O cancro continua a ser uma das principais causas de doença em Portugal e afeta, de forma crescente, pessoas em idade jovem. Para além do impacto imediato na saúde, o diagnóstico oncológico e os tratamentos associados podem ter efeitos duradouros na fertilidade de mulheres e homens - uma dimensão ainda pouco discutida fora do contexto clínico, alerta a ginecologista Catarina Marques.
“A quimioterapia e a radioterapia, essenciais no tratamento de vários tipos de cancro, podem comprometer de forma significativa a função reprodutiva. Nas mulheres, estes tratamentos podem acelerar a perda da reserva ovárica ou conduzir a falência ovárica precoce. Nos homens, podem reduzir ou mesmo eliminar a produção de espermatozoides”, frisa a médica.
Ainda assim, sublinha que a preservação da fertilidade masculina continua a ser muito menos falada do que a feminina.
A dimensão do problema tende a agravar-se nos próximos anos. Estimativas internacionais da Organização Mundial da Saúde apontam para um aumento de cerca de 77% nos casos de cancro em todo o mundo até 2050, com mais de 35 milhões de novos diagnósticos anuais previstos. Números que reforçam a necessidade de olhar para além da sobrevivência, considerando também as consequências a longo prazo da doença, nomeadamente ao nível da fertilidade em pessoas em idade reprodutiva.
Para Catarina Marques, o Dia Mundial do Cancro é uma oportunidade para ampliar o debate. “Falar de fertilidade depois do diagnóstico de cancro não é apenas falar de maternidade, nem é um tema exclusivamente feminino. É falar de qualidade de vida, de escolhas futuras e do direito à informação”, afirma. Acrescenta ainda que reconhecer que homens e mulheres enfrentam desafios reprodutivos semelhantes após um diagnóstico oncológico é essencial para uma abordagem mais completa e informada da saúde reprodutiva.
Criopreservar espermatozoides
A medicina dispõe hoje de soluções eficazes para proteger a fertilidade antes do início dos tratamentos oncológicos. Nas mulheres, a criopreservação de ovócitos permite salvaguardar o potencial reprodutivo para o futuro, sem comprometer a eficácia dos tratamentos nem as taxas de sobrevivência. Nos homens, a criopreservação de espermatozoides é um procedimento simples, seguro e amplamente utilizado, preservando a possibilidade de vir a ser pai após a recuperação da doença.
“A experiência clínica mostra que, no momento do diagnóstico, a prioridade é naturalmente a sobrevivência. No entanto, é precisamente nessa fase que decisões informadas podem fazer a diferença no futuro”, explica Catarina Marques.
Por isso, defende que o acesso a informação clara e atempada sobre as opções de preservação da fertilidade permite manter em aberto a possibilidade de parentalidade, mesmo quando esse projeto ainda não está definido.
Depois de ultrapassada a doença, o percurso reprodutivo pode variar. Em alguns casos, a fertilidade recupera de forma espontânea; noutros, é possível recorrer ao material genético previamente preservado para concretizar uma gravidez através de técnicas de reprodução medicamente assistida. “O essencial é que exista acompanhamento especializado e que cada situação seja avaliada de forma individual”, remata.

