Economia

Novo Banco. José Honório sugere que banco não registou todas as perdas até ter capital em 2017

MANUEL DE ALMEIDA

Ex-administrador do Novo Banco na Comissão Eventual de Inquérito Parlamentar às perdas registadas pelo Novo Banco e imputadas ao Fundo de Resolução, na Assembleia da República.

O antigo administrador do Novo Banco José Honório sugeriu que a instituição, depois da sua saída e até 2017, não registou todas as perdas até ter acesso a capital que as pudesse cobrir.

Questionado pela deputada Mariana Mortágua (BE) na comissão eventual de inquérito parlamentar às perdas registadas pelo Novo Banco e imputadas ao Fundo de Resolução se "houve uma política definida do Novo Banco" e "com o conhecimento do Banco de Portugal [BdP] e dos auditores para não haver registo de perdas até haver capital para poder haver registo de perdas", José Honório anuiu.

"Eu penso que não podemos tirar outra conclusão. Ou seja, sem poder dizer que é essa, eu não consigo tirar outra que não essa", respondeu o antigo responsável do BES e Novo Banco à deputada.

José Honório acrescentou que se tivesse aceitado ficar "na administração do Novo Banco depois de setembro", teria de "ter estado de acordo com tudo isto".

Anteriormente, o gestor já tinha questionado, por exemplo, "porque é que a Deloitte diz que entre 04 de agosto de 2014 e 31 de dezembro de 2018 a carteira de créditos vencidos do Novo Banco aumentou 2,5 mil milhões de euros", de acordo com dados conhecido no ano passado.

"Porque é que não achamos estranho que só em 2017 e 2018 é que houve redução dos NPL [crédito malparado] e por que via? Por via da alienação e pela via do 'write-off'", prosseguiu.

Explicitados os critérios para fazer um "write-off"

Mais tarde, também questionou por que motivo "só no relatório do Novo Banco de 2018 é que nas políticas de gestão estão explicitados os critérios para fazer um 'write-off' e até lá nunca esteve?".

"Um critério de boa gestão é que deva estar. Isso faz parte do sistema de controle interno", referiu, indo depois "ainda mais longe".

"O banco teve as contas de abertura auditadas. E no final vou vender o banco à Lone Star e em que vendo 75% por zero com o compromisso de lá porem 1.000 milhões?", voltou a interrogar-se, concluindo que "alguma coisa não está certa".

"Ou as contas de trás estavam todas erradas, e alguém se enganou a emitir pareceres, e quando digo alguém digo gente que sabe o que está a fazer, quer do conselho fiscal quer da sociedade revisora de contas", dizendo também que "isto nunca é questionado", e apenas "o valor do que é vendido".

Primeira responsabilidade não é de quem audita as contas

José Honório salientou ainda que "a primeira responsabilidade não é de quem audita as contas, é de quem as apresenta".

O antigo administrador disse também ser "evidente", por exemplo, que "a Ongoing devia estar imparizada a 100%" nas contas do banco, mas que não havia capital para tal.

"Há restrições de capital. As coisas têm que ser feitas com os recursos que se têm. Que há consciência de que as coisas não estavam completamente bem, só podia haver. Não podia haver outra", disse.

"Se me perguntam se eu acho que a resolução foi o melhor caminho, eu claramente que não"

Já no final da audição, questionado acerca da solução adotada com a resolução do BES, José Honório disse que "claramente" não foi a melhor opção.

"Se me perguntam se eu acho que a resolução foi o melhor caminho, eu claramente que não e acho que isso ficou patente hoje durante o tempo que eu estive aqui a conversar convosco", disse aos parlamentares.

José Honório classificou ainda de "pecado capital" a não separação "entre a figura do acionista e do regulador", algo que "inquinou de sobremaneira a relação saudável, de confiança que deveria existir entre a administração de uma entidade e o seu acionista e a capacidade também do seu acionista contribuir para ajudar a resolver problemas".

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