João Rosado

Comentador SIC Notícias

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Metam os unicórnios no futebol português

Logo, face à Hungria, quando Cristiano Ronaldo capitanear a seleção, há motivos para refletir.

Metam os unicórnios no futebol português
NurPhoto

É uma luta desigual, tão ao gosto da UEFA e de quem acha que o futebol pode continuar a evoluir ao ritmo dos 10-0 com que a Áustria cilindrou São Marino (que só levou quatro do poderoso Chipre), dos 6-1 que a Turquia assinou na Bulgária ou até dos 5-0 aplicados pela Noruega a Israel.

Esta noite, em Alvalade, o quinto classificado do ranking FIFA recebe o quadragésimo primeiro e… segundo classificado no grupo F, já a cinco pontos de distância dos comandados por Roberto Martínez.

MANUEL DE ALMEIDA

Outro resultado que não passe pela vitória de Portugal perante um adversário que pode em 2026 “comemorar” 40 anos desde a última participação num Campeonato do Mundo constituirá um escândalo semelhante àquele que caracterizou o aflitivo triunfo diante da Irlanda.

Não basta estar a repetir em cada discurso que o sonho dos portugueses, a começar pelos jogadores portugueses e pelo presidente da Federação, passa por vencer o Mundial. Dava imenso jeito que a seleção começasse a solidificar aquilo que a espaços já se viu sob a orientação do técnico catalão, ou seja, um onze capaz de traduzir dentro de campo a extraordinária capacidade individual dos convocados.

A melhor forma de credibilizar uma candidatura ao título é aproveitar o passeio que brinda os sorteios da fase de qualificação com exibições seguras e convincentes, à altura também daquilo que é apregoado por Martínez, que não se cansa de enaltecer a elasticidade tática da equipa ou a maneira como os estágios têm decorrido.

Sem pôr em causa os motivos que levam o selecionador a elogiar o comportamento de alguns internacionais que nem sequer saem do banco ou que jogam por breves minutos, continua a existir uma distância entre aquilo que suscita o regozijo do treinador na sala de Imprensa e o que se vê de facto durante os 90 minutos.

De certeza que o catalão não precisa de ser avisado sobre os riscos que corre caso persista em negar o que salta à vista. Se face a antagonistas que colocam 11 elementos atrás da linha da bola, um “Espalha-Brasas” como Chico Conceição ou um “Oportunista” como Gonçalo Ramos não são equacionáveis para entrar, no mínimo, a meio da segunda parte, então a teimosia de quem lidera pode levar a tropeções fatais.

Os golos “sauditas”, marcados por João Cancelo e Rúben Neves, ao cair do pano, quer em Budapeste quer no último sábado, salvaram Portugal de sustos que deviam ter sido evitados à nascença, bastando para isso copiar o que a vizinha Espanha (derrotada na final da Liga das Nações, convém lembrar) tem exemplificado no Grupo E, onde só ganha e… só marca, não tendo sofrido golos.

Pedro Nunes

Contra a Geórgia de Mamardashvili, Kochorashvili ou Kvaratskhelia, os campeões europeus tão-pouco puderam utilizar o Bola de Prata Lamine Yamal, eleito, no departamento de contabilidade do Al-Hilal, como o jogador mais caro da História. Pelo canhoto do FC Barcelona, o clube que tem Cancelo e Rúben Neves ter-se-á disposto a desembolsar algo como 400 milhões de euros, o que quase duplicaria a verba recorde (222 milhões) que há oito anos o PSG pagou por Neymar.

Murad Sezer

Os dois juntos, Yamal e Neymar, no que toca à cotação de mercado, não chegariam para igualar o unicórnio Cristiano Ronaldo, o primeiro jogador a ter uma marca pessoal avaliada acima de um bilião (1,2 mil milhões) de euros e que aos 40 anos continua a ser o principal pilar do prestígio internacional do futebol português.

Soccrates Images

Em certa medida, é uma luta desigual do capitão da seleção. Porventura ao gosto dos que se entregam à pequenez dos mapeamentos das cores clubísticas, dos que se consagram ao campeonatos das queixas e das queixinhas e que no fundo querem tanto a centralização dos direitos televisivos como ir jantar fora com aqueles que “não (se) podem ver”, como diria o presidente de um dos chamados “grandes”.

Se contribuíssem para meter mais unicórnios dentro de casa, não tinham a consciência tão pesada.