Abusos na Igreja Católica

400 casos de abuso na Igreja Católica "não me parece particularmente elevado", diz Marcelo

400 casos de abuso na Igreja Católica "não me parece particularmente elevado", diz Marcelo
RODRIGO ANTUNES/Lusa

O Presidente da República não ficou surpreendido com o número revelado pela Comissão Independente, que está a recolher denúncias sobre abusos sexuais de crianças na Igreja Católica. O Bloco de Esquerda fala num “insulto” de Marcelo.

Loading...

A Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa recebeu até agora “424 testemunhos”, revelou esta terça-feira o coordenador Pedro Strecht. Questionado sobre este número, o Presidente Marcelo disse não ser “particularmente elevado”.

À pergunta dos jornalistas, à margem de um evento no Palácio de Belém, sobre se ficou surpreendido com o número, Marcelo não hesitou e respondeu: “Não, não. Aliás tenho acompanhado deste o início a atividade da comissão” e, acrescentou, "não há limite de tempo para estas queixas”.

"Há queixas que vêm de pessoas de 90/80 anos que denunciam o que sofreram há 60, 70 ou 80 anos. O que significa que estamos perante um universo de milhões de jovens ou muitas centenas de milhares de jovens que se relacionam com a Igreja Católica, pelo que haver 400 casos não me parece particularmente elevado. Noutros países e com horizontes mais pequenos houve milhares de casos”

E podem estes casos, ainda assim, afetar a Jornada Mundial da Juventude no próximo ano em Portugal? "Não tem nada a ver, nunca se é manchado quando se pretende apurar a verdade. A democracia ganha sempre com o exercício da liberdade e obriga as instituições a reverem-se. Já disse isso há bastante tempo - Igreja, escolas, instituições de solidariedade social que tenham determinado tipo de comportamentos que venha a provar-se criminosos, estão obrigadas a fazer uma revisão, mas isso é bom".

A resposta do chefe de Estado não caiu bem ao Bloco de Esquerda. Através do Twitter, o líder parlamentar Pedro Filipe Soares considerou esta “posição (…) um insulto às mais de 400 vítimas” e deixou no ar a questão: "É este o Presidente de uma República laica e de um Estado de Direito? Lamentável Fosse um caso apenas e já era preocupante”. Entretanto, a indignação estendeu-se a mais partidos.

Esta terça-feira, em conferência de imprensa, o coordenador da Comissão salientou que os 424 casos são aqueles que foram validados pelos membros porque “o número mínimo de vítimas será muitíssimo maior do que as quatro centenas”. Desse total, 17 depoimentos já seguiram para o Ministério Público (MP).

Pedro Strecht sublinhou, porém, que a “maior parte já prescreveu”. Aliás, a prescrição é a razão que explica a "grande diferença" entre o número de situações reportadas e as 17 que foram já remetidas ao MP. Sobre este ponto, adiantou ainda que "agora existem mais 30 situações em estudo para idêntico procedimento" na justiça.

"Existem diversas situações em que o mesmo alegado abusador é referido por diferentes pessoas ao longo dos anos, o que reforça a noção de risco de prossecução temporal deste tipo de atividade e em locais diversos onde vão sendo colocados para exercer atividade religiosa", observou Pedro Strecht, que disse também existirem contactos com a Polícia Judiciária sobre situações já reportadas a esta instituição e que, por isso, "dispensam nova sinalização ao MP".

As denúncias e testemunhos podem chegar à comissão através do preenchimento de um inquérito 'online' em darvozaosilencio.org, através do número de telemóvel +351917110000 (diariamente entre as 10:00 e as 20:00), por correio eletrónico, em geral@darvozaosilencio.org e por carta para "Comissão Independente", Apartado 012079, EC Picoas 1061-011 Lisboa.

Últimas Notícias
Mais Vistos