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O sofrimento emocional está presente em todas as fases da doença oncológica e pode prejudicar o prognóstico

Foi através de um estudo realizado pela Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) - apresentado hoje - que se concluiu que o sofrimento emocional é transversal a todas as fases da doença e que este pode afetar o prognóstico do doente. Urge, assim, cuidar da saúde mental dos doentes oncológicos

Após a apresentação do estudo, a jornalista da Sic Notícias, Rita Neves, moderou a discussão que contou com a presença de Cátia Faustino, oncologista no IPO Porto e membro da Direção da SPO, Susana Almeida, psiquiatra no IPO Porto e membro da Direção da APPO, Ricardo Teixeira, psicólogo clínico e investigador; Sónia Silva, psicóloga da LPCC e António Reis Marques, psiquiatra colaborador na LPCC e presidente do Colégio da Ordem dos Médicos

O estudo promovido pela LPCC e apresentado hoje no Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra, - iniciativa à qual o Vamos Falar?, do projeto Tenho Cancro. E depois? se associou - mostrou que 9 em cada 10 utentes das consultas de psico-oncologia realizadas pela LPCC apresenta sofrimento emocional elevado, em qualquer que seja a fase da doença.

Com o objetivo de caracterizar o sofrimento emocional dos utentes que recorrem a consultas de psico-oncologia, aferindo da necessidade de apoio psicológico, a LPCC realizou um estudo com a aplicação do Termómetro do Distress aos utentes na sua primeira consulta.

“Este estudo é uma forma de valorizar todos os pedidos de ajuda que nos chegam e todos os profissionais - sobretudo psicólogos - que constituem estas equipas de psico-oncologia”, sublinha Sónia Silva, psicóloga da LPCC.

Entre fevereiro de 2020 e fevereiro de 2022 ingressaram na consulta, 2853 utentes, tendo sido aplicados 1187 termómetros, ou seja, a 42% dos utentes, sendo que 7 em cada 10 são doentes oncológicos e os restantes são familiares porque, como já se sabe, o cancro afeta não só o indivíduo que o padece, mas também todos aqueles que o rodeiam. 8 em cada 10 que constituem a amostra são mulheres e as idades médias situam-se nos 59 anos, no caso dos doentes e nos 48 anos, no caso dos familiares. Além disso, Porto e Braga foram as cidades que mais participaram no estudo e as patologias mais prevalecentes foram: cancro da mama (40%), cancro colorretal (9%) e cancro do pulmão (8%). Relativamente às fases em que os doentes se encontram, a maior parte dos doentes está em tratamento ou na fase de sobrevivência e os familiares estão na fase de tratamento ou luto.



Diogo Marques, consultor da MOAI Consulting, apresentou o estudo

Diogo Marques, consultor da MOAI Consulting, apresentou o estudo

Alguns dos principais constrangimentos sentidos e reportados - em todas as fases da doença - pelos utentes foram: preocupação (91% nos doentes e familiares), tristeza (83% nos doentes e 87% nos familiares), medo (80% nos doentes), fadiga (78% nos doentes), ou depressão (44% nos doentes e 50% nos familiares). De destacar que, no âmbito dos familiares, foram indicadas preocupações relacionada com a forma de lidar com o parceiro (33%) e articulação dos próprios com o seu trabalho ou escola (26%).

Durante a apresentação do estudo vários termómetros foram citados: o termómetro do sofrimento emocional, da ansiedade, da depressão, da revolta e da necessidade de ajuda.

No que toca ao sofrimento emocional o estudo verificou, por exemplo, que do lado dos doentes, os principais fatores que contribuem para o mesmo são as dificuldades económicas e idade avançada. O termómetro da revolta apurou que esta atinge 6 em cada 10 doentes e 7 em cada 10 familiares. No que toca ao termómetro da necessidade de ajuda, do lado dos doentes, ter dores aumenta a probabilidade de reportar essa necessidade e, do lado dos familiares, ser do sexo feminino aumenta essa chance, sendo que a revolta afeta 9 em cada 10 desses familiares. O termómetro da depressão é o que tem mais fatores associados (dores, dificuldades financeiras ou idade avançada, tanto para familiares como para doentes, são apenas alguns).

Conclusões do estudo:

  • É importante fazer uma triagem mais precoce de todos estes doentes - atuar junto dos hospitais;
  • Precisa-se monitorizar o distress emocional ao longo de toda a jornada do doente porque não é um fenómeno concentrado numa única fase da doença;
  • A necessidade premente de investir no caráter preventivo;
  • A importância de se investir na formação dos profissionais para que saibam identificar este problema;
  • É necessário determinar o benefício das intervenções.

A metodologia utilizada pela LPCC nas suas consultas de psico-oncologia pode ser consultada e implementada por qualquer profissional de saúde. Basta entrar em contacto com a organização ou consultar o seu site.

Para ver ou rever a apresentação na íntegra do estudo clique AQUI.

Natália Amaral, coordenadora nacional da Psico-Oncologia da LPCC, encerrou a sessão colocando a tónica na necessidade de formação por parte dos profissionais de saúde

Natália Amaral, coordenadora nacional da Psico-Oncologia da LPCC, encerrou a sessão colocando a tónica na necessidade de formação por parte dos profissionais de saúde

Após a apresentação do estudo seguiu-se um painel de debate sobre “Cancro e sofrimento emocional”. Estas foram as principais conclusões:

  • “Quando falamos em cancro é preciso compreender uma série de sentimentos que se instalam: ansiedade no diagnóstico e percurso, a inquietação sobre o futuro, o medo da morte, entre outros”, lembra Cátia Faustino, oncologista no IPO Porto e membro da Direção da SPO.

  • É importante que os doentes sejam identificados numa fase inicial - logo no momento do diagnóstico, se possível - porque logo aí há tendência para o choque, para a incerteza, para a dúvida. “Chegam-nos mais doentes na fase de tratamento do que na fase de diagnóstico e isso preocupa-nos”, conta Sónia Silva, psicóloga da LPCC.

  • Há estudos mundiais que demonstram que depressão não tratada afeta o prognóstico e mortalidade das mulheres com cancro de mama, por exemplo, daí a saúde mental ser prioritária. “Quando falamos em depressão e ansiedade estamos a falar de fatores de mudança de prognóstico a nível global”, explica Susana Almeida, psiquiatra no IPO Porto e membro da Direção da APPO.

  • A formação de profissionais “tem que ser melhorada”. O foco primordial dos médicos é mais técnico e o lado da saúde mental fica para segundo plano e é aí que é “necessário investirmos”, admite Cátia Faustino

  • Hoje em dia há uma integração da saúde mental no hospital, mas é preciso pô-la a trabalhar com outras especialidades e é necessário que estes cuidados saiam para fora dos hospitais, através de equipas comunitárias.

  • A saúde mental deve deixar de ser o parente pobre da saúde em Portugal. Espera-se que com as novas estratégias de saúde se possa dar o salto e alargar a rede de ação."O caminho ainda é longo, temos que trabalhar juntos, embora já estejamos melhor do que há 10 anos", Ricardo Teixeira, psicólogo clínico e investigador.

  • Há falta de psicólogos e psiquiatras nas instituições hospitalares. "Se não fosse a LPCC, muitos familiares teriam ficado sem apoio", destaca Susana Almeida.

  • É preciso que os doentes se sintam acompanhados e que a comunicação com os especialistas funcione, de forma a que não se sintam abandonados. “Ter cancro é um negociar minuto a minuto. Será que amanhã estarei vivo? Estar disponível para os doentes é fundamental”, reforça António Reis Marques, psiquiatra colaborador na LPCC e presidente do Colégio da Ordem dos Médicos.

  • Desde 2009 que a LPCC tem consultas de psicologia. Estão em 50 concelhos do nosso país, para um total de 60 técnicos. Nestes 13 anos, já foram feitas cerca de 80 mil consultas a cerca de 10 mil utentes, sendo que 65% serão doentes e os 35% restantes são familiares.

  • Ao nível da saúde mental, é preciso ter muita atenção ao momento em que o sobrevivente fica livre da doença. Pode ser marcado por uma forte ressaca emocional, uma vez que o foco da sua vida - a sua missão - deixa de estar na cura.

  • “Há muita revolta no doente oncológico e nos familiares”, assegura Ricardo Teixeira, chamando a atenção para a necessidade do doente em trabalhar a maneira de lidar com os filhos, com a família, com problemas que surgem relacionados com questões conjugais ou sexualidade, ou até mesmo com a preparação da morte.





  • É possível mitigar o sofrimento emocional associado ao cancro?

    Os Debates

    “Cancro e sofrimento emocional” é o mote da conferência que se realiza já amanhã, dia 11 de novembro, organizada pela Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC) - em parceria com a MOAI Consulting - e inserida no programa “Vamos Falar?” do “Tenho cancro. E depois?”, projeto editorial da SIC Notícias

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