João Lopes

Comentador SIC Notícias

Cultura

Natal cinéfilo? Sim, mas…

Do mais recente filme de Martin Scorsese aos clássicos de Yasujiro Ozu, este é um Natal cinematográfico que reflecte significativas transformações na produção e na difusão.

"Crepúsculo em Tóquio": uma obra-prima de 1957, grande acontecimento cinéfilo no Natal de 2023
"Crepúsculo em Tóquio": uma obra-prima de 1957, grande acontecimento cinéfilo no Natal de 2023

Na semana que antecedeu este Natal, as principais estreias foram um drama de sobrevivência, representante da Espanha na corrida para os Óscares ("A Sociedade da Neve"), um policial italiano ("A Última Noite em Milão") e um "blockbuster" americano ("Aquaman e o Reino Perdido")… Qual a relação destes títulos com as tradições natalícias do mercado cinematográfico?

A resposta é: não há relação. Num artigo de Ryan Gajewski, publicado em "The Hollywood Reporter" (23 dezembro), significativamente intitulado "Porque é que os estúdios já não fazem filmes de Natal como faziam?", podemos encontrar um outro tipo de resposta, dir-se-ia global. Quem a exprime é Sanford Panitch, presidente do Sony Pictures Motion Picture Group: "Os estúdios não vão fazer comédias de Natal quando há seis comédias de Natal numa plataforma de streaming."

O que não deixa de ser curioso é que, entre salas e streaming, os espectadores portugueses podem encontrar uma oferta realmente atraente. E basta citar alguns dos títulos disponíveis: "Maestro", de Bradley Cooper, "Fechar os Olhos", de Víctor Erice [ver trailer aqui em baixo], "Dias Perfeitos", de Wim Wenders, "Napoleão", de Ridley Scott, ou ainda dois clássicos comercialmente inéditos do mestre japonês Yasujiro Ozu ("História de um Proprietário Rural" e "Crepúsculo em Tóquio", respectivamente de 1947 e 1957).

Qual a lógica profunda de tudo isto? Digamos que o próprio mercado anda à procura da lógica que perdeu (ou que se perdeu). As razões serão muitas e complexas, até porque os efeitos da pandemia não bastam para explicar, muito menos perceber, todas as nuances dessa complexidade.

Em boa verdade, o mercado do streaming (cujo empenho cinéfilo é, no mínimo, discutível) impôs novos regimes de circulação dos filmes sem que isso tivesse sido acompanhado de algum repensar do sistema de produção desses mesmos filmes. Como se o impacto de um desses factores dispensasse qualquer reflexão sobre tudo o resto. Como se, enfim, os funcionários da tesouraria pudessem substituir os criadores.

Alguns filmes, realmente excepcionais, permitem perceber que algo está a mudar, ou parece que está… Isto porque os grandes acontecimentos do momento são objectos "híbridos", produzidos pelas plataformas mas, ainda assim, com alguma presença nas salas escuras. Penso em exemplos como "Assassinos da Lua das Flores", de Martin Scorsese, "O Assassino", de David Fincher, e "Maestro", de Bradley Cooper (o primeiro da Apple, os outros dois da Netflix). Aquilo que os une é o amor por uma criatividade que, de facto, não conhece fronteiras, nem no plano narrativo, nem em termos de difusão — eis as nossas prendas de Natal.