É uma luta desigual, tão ao gosto da UEFA e de quem acha que o futebol pode continuar a evoluir ao ritmo dos 10-0 com que a Áustria cilindrou São Marino (que só levou quatro do poderoso Chipre), dos 6-1 que a Turquia assinou na Bulgária ou até dos 5-0 aplicados pela Noruega a Israel.
Esta noite, em Alvalade, o quinto classificado do ranking FIFA recebe o quadragésimo primeiro e… segundo classificado no grupo F, já a cinco pontos de distância dos comandados por Roberto Martínez.
Outro resultado que não passe pela vitória de Portugal perante um adversário que pode em 2026 “comemorar” 40 anos desde a última participação num Campeonato do Mundo constituirá um escândalo semelhante àquele que caracterizou o aflitivo triunfo diante da Irlanda.
Não basta estar a repetir em cada discurso que o sonho dos portugueses, a começar pelos jogadores portugueses e pelo presidente da Federação, passa por vencer o Mundial. Dava imenso jeito que a seleção começasse a solidificar aquilo que a espaços já se viu sob a orientação do técnico catalão, ou seja, um onze capaz de traduzir dentro de campo a extraordinária capacidade individual dos convocados.
A melhor forma de credibilizar uma candidatura ao título é aproveitar o passeio que brinda os sorteios da fase de qualificação com exibições seguras e convincentes, à altura também daquilo que é apregoado por Martínez, que não se cansa de enaltecer a elasticidade tática da equipa ou a maneira como os estágios têm decorrido.
Sem pôr em causa os motivos que levam o selecionador a elogiar o comportamento de alguns internacionais que nem sequer saem do banco ou que jogam por breves minutos, continua a existir uma distância entre aquilo que suscita o regozijo do treinador na sala de Imprensa e o que se vê de facto durante os 90 minutos.
De certeza que o catalão não precisa de ser avisado sobre os riscos que corre caso persista em negar o que salta à vista. Se face a antagonistas que colocam 11 elementos atrás da linha da bola, um “Espalha-Brasas” como Chico Conceição ou um “Oportunista” como Gonçalo Ramos não são equacionáveis para entrar, no mínimo, a meio da segunda parte, então a teimosia de quem lidera pode levar a tropeções fatais.
Os golos “sauditas”, marcados por João Cancelo e Rúben Neves, ao cair do pano, quer em Budapeste quer no último sábado, salvaram Portugal de sustos que deviam ter sido evitados à nascença, bastando para isso copiar o que a vizinha Espanha (derrotada na final da Liga das Nações, convém lembrar) tem exemplificado no Grupo E, onde só ganha e… só marca, não tendo sofrido golos.
Contra a Geórgia de Mamardashvili, Kochorashvili ou Kvaratskhelia, os campeões europeus tão-pouco puderam utilizar o Bola de Prata Lamine Yamal, eleito, no departamento de contabilidade do Al-Hilal, como o jogador mais caro da História. Pelo canhoto do FC Barcelona, o clube que tem Cancelo e Rúben Neves ter-se-á disposto a desembolsar algo como 400 milhões de euros, o que quase duplicaria a verba recorde (222 milhões) que há oito anos o PSG pagou por Neymar.
Os dois juntos, Yamal e Neymar, no que toca à cotação de mercado, não chegariam para igualar o unicórnio Cristiano Ronaldo, o primeiro jogador a ter uma marca pessoal avaliada acima de um bilião (1,2 mil milhões) de euros e que aos 40 anos continua a ser o principal pilar do prestígio internacional do futebol português.
Em certa medida, é uma luta desigual do capitão da seleção. Porventura ao gosto dos que se entregam à pequenez dos mapeamentos das cores clubísticas, dos que se consagram ao campeonatos das queixas e das queixinhas e que no fundo querem tanto a centralização dos direitos televisivos como ir jantar fora com aqueles que “não (se) podem ver”, como diria o presidente de um dos chamados “grandes”.
Se contribuíssem para meter mais unicórnios dentro de casa, não tinham a consciência tão pesada.

