Ciência

Ordem de nascimento entre irmãos determina a personalidade?

Ser o primeiro filho, o do meio ou o mais novo continua a ser uma das explicações preferidas para diferenças de personalidade dentro das famílias. Aos irmãos mais velhos atribui-se responsabilidade e maturidade, aos mais novos irreverência ou espírito rebelde. Estas ideias atravessam gerações, mas o que diz a ciência? Até que ponto estas noções têm fundamento científico?

Ordem de nascimento entre irmãos determina a personalidade?
Natalia Lebedinskaia

Investigações recentes sugerem uma resposta cautelosa: a ordem de nascimento pode moldar experiências familiares, mas não determina a personalidade de forma clara ou universal. Ainda assim, crescer como o primeiro filho, o do meio ou o mais novo cria contextos distintos e é nesses detalhes do quotidiano das famílias que certos estudos procuram pistas.

O peso das expectativas sobre os filhos mais velhos

Em muitas famílias, o primeiro filho cresce num contexto particular: atenção parental exclusiva nos primeiros anos, maior proximidade com adultos e, frequentemente, expectativas acrescidas. Não é raro que os filhos mais velhos assumam cedo papéis de responsabilidade a ajudar irmãos mais novos, mediar conflitos ou funcionando como exemplo a seguir.

Nos últimos anos, esta vivência tem sido amplamente discutida, sobretudo no caso das filhas mais velhas, devido às expectativas sociais de cuidado e maturidade frequentemente associadas ao género feminino. Contudo, os especialistas sublinham que a chamada "síndrome da irmã mais velha" não é uma questão clínica, mas sim um padrão cultural e familiar, que varia muito consoante o contexto social, económico e cultural.

A ciência mostra que estes fatores podem influenciar comportamentos e estratégias emocionais, mas não definem de forma consistente traços de personalidade estáveis como extroversão, empatia ou ansiedade.

E os irmãos mais novos? Liberdade, risco e adaptação

No outro extremo, os irmãos mais novos crescem num ambiente diferente. Pais geralmente mais experientes e, por vezes, mais permissivos, assim como a presença de irmãos mais velhos como modelos, podem criar espaço para maior experimentação.

Estudos e análises psicológicas associam frequentemente os filhos mais novos a: maior propensão para comportamentos exploratórios, estratégias sociais mais flexíveis e maior abertura ao risco ou à criatividade.

Alguns investigadores sugerem que, para se destacarem num sistema familiar já estruturado, os irmãos mais novos tendem a procurar nichos próprios, o que pode explicar a reputação de "rebeldes" ou inconformistas. Ainda assim, estes padrões são estatísticos e não deterministas: há muitos irmãos mais novos cautelosos e muitos primogénitos aventureiros.

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O que dizem os grandes estudos sobre personalidade

Investigadores que analisaram dados em larga escala que envolveram milhares de pessoas e avaliaram traços psicológicos fundamentais concluíram o seguinte: a ordem de nascimento tem um impacto reduzido ou inexistente na personalidade adulta.

Uma extensa pesquisa conduzida em 2015, publicada no Journal of Research in Personality, concluiu que não existem diferenças consistentes nos principais traços de personalidade (como extroversão, estabilidade emocional ou sentido de responsabilidade) entre primogénitos e irmãos mais novos.

A única diferença relativamente consistente observada em vários estudos está no domínio cognitivo: os filhos mais velhos tendem a apresentar uma ligeira vantagem em competências verbais, possivelmente devido a maior exposição precoce à linguagem adulta e à atenção exclusiva dos pais nos primeiros anos de vida.

Fora isso, fatores como: genética, qualidade das relações familiares, contexto socioeconómico, experiências fora da família, têm um peso muito maior na forma como a personalidade se desenvolve, uma tese já defendida por Judith Rich Harris em "The Nurture Assumption" (1998).

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Porque continuamos a acreditar nestes rótulos?

A persistência destas ideias explica-se menos pela ciência e mais pela psicologia social. Essas narrativas ajudam a dar sentido a diferenças entre irmãos, encaixam facilmente em histórias pessoais e são reforçadas pela cultura popular, redes sociais e literatura de autoajuda.

Em conclusão, ser o irmão mais velho ou mais novo influencia o lugar que ocupamos na dinâmica familiar, mas isso está longe de definir quem somos. A personalidade resulta de um equilíbrio complexo entre biologia, relações, contexto social e experiências individuais.

Em vez de rótulos rígidos, a ciência aponta para uma conclusão simples: a nossa personalidade não está condicionada pela ordem de nascimento e o lugar que ocupamos na família.