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100 mil diagnósticos de cancro a menos em 2020

Pandemia. Depois de um ano e meio a trabalhar em exclusivo com doentes covid, milhares de doentes estão a chegar aos hospitais com doenças oncológicas em estado avançado. A grande vaga ainda está para chegar

Muitos doentes com cancro em estado avançado preferem morrer em casa, junto da família

Getty Images

André Rito

É apenas uma questão de tempo. A pandemia fechou os hospitais a praticamente todas as patologias, à exceção da covid-19. Com milhares de cirurgias, exames, consultas e rastreios adiados em 2020 — e no início de 2021—, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) prepara-se para enfrentar agora uma vaga de novos doentes, sobretudo oncológicos, em estado avançado. Os números são escassos, mas já é possível ter uma ideia do futuro a médio prazo: de meio milhão de exames preparatórios — colonoscopias, por exemplo — realizados antes da pandemia, registou-se uma quebra a pique de 30% no ano passado.

“Significa que fizemos menos 100 mil exames de diagnóstico, tendo em conta que 50 mil seriam colonoscopias repetidas (de doentes já diagnosticados)”, projeta ao Expresso o diretor do Serviço de Gastrenterologia e Hepatologia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. “Desde o início da pandemia, percebeu-se que uma das consequências seria o atraso nos rastreios e diagnósticos, principalmente do cancro do cólon, um dos que tem maior incidência em Portugal. Fomos obrigados a suspender toda a atividade programada. Já sabíamos que isto iria acontecer. A medicina de catástrofe tem por missão prever as consequências, e estamos agora a tentar recuperar os exames”, afirma Rui Tato Marinho.

“Estamos em perda constante”, diz bastonário da Ordem dos Médicos

Segundo os últimos dados consolidados do Registo Oncológico Nacional, em 2018 houve um aumento de 52 mil novos casos de cancro, a maior parte dos quais (cerca de 7600) do cólon e reto, da mama (7400), da próstata (6100) e do pulmão (4600). Registou-se ainda cerca de 2900 novos casos de cancro do estômago, 2200 da bexiga, além de 3700 casos de cancros do sangue (linfomas, leucemias, mielomas). Com a pandemia instalada durante um ano e meio, uma coisa parece agora certa: estes dados vão sofrer alterações significativas — disso ninguém tem dúvidas —, embora não seja possível prever quando chegará a vaga de novos cancros.

É apenas uma questão de tempo. A pandemia fechou os hospitais a praticamente todas as patologias, à exceção da covid-19. Com milhares de cirurgias, exames, consultas e rastreios adiados em 2020 — e no início de 2021—, o Serviço Nacional de Saúde (SNS) prepara-se para enfrentar agora uma vaga de novos doentes, sobretudo oncológicos, em estado avançado. Os números são escassos, mas já é possível ter uma ideia do futuro a médio prazo: de meio milhão de exames preparatórios — colonoscopias, por exemplo — realizados antes da pandemia, registou-se uma quebra a pique de 30% no ano passado.

“Significa que fizemos menos 100 mil exames de diagnóstico, tendo em conta que 50 mil seriam colonoscopias repetidas (de doentes já diagnosticados)”, projeta ao Expresso o diretor do Serviço de Gastrenterologia e Hepatologia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. “Desde o início da pandemia, percebeu-se que uma das consequências seria o atraso nos rastreios e diagnósticos, principalmente do cancro do cólon, um dos que tem maior incidência em Portugal. Fomos obrigados a suspender toda a atividade programada. Já sabíamos que isto iria acontecer. A medicina de catástrofe tem por missão prever as consequências, e estamos agora a tentar recuperar os exames”, afirma Rui Tato Marinho.

“Estamos em perda constante”, diz bastonário da Ordem dos Médicos

Segundo os últimos dados consolidados do Registo Oncológico Nacional, em 2018 houve um aumento de 52 mil novos casos de cancro, a maior parte dos quais (cerca de 7600) do cólon e reto, da mama (7400), da próstata (6100) e do pulmão (4600). Registou-se ainda cerca de 2900 novos casos de cancro do estômago, 2200 da bexiga, além de 3700 casos de cancros do sangue (linfomas, leucemias, mielomas). Com a pandemia instalada durante um ano e meio, uma coisa parece agora certa: estes dados vão sofrer alterações significativas — disso ninguém tem dúvidas —, embora não seja possível prever quando chegará a vaga de novos cancros.

“Não há um mês em que o número de consultas, cirurgias, rastreios, exames complementares de diagnóstico, entradas no serviço de urgência tenha atingido valores homólogos aos de 2019, antes da pandemia. Estamos em perda constante”, alerta ao Expresso Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos. Lembrando a necessidade emergente de recuperar o tempo perdido, o bastonário diz que é necessário “um plano” para identificar os milhares de doentes que estão em casa, não diagnosticados, com doenças oncológicas e outras patologias que desapareceram da estatística dos hospitais.

Menos 400 mil rastreios durante a pandemia

“Praticamente, todos os doentes oncológicos com diagnóstico feito viram os seus tratamentos adiados, porque não era possível ter acesso à Unidade de Cuidados Intensivos (UCI). E muitos destes doentes precisam destes cuidados depois de serem operados, o que era impossível dado o número de doentes covid que ocupavam estas unidades. São decisões difíceis, com implicações éticas, quase escolher quem vive”, diz Miguel Guimarães, reforçando ter havido uma redução drástica do rastreio a vários tipos de cancro. “Os rastreios existem para detetar precocemente um cancro. Estima-se que tenha havido menos 400 mil rastreios durante a pandemia. Vamos ter cancros diagnosticados mais tarde, numa fase diferente da evolução da doença, que pode ditar a diferença entre um tratamento que pode não ser curativo, mas paliativo.”

Maior impacto vai sentir-se nos próximos anos

Na Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital da Luz, a médica e ex-deputada do CDS-PP Isabel Galriço Neto nota que “vão chegando doentes em fases mais avançadas” da doença. “Para muitos, a pandemia significou passar de curável para incurável, doentes sem reversibilidade nas suas patologias e que têm de ser apoiados em cuidados paliativos. Isto é uma realidade inequívoca”, afirma Isabel Galriço Neto. E considera urgente o reforço de recursos humanos nos serviços de saúde — sobretudo nas unidades que foram “desfalcadas”, como aconteceu com os cuidados paliativos. “Muitos médicos dos cuidados de saúde primários estão a transmitir a sua experiência de receber doentes com diagnóstico atrasado. A insuficiência de médicos explica-se porque muitos estão a ser desviados para a vacinação e outras tarefas”, diz a médica, sublinhando que “o maior impacto vai sentir-se nos próximos anos”.

Maior investimento, um plano de recuperação estruturado, melhor distribuição dos recursos humanos, estes são os vetores que os especialistas dizem ser necessário para fazer frente à onda de cancros que se adivinha a médio prazo. Uma espécie de corrida contra o tempo, que vai ditar o andamento dos serviços de saúde nos próximos anos. “Estamos sempre atrás do prejuízo”, lamenta Isabel Galriço Neto. Para recuperar os doentes “que ficaram para trás”, Miguel Guimarães também apela à criação de uma estratégia nacional. “Temos de fazer muito mais do que era esperado para recuperar quem ficou para trás.”

UMA FAMÍLIA COM CANCRO

Silenciosa e mortal: é como a doença se instala em casa. A “alta” é uma espécie de autorização para viver os últimos tempos em família

A casa cheirava a hospital. Depois de meses com dores abdominais, Jorge Antunes, comercial numa empresa de telemóveis, fez uma bateria de exames: análises, biópsias, ecografias, endoscopias e uma TAC. O diagnóstico chegou em algumas semanas: cancro no pâncreas.

“Comprámos uma cama semelhante à dos hospitais, para que pudesse fazer as refeições e estar confortável em casa”, recorda a mulher, Conceição Antunes, que deixou o emprego para cuidar do marido a tempo inteiro. “Sabíamos que estava a prazo, os médicos nunca esconderam a gravidade da situação.” Durante um breve internamento, os filhos, ambos menores, mudaram-se para casa dos tios e só regressaram quando o pai teve alta. Todos sabiam que a “alta” era uma espécie de autorização para viver os últimos tempos em família. “Os filhos tinham esperança e todos adotámos o regime alimentar que era exigido ao meu marido. O cancro não afeta apenas quem tem a doença, é como se toda a família passasse a sofrer do mesmo mal.”

“O cancro do pâncreas é um dos cancros mais mortais em Portugal. Uma grande parte dos doentes não chega a viver um ano após o diagnóstico. Não são facilmente detetáveis, e quando chegam aos serviços de saúde normalmente estão numa fase já de cuidados paliativos”, explica ao Expresso Rui Tato Marinho, diretor do Serviço de Gastrenterologia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. É preciso estar atento aos sinais. “Cada cancro é um cancro, mas o do pâncreas tem um aspeto particular, porque quando aparece já está medianamente avançado. Não há rastreio possível, não existe colonoscopia, é preciso estar atento a sintomas como icterícia (olhos amarelados), é obrigatório ir ao hospital.” Além destes, há três sinais de alerta: urina escura, fezes de cor clara ou oleosas e comichão na pele.

Jorge Antunes queixava-se apenas de dores abdominais. Perdeu peso e apetite. Nas últimas semanas, praticamente não conseguia falar. Morreu ao fim de nove meses em casa, mas durante esse período teve tempo de se despedir da família, dos amigos, recebeu dezenas de visitas em casa, teve sempre a mulher ao seu lado. “Morreu durante a noite, em paz. É isso que ainda hoje me alivia.”

Textos originalmente publicados no Expresso de 14 de maio de 2021

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