Afeganistão: Capital dos Errantes

"O cemitério dos barcos sem nome"

Pedro Coelho

Pedro Coelho

Jornalista Grande Reportagem SIC

José Silva

Repórter de Imagem

O título não me pertence. Aproprio-me de um livro marítimo de um dos maiores escritores ibéricos, Arturo Pérez-Reverte. Este título é a síntese da curta história que vos quero contar.

Mitilini, cidade capital da ilha grega de Lesbos, continua a receber, todos os dias, apesar do Inverno, uma média de 40 refugiados. No verão, o número dispara, ultrapassando a centena.

As autoridades gregas, desde 2015 sem mãos a medir, recebem-nos e instalam-nos no campo de Mória, o maior campo de refugiados da Europa, nesta altura com 4500 ocupantes, ampliando em 1500 a capacidade máxima. (Mória fica colado ao inferno; noutro dia, falar-vos-ei de Mória).

Lesbos fica a um curto salto da costa turca. A distância marítima mínima entre a Turquia e a ilha grega é de apenas 6 quilómetros e seiscentos metros.

Os refugiados, por estes tempos maioritariamente afegãos, quando sentem uma brecha, gastam os últimos trocados na travessia entre a costa da Anatólia (Turquia) e a ilha grega de Lesbos.

As autoridades turcas fecham os olhos e deixam-nos mergulhar na aventura. Se a Grécia não tem mãos a medir, a Turquia ainda menos. Se seis quilómetros e seiscentos metros parecem curto salto, o mar encarrega-se de o tornar, tantas vezes, salto mortal.

Chegam a Lesbos em barcos pouco maiores que caixões. Na costa da ilha grega, dezenas desses “barcos” fizeram a última viagem.

Entre 2015 e 2019 cada um dos milhares de refugiados que chegou a Lesbos nesses barcos sem nome trouxe vestido um colete salva vidas. Os traficantes que os transportam incluem, na tarifa pesada da viagem, um colete salva vidas.

Quando chegam à praia de Lesbos, os refugiados abandonam o colete; e os traficantes, sempre que fazem a viagem, misturam-se com os refugiados e abandonam o barco.

Lesbos tornou-se cemitério de barcos sem nome e montra silenciosa de coletes salva-vidas.

Nos primeiros anos desta tragédia, destroços de barcos e milhares de coletes tomaram conta das praias, roubando à ilha o capital turístico que ainda conserva.

As autoridades locais decidiram limpar as praias dessa imagem perturbadora.

A uma hora e quarenta minutos de carro de Mitilini, exatamente nas costas da capital, uma montanha tornou-se última morada desses sinais de vidas errantes.

Essa montanha, como um cemitério, é um pesado lugar de silêncio. É certo que os coletes são de gente que sobreviveu. Mas há uma diferença entre sobreviver e viver.

Os milhares de refugiados que chegam à Grécia estão vivos, mas perderam o direito ao futuro. O presente prolonga-se igual há demasiado tempo.

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