O número de casos de algumas doenças malignas do sangue, sobretudo linfomas, está a aumentar. Os registos oncológicos da Europa e dos Estados Unidos confirmam essa realidade. Paralelamente, assiste-se também a um avanço extraordinariamente impactante nesta área da Medicina. A pretexto da 6ª edição das Jornadas da Associação Portuguesa Contra a Leucemia (APCL), que se realizam este sábado, 21 de novembro, na Fundação Champalimaud, em Lisboa, Manuel Abecasis destaca os tratamentos pioneiros na área da Hemato-oncologia, os avanços e os entraves com que se deparam especialistas, doentes e familiares.
As disparidades no acesso aos cuidados de saúde em Portugal têm sido tema de debates, nomeadamente após a publicação da obra "Desigualdades em Saúde", de Ricardo de Sousa Antunes, em setembro deste ano. O médico hematologista Manuel Abecasis garante que "em Portugal todos os doentes têm acesso ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) e a tratamentos tão sofisticados como a transplantação de órgãos ou de medula óssea, tratamento com células CAR-T, entre outros".
Transplantação de medula: "Capacidade muito inferior às necessidades"
O também presidente da APCL refere, contudo, que "o SNS está fragilizado no que respeita aos cuidados primários de saúde" e aqui é relevante o código postal, como tanto se tem falado. "Na minha área concretamente a capacidade existente de transplantação de medula óssea é muito inferior às necessidades atuais", lamenta o hematologista.
Na fase de diagnóstico, Manuel Abecasis refere que "em regra, o SNS responde adequadamente e em tempo útil, há situações raras e complexas que podem necessitar da opinião de centros mais diferenciados, como os IPO, a quem os próprios privados recorrem".
CAR-T: "A verdadeira revolução" e o complexo processo de tratamento
Sobre os tratamentos pioneiros, o presidente da APCL sublinha que "os mais inovadores têm surgido na área da imunoterapia, com os anticorpos monoclonais simples, os biospecíficos e ainda os associados a medicamentos ou toxinas.
"A verdadeira revolução deu-se com a introdução das células CAR-T em que os linfócitos do doente são modificados geneticamente no laboratório de modo a atacarem as células tumorais e reintroduzidos no doente. O tratamento com células CAR-T está aprovado em Portugal para o tratamento de alguns tipos de linfoma, leucemia linfoblástica aguda e mieloma múltiplo, as mesmas indicações aprovadas pela Agência Europeia do Medicamento (EMA, na sigla inglesa)".
"O nosso país faz parte da comunidade europeia e como tal acompanha as inovações terapêuticas aprovadas pela agência reguladora europeia EMA e o organismo correspondente em Portugal, o Infarmed. Em 2024, a percentagem de novos medicamentos na área oncológica aprovados pela EMA e potencialmente disponíveis em Portugal era de 73% (acima da média europeia), embora a decisão de reembolso (time to market access of new drugs) fosse de 702 dias (muito mais longo do que a média europeia)", aponta o especialista.
Quanto à capacidade de resposta em Portugal e no Mundo, o hematologista explica que vários estudos internacionais sugerem que "apenas cerca de 33% a 40% dos doentes elegíveis para tratamento com CAR-T chegam a recebê-las. As razões para que tal aconteça são diversas, calculando-se que cerca de 40% não são identificados ou referidos a um centro de tratamento, aproximadamente 5% são considerados não elegíveis, à volta de 20% têm progressão da doença enquanto aguardam o que pode não permitir o tratamento, para citar apenas algumas razões".
O processo de tratamento com células CAR-T é altamente complexo, os obstáculo podem surgir logo no início com a avaliação do doente e da doença, que requerem exames que podem sofrer atrasos, e este é só o início de um longo processo.
"Finalmente, e não menos importante, é indispensável que o doente tenha um cuidador que o possa acompanhar 24/24h nos 30 dias seguintes e que nesse período o doente resida a menos de 2h do hospital onde foi tratado", requisito que em muitos casos pode ser difícil de cumprir.
A motivação pessoal por trás da escolha da Hematologia
Para a escolha desta área de especialidade, Manuel Abecasis conta que terá contribuído uma situação familiar vivida na juventude: "Tinha eu 15-16 anos e um primo meu, da minha idade, morreu com uma leucemia aguda no IPO de Lisboa, onde o fui visitar várias vezes e isso marcou-me muito".
No final do curso de Medicina, a Hematologia tinha sido reconhecida poucos anos antes como especialidade pela Ordem dos Médicos. "As vertentes clínica e laboratorial estão muito presentes, facilitando a investigação, o que é atraente para quem gosta de combinar os dois aspetos. Os mentores que tive na altura tanto em Portugal como no estrangeiro, também influenciaram muito a minha escolha", refere o médico presidente da APCL.
Para a 6ª edição das Jornadas da APCL, Manuel Abecasis alimenta a esperança de que este seja mais um encontro de partilha em prol do conhecimento:
"Estas Jornadas reúnem profissionais de saúde, doentes e familiares num ambiente de partilha de conhecimento e experiências, disponibilizando informação cientificamente válida e fortalecendo as redes de apoio. A consolidação destes resultados é o corolário das ações que temos desenvolvido ao longo do ano e a sua divulgação através desta iniciativa é o objetivo que esperamos alcançar".

