente, então entrou em colapso no mercado, admite o Washington Post.
Apesar de ter sido aprovado pela FDA, os testes para Aduhelm terminaram antes de estarem concluídos.
A Biogen, agora aliada à Eisai, procura uma aprovação total da agência responsável pela regulação de medicamentos, para terem a oportunidade que o tratamento seja coberto pela Medicare e outras seguradoras.
O medicamento Aduhelm foi o primeiro novo medicamento para Alzheimer aprovado em quase 20 anos, mas existiam dúvidas quanto à sua eficácia e custo.
OS ALERTAS DOS ESPECIALISTAS
Alguns especialistas independentes alertam para a probabilidade destes benefícios serem reduzidos e disseram que queriam analisar os dados completos antes de chegar a alguma conclusão.
Alberto Espay, neurologista da Faculdade de Medicina da Universidade de Cincinnati, disse que a vantagem é "reduzida" e pode não ser significativo para as pessoas com esta doença neurodegenerativa.
Ainda assim, os pacientes podem olhar para estes resultados como um "otimismo cauteloso".
Um investigador Richard Isaacson, diretor da Clínica de Prvenção de Alzheimer no Centro de Saúde do Cérebro da Faculdade de Medicina Schmidt da Florida disse à CNN Brasil que os resultados não provam a "hipótese amiloide".
"Isso prova que, em pessoas com uma certa quantidade de amilóide no cérebro num determinado estágio da doença, esta droga funciona. Em termos de provar um mecanismo pelo uso de uma droga, não. Alzheimer é uma doença muito heterogénea".
Em contrapartida, um neurologista da Clínica Mayo, nos EUA, afirma que esta novidade é "um primeiro passo para causar um impacto significativo na doença".
Alguns elementos do grupo de ensaio Lecanemab teve efeitos colaterais, incluindo inchaço e sangramento no cérebro, complicações das terapias anto-amilóides, mas as taxas estavam dentro das expectativas, afirmam as duas farmacêuticas.

