20 anos do 11 de setembro

11 de Setembro. Al-Qaeda reinventa-se e adapta-se aos novos tempos, concluem analistas

Sean Adair

Analistas dizem que a Al-Qaeda pode estar mais fragilizada, mas não deixa de constituir um risco de segurança.

A organização terrorista responsável pelos ataques de 11 de Setembro, a Al-Qaeda, está hoje mais descentralizada e mais próxima das comunidades locais, procurando reinventar-se perante a emergência do Estado Islâmico, concluem especialistas.

Um painel de especialistas nacionais e internacionais consultado pela Lusa conclui que a Al-Qaeda pode estar mais fragilizada, mas não deixa de constituir um risco de segurança, no momento em que se reorganiza em África e no Médio Oriente, com um novo modelo de liderança e aproveitando a saída das forças internacionais do Afeganistão.

Ausência de mecanismos de vigilância

Tom Copeland, especialista em contraterrorismo do Centennial Institute, um 'think tank' do Colorado (EUA), diz-se preocupado com a ausência de mecanismos de vigilância sobre células da Al-Qaeda no Afeganistão, agora que as forças norte-americanas abandonam o território, por aquilo que isso significa em termos de incapacidade para detetar a evolução desta organização terrorista.

"A retirada dos Estados Unidos do Afeganistão é a melhor notícia que os novos dirigentes da Al-Qaeda poderiam ter recebido. Sem as tropas internacionais e com os talibãs no poder, não demorará muito a que este grupo, perigoso e bem organizado, volte a ter capacidade de ameaça ao Ocidente", disse Copeland à Lusa.

Este especialista considera que a ausência de embaixadas, "antenas" da CIA e bases militares norte-americanas no Afeganistão vão deixar os Estados Unidos "cegos" relativamente à inevitável reconstituição de células da Al-Qaeda na região, dando-lhe possibilidade de recuperar o prestígio e a influência que a organização teve na altura dos ataques de 11 de Setembro de 2001.

"É muito diferente (...) mas continua muito igual"

Nuno Lemos Pires, brigadeiro-general e professor na Academia Militar, defende que a Al-Qaeda de há 20 anos e a de hoje é, ao mesmo tempo, diferente e igual.

"É muito diferente porque praticamente não tem 'terreno controlado' em lado nenhum e tem uma rede muito dispersa com grandes dificuldades de concertação operacional. Mas continua muito igual porque as ideias radicais que defende e os meios que estão dispostos a usar para atingir os seus objetivos mantêm-se, praticamente, inalteráveis", disse Lemos Pires em declarações à Lusa.

Para o brigadeiro-general, um fator que introduz diferença na Al-Qaeda de hoje relativamente à de 2001 foi a emergência do Estado Islâmico (EI), "que obriga (esse grupo terrorista) a mostrar políticas e estratégias muito distintas, para que não se confundam nem as mensagens nem os métodos".

"Para que deveríamos permanecer no Afeganistão, se a própria Al-Qaeda já abandonou o país?"

Recentemente, numa conferência de imprensa, o Presidente dos EUA, Joe Biden, desvalorizou a relevância da Al-Qaeda no Afeganistão, alegando que o grupo terrorista deixara de ter força naquele país.

"Para que deveríamos permanecer no Afeganistão, se a própria Al-Qaeda já abandonou o país?", interrogava-se o Presidente norte-americano, para justificar a retirada dos soldados internacionais.

Contudo, um dia depois, Biden foi desmentido pelo Pentágono, que emitiu um comunicado referindo que a Al-Qaeda tem "existência" no Afeganistão, embora um seu porta-voz, John Kirby, numa entrevista televisiva, não tenha sido capaz de referir uma estimativa de número de operacionais do grupo terrorista na região.

"Visibilidade e alento aos 'jihadistas' internacionais"

Lemos Pires conclui, neste contexto, que "o que se passou agora no Afeganistão dá visibilidade e alento aos 'jihadistas' internacionais, tanto no Ocidente como dentro do próprio país", considerando que a Al-Qaeda vai tentar "explorar este 'momentum'".

Também Felipe Pathé Duarte concorda que, nestes últimos 20 anos, a Al-Qaeda adaptou-se.

"Transformou-se numa organização descentralizada, passando o seu centro de gravidade da estrutura para a ideologia. E isso permite que, em teoria, qualquer um que beba da ideia, possa ser um 'jihadista'. 'Liberalizou' o acesso à 'jihad' global. Portanto, tornou a 'jihad' global num ecossistema muito complexo", disse à Lusa este professor da Nova School of Law e especialista em segurança internacional.

"Há 20 anos a Al-Qaeda era uma organização estruturada, verticalizada e articulada com cadeias de comando. Tinha objetivos político-militares bem definidos. E cumpriu-os. Basta ler o documento Cavaleiros sob a Bandeira do Profeta - escrito por Ayman al-Zawahiri, em julho de 2001", explicou Pathé Duarte.

"A Al-Qaeda reposicionou-se"

A situação hoje é mais difícil para a organização terrorista, como lembrou à Lusa Diogo Noivo, consultor de Risco Político, alegando que a intervenção militar internacional iniciada em 2001 enfraqueceu a Al-Qaeda, forçando o seu núcleo a dispersar-se por redutos frágeis e exíguos e obrigando a um novo posicionamento.

"Consciente das adversidades, a Al-Qaeda reposicionou-se: dedicou-se a criar elos com comunidades locais em África e na Ásia, colmatando carências sociais desatendidas pelos Estados, em detrimento de campanhas terroristas na Europa e nos Estados Unidos. Enquanto Washington procurava ganhar 'hearts and minds' no Afeganistão, a Al-Qaeda fê-lo noutras paragens", defende Diogo Noivo.

Este especialista refere-se a esta nova fase como a era da "paciência estratégica" e lembra que, para além da sua nova implantação em África e na Ásia, no Afeganistão a organização terrorista cuidou dos laços que os unem aos talibãs.

"De acordo com relatórios da ONU, a Al-Qaeda tem presença significativa em 14 das 34 províncias afegãs e funcionou como um multiplicador de força dos talibãs (comunicações, informações e operações de combate) na recente reconquista territorial. A causa comum, a lealdade curtida em combate e, recentemente, uma política de casamentos entre membros dos dois grupos (muito relevantes num país onde laços tribais e de clã constituem a base do tecido social), mostraram-se suficientes para resistir aos últimos 20 anos", conclui Diogo Noivo.

Liderança da organização

Hoje, a organização sofre ainda de problemas de liderança (que em 2001 estava entregue ao carismático Ossama Bin Laden) e reinventa-se também nesta área.

"Atualmente o que se verifica é que não só a liderança de Al-Zawahiri é menos carismática, como a Al-Qaeda tem menor capacidade de execução e operacionalidade", defende Ana Isabel Xavier, especialista em política internacional.

"Daí que, neste momento, a Al-Qaeda se assemelhe mais à uma espécie de conselho de administração que aconselha, apoia e inspira, com algumas limitações, vários movimentos afiliados que vão desde o Magrebe à África subsariana e, naturalmente, o Médio Oriente", concluiu esta especialista, referindo que o EI também retirou espaço mediático àquela organização terrorista.

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