Abusos na Igreja Católica

Declarações do Presidente sobre abusos na Igreja devem ser "desdramatizadas", diz PCP

Declarações do Presidente sobre abusos na Igreja devem ser "desdramatizadas", diz PCP
ANTÓNIO COTRIM/Lusa

Sem comentar, mas comentando, Jerónimo de Sousa defende que mais do que as declarações do Presidente da República importa investigar os factos e tirar as “consequências que são devidas”.

Loading...

O secretário-geral do PCP considerou, esta quarta-feira, que as declarações do Presidente da República sobre as queixas de abusos sexuais de menores na Igreja Católica Portuguesa devem "ser sustentadas, desdramatizadas, sem esquecer que é preciso fazer a investigação".

"Quero transmitir que nós consideramos que a matéria é muito sensível e que o tratamento a dar a esse episódio, a essas declarações, naturalmente precisam de ser sustentadas, desdramatizadas, sem esquecer que é preciso fazer a investigação devida, concreta", afirmou Jerónimo de Sousa aos jornalistas no Palácio de Belém, em Lisboa.

Questionado se concorda que o chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, deve um pedido de desculpas às vítimas por ter qualificado como relativamente baixo o número de queixas em Portugal, Jerónimo de Sousa retorquiu que "o PCP não costuma dar orientações ao Presidente da República".

"Mais do que pedir desculpas a questão é: existe um problema, existe uma matéria, há que fazer o apuramento e naturalmente tirar as consequências desses factos anunciados, comprovados e, naturalmente, com as consequências que são devidas", acrescentou.

Perante a insistência dos jornalistas para que comentasse diretamente as declarações do Presidente da República, respondeu: "Não queria classificar, mas creio que essa declaração não corresponde a esse posicionamento que o nosso partido tem".

O secretário-geral do PCP centrou-se na necessidade de se realizar um "apuramento" e depois "e naturalmente assumir as consequências desses factos".

"É uma matéria que merece de facto respostas e o tratamento com profundidade e determinação. Admitimos que caso se confirmem aquilo que são denúncias, suspeitas, que deveria haver naturalmente as consequências para quem as praticou", reforçou Jerónimo de Sousa.

Na terça-feira, questionado sobre a recolha de 424 testemunhos de abusos sexuais contra crianças na Igreja Católica em Portugal, o Presidente da República afirmou não estar surpreendido, salientou que "não há limite de tempo para estas queixas" que têm estado a ser recolhidas, algumas relativas "há 60 ou há 70 ou há 80 anos".

"Significa que estamos perante um universo de pessoas que se relacionou com a Igreja Católica de milhões ou muitas centenas de milhares", prosseguiu Marcelo Rebelo de Sousa, concluindo: "Haver 400 casos não me parece que seja particularmente elevado, porque noutros países e com horizontes mais pequenos houve milhares de casos".

Os 424 testemunhos foram recolhidos pela designada Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, uma estrutura constituída por decisão da Conferência Episcopal Portuguesa e coordenada pelo pedopsiquiatra Pedro Strecht.

Face às críticas que as suas declarações suscitaram -- foram condenadas de imediato nas redes sociais incluindo por dirigentes e deputados de PS, Chega, IL, BE, PAN e Livre --, o chefe de Estado divulgou uma nota a afirmar "este número não parece particularmente elevado face à provável triste realidade, quer em Portugal, quer pelo mundo", admitindo que "terá havido também números muito superiores em Portugal".

Depois, o Presidente da República falou para a RTP e para a SIC a reforçar a mesma mensagem, reiterando que 424 queixas lhe parece um número "curto", declarando que aceita democraticamente as críticas que recebeu, mas não as compreende.

Últimas Notícias
Mais Vistos